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Via Francigena Sul:

Monte Sant’Angelo - Santa Maria di Leuca

(580 kms - 23 dias)

 

Fechamento de um ciclo...

                             

A Via Francigena Sul encerra mais um ciclo em nossas caminhadas pela Itália. Entretanto, muitas foram as dúvidas até a decisão de fazer este percurso. Explicando melhor, todos os anos encontramos pessoas que nos inspiram a seguir outros caminhos. Com isto, vamos “colecionando” tantos roteiros legais que dificultam as escolhas. 

                 

Depois de muito pensar, decidimos que era hora de terminar a Via Francigena. Em 2018, caminhamos pela Via Francigena Central, de Aosta a Roma. Em 2023, foi a vez da Via Francigena Nord. Começamos a caminhar em Calais, na França. Tecnicamente, esse percurso começa em Canterbury, na Inglaterra, dois dias antes da travessia do Canal da Mancha. Mas, devido à burocracia naquele momento, resolvemos iniciar nossa caminhada em Calais e chegar a Aosta. Nessas duas caminhadas somamos 2.350 km. Para terminar esse longo percurso, era preciso ir pela Via Sud, que inicia em Roma e termina em Santa Maria di Leuca. Entretanto, gostaríamos de caminhar ao longo do mar. Por isso, optamos pela Variante di Monte Sant’Angelo, que segue pelo Monte Gargano, na Apúlia, até Santa Maria di Leuca. Caminho perfeito para unir nossos dois desejos: terminar a Via Francigena e estar ao lado do mar. 

                 

Saímos de casa no dia 12 de abril, um domingo, num voo, via Lisboa, que chegaria a Roma somente na madrugada do dia 14 de abril, terça-feira. Isso quer dizer que passamos o dia da segunda-feira em Lisboa revendo amigos, mesmo que rapidamente. Caminhamos pela cidade e, à tarde, retornamos ao aeroporto para embarcar no voo que iria para Roma à noite e chegaria na primeira hora do dia seguinte. Com isso, optamos por encontrar uma hospedagem próxima ao aeroporto Fiumicino. 

                 

Na manhã, depois de um descanso merecido, retornamos ao aeroporto para pegar um trem até Roma Tiburtina. De lá, pegamos um ônibus rumo a Monte Sant’Angelo. Foi uma longa viagem de sete horas. Ainda bem que era um ônibus confortável e relativamente vazio, o que nos permitiu descansar e apreciar um pouco mais da “bella Italia”. Já bem perto da cidade, trocamos de ônibus. Embarcamos, nós e o motorista, num micro-ônibus da mesma empresa. 

                 

O nosso já amigo motorista era de Monte Sant’Angelo. No caminho, ele teve a “bendita” curiosidade de perguntar onde ficaríamos hospedados. Dissemos que ficaríamos em um Airbnb por dois dias e ele perguntou de quem era a hospedagem. Falamos o nome da proprietária. Foi o suficiente para que ele ligasse para a esposa e, em seguida, a proprietária ligasse de volta explicando onde ficava a hospedagem. Com isso, o motorista nos deixou a poucos passos do Airbnb às 22h. 

                 

Sabe o que isso representou na nossa vida, naquele momento? Tudo! A cidade é medieval; as ruas são labirintos com escadas que sobem e descem. Naquela hora, com o cansaço acumulado da viagem, seria muito difícil encontrar a hospedagem. Enfim, chegamos sãos e salvos e descansamos numa cama confortável do nosso lindo “studio”.

                 

No dia seguinte, acordamos sem muita pressa. Tomamos nosso café da manhã e resolvemos conhecer a cidade, o santuário de São Miguel Arcanjo e pegar nossas credenciais no endereço que já tínhamos. Abrimos a porta e nos deparamos com uma chuva fina e fria e uma espessa neblina, que não dava para ver um palmo à nossa frente. Mas seguimos adiante. Para onde? Este era o problema. Perguntamos a uma senhora onde ficava o santuário. Ela explicou, mas foi uma missão quase impossível chegar. O GPS do celular não mostrava o caminho mais fácil, mas sim as ruas tortuosas. O subir e descer de escadas, o entrar e sair nos becos e a neblina complicavam a situação. Foi quando encontramos uma rua que nos parecia ser a principal. Dali chegamos aonde queríamos. 

                 

Os pontos altos da cidade são o Santuario di San Michele Arcangelo, construído numa gruta onde houve a aparição do anjo, o Battistero di San Giovanni in Tumba, a Chiesa Santa Maria Maggiore, o Castello, o Quartiere Junno, o bairro histórico onde estávamos hospedados, e uma vista linda do Golfo de Manfredonia. 

                 

Como demoramos para achar o santuário, tivemos que esperar até as 14h30, quando reabriu, mas valeu a pena. Chegamos bem na hora da cerimônia da Adoração ao Santíssimo Sacramento. Foi lindo e muito emocionante. O Santuário foi construído numa gruta. A lenda diz que ele foi milagrosamente consagrado pelo próprio Arcanjo em 490 d.C., após uma série de aparições a um bispo da região. Hoje é Patrimônio Mundial da UNESCO. 

                 

Emocionados, percorremos todo o complexo, visitamos toda a cidade, antes de entrarmos em contato com o Nico, que nos daria as credenciais da Via Francigena. Nico foi atencioso e foi ao nosso encontro. Assim, de posse da credencial, já estávamos prontos para partir no dia seguinte, embora houvesse preocupação com o clima, que não estava nada favorável para a descida, muito rústica e com pedra. Só para ter uma ideia, o nome da trilha é Scannamogliera, termo do dialeto local que significa literalmente "alta e forte". O nome deriva da severa inclinação e da dificuldade do terreno rochoso. É uma trilha extremamente íngreme e cansativa, com fama de ser tão impiedosa que exige um esforço extremo de quem a sobe ou desce. 

 

Descendo a trilha Scannamogliera ...

                 

Acordamos com um dia lindo. O sol nos brindou com uma luz incrível. Um friozinho gostoso para caminhar nos ajudaria naquela etapa difícil. Saímos animados, mas um pouco receosos, sem saber ao certo o que encontraríamos no caminho. Afinal, a chuva do dia anterior ainda deixava tudo molhado, e a descida pedregosa muito escorregadia. 

                 

Enfim, chegamos facilmente ao início da trilha Scannamogliera. Paramos para apreciar o Parque Gargano, o que realmente foi de tirar o fôlego. E demos os primeiros passos montanha abaixo. Tudo com muito cuidado porque as pedras estavam realmente muito escorregadias. Ainda escorria um pouco de água. De repente, aconteceu o que a gente temia, um tombo com a mochila nas costas. O Helinho escorregou e caiu de bunda no chão. Foi tragicômico. Mas ficamos um pouco preocupados com o joelho que torceu e a dor foi instantânea. Ficamos ali esperando e pensando no que fazer. Massagem, remédio para passar a dor e nos refazermos do susto. Afinal, ainda estávamos apenas começando. 

                 

Refeitos, retomamos nossa descida. Foi uma descida bem íngreme, passo a passo, com muito cuidado, desviando do gado que ali pastava e conferindo no GPS se o caminho estava correto. A marcação da trilha inicial e final era visível, mas, no decorrer da descida, tivemos muitas dúvidas pelo mato alto. Num trecho, percebemos que estávamos indo no sentido errado e tivemos que saltar uma cerca de arame farpado até encontrarmos a nossa rota novamente. 

                 

Passamos por uma igreja rupestre Jazzo Ognissanti. A igreja, escavada na rocha, data do século IX. Ali existia uma aldeia. As habitações também eram escavadas na rocha. Vimos vestígios de caminhos, escadarias, cisternas, currais e fornos. No interior da gruta ainda dá para ver os restos de um altar e alguns afrescos de São Miguel e da Virgem com o Menino Jesus, assim como algumas cruzes.

                 

Apesar da dificuldade, não nos deparamos com o que foi relatado posteriormente à nossa descida. Num grupo de conversas com pessoas que fizeram este percurso, foi reportada a presença de cachorros que intimidavam quem descia. Nós não os vimos, mas quem passou por essa situação disse que eram bem agressivos. O assunto chegou à prefeitura de Monte Sant’Angelo, mas não soubemos quais medidas foram tomadas para resolver o problema.

                 

Quase no final da descida, chegamos numa estrada rural. E, olhando para trás, pudemos ver a imensidão daquela montanha e do vale florido. Foi mágico e, ao mesmo tempo, desafiador. Depois de caminharmos por seis horas, chegamos ao nosso destino, Manfredonia.

                 

Manfredonia é uma cidade histórica, com um porto, praias e uma fusão de história romana, construções medievais e natureza. Percorremos parte da cidade, caminhamos pela rua do comércio e fomos abordados por dois senhores que distribuíam mensagens religiosas. Paramos para conversar e eles ficaram impressionados ao saberem que seguiríamos até a última cidade, no final da Puglia, na península salentina. No final da tarde, há um vai e vem de pessoas, nessa rua principal, onde amigos e famílias se encontram para conversar, tomar um café ou um sorvete e ficar por ali, até fechar o comércio, por volta das 21 horas. 

                   

Em Manfredonia começava nosso caminho ao nível do mar. No dia seguinte, partimos para Zappponeta, num caminho longo e sem muitos atrativos. Zapponeta é uma cidade pequena e tranquila. Destaca-se por seu ambiente pacífico de vila de pescadores e por suas praias calmas e de origem agrícola. 

                 

Seguir o caminho de Zapponeta a Margherita de Savoia foi tranquilo, apesar do sol e de uma estrada nada atrativa. Na verdade, ficamos com uma pontinha de decepção nesses dois dias em que seguiram à espetacular descida no Parque Gargano. Somente ficamos mais satisfeitos quando encontramos um senhor e paramos para conversar. Contamos a história de sempre, de caminhadas e do que pretendíamos, e ouvimos dele: “O importante é fazer o que te faz feliz.” 

                 

Margherita di Savoia fica entre o mar Adriático e a maior salina da Europa. A cidade é famosa por suas praias de areia dourada e suas águas termais. 

                 

Em todas as cidades tínhamos que carimbar as credenciais. Por isso, fomos à catedral e, por coincidência, o pároco esteve numa missão no Maranhão. Contou um pouco sobre a missão, nos despedimos e fomos caminhar “lungo mare”. Depois fizemos nossas compras para partir logo cedo em direção a Barletta. 

                 

O início do caminho também foi bem chato, com asfalto, estrada muito perigosa, até que encontramos um biker que nos mostrou outro caminho. Ele disse que seria muito mais agradável e ao lado do mar. Achamos que valeria a pena e voltamos 1 km para pegar outra estradinha. Num certo ponto, paramos para descansar. Olhamos no GPS e nos demos conta de que este caminho aumentaria muito a nossa jornada, que já era bem difícil debaixo de um sol muito forte. Passaram dois italianos, também pedalando, e resolvemos tirar a dúvida se deveríamos seguir por aquela estrada. Não foi a melhor coisa que fizemos. Os dois não se entendiam e acabamos seguindo nosso instinto. Seguimos adiante até que, em certo momento, vimos que o mar não estava muito longe dali. E, finalmente, chegamos numa praia. Ficamos felizes por termos um pouco de brisa a nosso favor. Assim, seguimos pela praia até Barletta. 

                 

Era domingo e as pessoas da cidade estavam reunidas na orla; todos, muito bem-vestidos, olhavam para nós, como se fôssemos dois forasteiros. Éramos dois “mochileiros”, suados e cansados de uma caminhada exaustiva. Entendemos o porquê de tantos olhares quando um rapaz, que estava num grupo, disse bem alto: “-Olha aí os caminhantes de montanha.” Esta foi uma crítica bem-humorada ao nosso jeito de vestir. Apesar do forte calor, estávamos com calças e tênis de caminhada, braços e pescoços cobertos, bonés, bastões. Enfim, nada condizia com aquele ambiente descontraído de praia. Sorrimos e seguimos nosso caminho.

                 

Barletta é uma cidade muito bonita que une natureza, cultura e praias. O Castello Svevo é uma fortaleza imponente que vigia a costa. O Colosso di Barletta é uma estátua de bronze de 4,5 metros de altura, no centro histórico, considerada a representação de um imperador romano ou bizantino. Tem também a bela Cattedrale di Santa Maria Maggiore, a Pinacoteca Giuseppe De Nittis, que fica no impressionante Palazzo della Marra e abriga mais de 200 obras do renomado pintor impressionista do século XIX, e as ruas de comércio. Os restaurantes e bares estavam super movimentados. Esta foi uma daquelas cidades em que ficamos com vontade de estar por mais dias, mas não sucumbimos ao desejo e partimos no dia seguinte para Trani.

                 

O percurso do dia seria mais curto. Por isso, sem muita pressa, saímos de Barletta e fomos conhecendo um pouco mais da cidade. Caminhamos por estradinhas, passamos por uma periferia e achamos muito engraçado quando paramos para descansar num muro baixo com um aviso de que tinha câmeras de vigilância. Não tinha sombra alguma, mas resolvemos sentar um pouco por ali mesmo. Vimos alguns carros que passavam por nós e percebemos que iam até o final da rua e voltavam. Nós nos demos conta de que estávamos sendo vigiados. Até hoje não sabemos que tipo de ameaça poderíamos ser, mas, mesmo assim, resolvemos interromper o descanso e seguir adiante até Trani. 

                 

Sorte de termos chegado mais cedo a Trani. Trani é conhecida como a "Pérola do Adriático". É uma cidade que oferece uma atmosfera sofisticada e menos movimentada. Entre os destaques estão a impressionante Catedral de Trani (Basílica Catedral de São Nicolau Peregrino), o Castello Svevo, do século XIII, o histórico Bairro Judeu (Giudecca), o porto e o farol. Foi em Trani que, pela primeira vez, experimentamos os taralli, petiscos deliciosos que nos viciaram nesta viagem. 

                 

De Trani, o percurso até Bisceglie que seguimos foi inesquecível. Caminhamos sempre ao lado do mar e com o céu azul. O contraste do mar, das flores e da praia, com pedrinhas brancas, afastou o cansaço que se aproximava. E, quando chegamos num longo calçadão, já na entrada da cidade, paramos para um café e para prolongar aquele caminho delicioso.  

                 

Bisceglie é uma cidade bem charmosa e tem um rico patrimônio histórico. Abriga um dos portos pesqueiros mais tradicionais da região. Os barcos coloridos, os restaurantes, os frutos do mar frescos são atrações para quem para na cidade. No centro histórico visitamos a Catedral de São Pedro e vimos os palácios dos séculos XV e XVI. Mas nem tudo são flores. A cidade estava estarrecida com um crime ocorrido dias antes. Foi um crime passional que abalou a população. Havia muita movimentação de equipes de TV que acompanhavam o funeral. Violência, sim, mas nem de longe o que, infelizmente, presenciamos por aqui, no nosso país.

                 

No dia seguinte, partimos para a próxima cidade, Molfetta. O dia estava nublado, muito bom para caminhar. Chegando à entrada da cidade, paramos numa igreja que ficava num largo. Uma senhora muito solícita veio falar conosco. Vendo que estávamos caminhando de longe, foi logo dizendo que ali poderíamos encontrar hospedagem, carimbo para as nossas credenciais e resolveu mostrar a igreja de Nossa Senhora do Martírio, protetora dos pescadores. Seguimos adiante. A chuva começou a cair com mais intensidade e, com ela, o frio. É bom mencionar que, em praticamente todas as pequenas cidades italianas, o comércio fica fechado das 14 às 17 horas. Mas, para a nossa sorte, a Puglia possui máquinas de venda automática (distributori automatici), com produtos locais, sanduíches e bebidas, o que foi muitas vezes a nossa salvação. 

                 

Não tardou muito e a chuva deu uma trégua, apesar do frio. Saímos para caminhar e conhecer o centro histórico, o movimentado porto e a Catedral de San Corrado, do século XII, que fica à beira-mar. O centro histórico é um labirinto de ruas sinuosas, estreitas e de construções medievais e em calcário branco. No dia seguinte, enquanto deixávamos a cidade com um sol lindo brilhando, ainda conseguimos curtir a vista das praias locais. Molfetta   é conhecida por suas enseadas rochosas de águas cristalinas. Prima Cala é uma enseada pequena e tranquila, com bares nas proximidades. Cala San Giacomo é uma praia de seixos, também muito procurada para um banho relaxante de mar, assim como o Lido Algamarina, um balneário organizado e tranquilo. 

                 

O caminho para Giovinazzo foi curto e muito bonito. Ficamos surpresos porque Giovinazzo é uma cidade pesqueira charmosa, com ruas medievais de paralelepípedos e muralhas antigas que remontam aos tempos romanos e normandos. Apesar do vento forte e gelado, não resistimos a ficar sentados num banco da Piazza Vittorio Emanuele IIobservando as famílias e amigos que conversavam animadamente. Um grupo de quatro amigos caminhava e conversava animadamente de um lado a outro da praça. Esta foi a nossa diversão do dia, que não durou muito por causa do vento frio, mas não nos impediu de ver o ir e vir dos moradores e um pôr do sol lindo, que jamais esqueceremos. Observando todo este cenário bucólico, decidimos não parar em Bari, que seria nosso próximo destino. Seguimos para Mola di Bari, que ficava mais à frente. Não estávamos, naquele momento, preparados para parar numa cidade grande e na agitação.

                 

Mola di Bari não foge muito do que já estávamos habituados. Vimos o castelo, o porto e o calçadão. Sentamo-nos na praça principal, no final da tarde, para curtir o vai e vem dos moradores. Descansamos para seguir no dia seguinte até Polignano a Mare. 

                 

Tínhamos uma escolha a fazer: 5 minutos de trem de Mola di Bari a Polignano a Mare ou 4 horas andando. O importante é que precisávamos chegar à nossa hospedagem, no máximo, às 12 horas. Isso porque era feriado e o dono da hospedagem só poderia nos receber até este horário. Mesmo assim, escolhemos ir caminhando, já que este era nosso propósito. Fomos a maior parte do tempo numa pista para ciclistas numa estrada vicinal. Encontramos, pela primeira vez, uma caminhante suíça fazendo o caminho ao contrário. Num certo momento, conseguimos sair da estrada e caminhar bem junto ao mar por alguns quilômetros, mas tivemos que retornar à ciclovia para minimizar o tempo e conseguir cumprir o horário. 

                 

Chegamos a tempo de ver a cidade com muitos turistas, uma banda tocando marchas e celebrando o Dia da Libertação (Festa della Liberazione). Este é um feriado nacional que celebra o fim da ocupação nazista e do regime fascista em 1945. Os italianos também comemoram, neste dia, a resistência popular (partigiani).

                 

Depois de um breve descanso, fomos conhecer a cidade sem pressa. Decidimos ficar mais um dia para curtir a cidade sem tantos turistas. 

                 

Polignano a Mare é uma cidade obrigatória para quem visita a Puglia. É famosa por seu centro histórico, com casas brancas, pelas falésias e águas claras. Os principais destaques são a praia de pedras Lama Monachile, cercada por penhascos gigantes e cortada por uma antiga ponte romana. Outras atrações são a estátua de Domenico Modugno, em homenagem ao cantor famoso da música "Volare", nascido na cidade. E os passeios de barco pelas grutas marinhas. No mais, nossa diversão foi ficar na sacada do nosso pequeno apartamento, tomando nosso vinho, vendo o vai e vem de turistas, a banda que tocava na pracinha em frente e a procissão de San Vito, padroeiro da cidade. Foram dois dias deliciosos em Polignano a Mare. Enfim, prontos para continuar a nossa jornada, acordamos cedo no dia seguinte e partimos, caminhando ao longo do mar Adriático. 

                 

Foi uma caminhada linda até Monopoli. Apesar de ter que atravessar paredões de pedra, o que fizemos com muito cuidado, encontramos muitas flores, praias maravilhosas e chegamos a um paraíso, Portalga. Este foi mais um daqueles lugares em que deu vontade de ficar mais tempo. Águas claras e calmas, silêncio absoluto. Ficamos um pouco para sentir aquela boa vibração e continuamos. Atrapalhamos o descanso de um rapaz que curtia nudismo naquele lugar distante, passamos por torres medievais e aproveitamos para sentir a calma e ver as paisagens paradisíacas. 

                 

Assim como outras cidades da Puglia, Monopoli também é bem charmosa. Tem um centro histórico muito bem conservado, exclusivo para pedestres, com casas branquinhas, muitos restaurantes e muito movimentado. O porto, o castelo e a praia Cala Porta Vecchia, situada logo após as muralhas antigas, completam a paisagem cênica de Monopoli. 

                 

Foi neste ponto da caminhada que precisamos administrar um contratempo. O nosso próximo destino seria Savelletri, famosa pelos resorts de luxo. Pesquisamos acomodações, mas não encontramos nada ao nosso alcance. Por isso, desistimos de ir para Savelletri, seguindo para Torre Cane. Entretanto, a distância era muito longa e o jeito seria pegar um trem para cortar caminho. Como não havia trem ou ônibus direto para Torre Cane, seguimos para Fasano e, de lá, pegamos um transporte até o nosso destino. Chegamos muito cedo e tivemos que esperar metade do dia para conseguir entrar na nossa hospedagem. A cidade era bem pequena, mas muito agradável. Aproveitamos para gastar nosso tempo conhecendo o lugar, almoçando, caminhando ao longo do mar. 

                 

O caminho de Torre Cane à Torre Santa Sabina é praticamente todo feito pela praia. As mochilas pesadas dificultam muito a caminhada pela areia fofa. Por isso, usamos, mais uma vez, o recurso do transporte. Voltamos a Fasano e pegamos outro ônibus até uma estação de trem, que nos levou até outra estação, que parecia meio abandonada no meio do caminho. De lá, seguimos caminhando até a Torre Santa Sabina por uma estrada bem perigosa. 

                 

Torre Santa Sabina é, na verdade, um balneário. A torre, que leva o nome do lugar, é do século XII e tem a forma de estrela. As principais atrações são as praias, o que, naquele momento, não era nosso objetivo. Portanto, aquele lugar foi um pouco equivocado, mas para um dia serviu-nos de descanso, porque no dia seguinte partiríamos para Brindisi.

                 

O dia estava propício para caminhar. Bem nublado e fresco. Chegando em Brindisi, a chuva caiu, mas o que vimos nos agradou. Por isso, decidimos permanecer um dia extra na cidade. 

                 

O dia amanheceu ensolarado, bem diferente do dia anterior, apesar do vento. Fomos conhecer a cidade, famosa pela Via Ápia romana, porta de entrada para a Grécia e o Mar Adriático. O porto foi construído numa enseada natural com o formato de chifre de cervo, que ainda hoje é muito importante e serve como parada de cruzeiros no Mediterrâneo. A Escadaria Virgiliana, com suas colunas romanas, é ponto de parada para fotos dos turistas. A Orla Regina Margherita tem os bares e os restaurantes para quem visita a cidade. A vista do Monumento ao Marinheiro Italiano, do outro lado do canal, homenageia os marinheiros mortos na Primeira Guerra Mundial. O “Castello a Mare” ou “Castello Rosso” fica na Ilha de Sant’Andrea, na entrada do porto da cidade. 

                 

Caminhamos até o Castello Svevo, mas não pudemos visitá-lo por ser propriedade da marinha. Foi a residência do rei Vittorio Emanuele III durante a Segunda Guerra Mundial. Passamos pela Piazza Duomo, onde também tem outras atrações, como o Pórtico del Templari e o Museo Archeologico Provinciale. E ainda tem mais o que ver em Brindisi, como San Pietro degli Scavioni, uma área arqueológica com os restos de uma cidade romana, descoberta na construção do Nuovo Teatro Giuseppe Verdi. Ainda tem a Loggia Balsamo com os arcos, a Cattedrale San Giovanni Battista, a igreja San Giovanni al Sepolcro e a igreja Santa Maria del Casale. Foi um dia perfeito para conhecer a cidade e aproveitar ao máximo o tempo.

                 

Na manhã seguinte, ficamos com pena de ir embora de Brindisi. Paramos um pouco para admirar, uma vez mais, a cidade e partimos para Lecce. Como a distância seria muito longa, pegamos um trem e encontramos um casal de caminhantes italianos que iniciava o percurso até Santa Maria di Leuca. O casal era experiente e sabia que não era possível chegar a Lecce numa tacada só. Por isso, optaram também pela ajudinha do trem que, não por acaso, estava indo na mesma direção em que iríamos a pé. 

                 

Já em Lecce fomos para a nossa hospedagem. Aqui merece uma explicação. Assim que decidimos por esta caminhada, comentamos com um amigo italiano muito querido. Combinamos de nos encontrarmos em Lecce. Por isso, de antemão, reservamos um Airbnb por dois dias. Era feriado do Primeiro de Maio, Dia do Trabalho. Mas o Lucio, nosso amigo, precisou cancelar a sua ida por problemas familiares. Então, nós ficamos os dois dias em Lecce, o que não foi mau, porque tinha muito a conhecer na cidade.  

                 

Chegando ao nosso Airbnb, deparamos com uma história incrível. O nome do proprietário era Cristiano, um nome que não nos parecia italiano. E, de fato, não era. Cristiano é brasileiro e ficou super feliz quando percebeu que hospedava brasileiros. Ele contou que, ainda criança, foi adotado por uma família italiana e que, na mesma época, várias crianças brasileiras também haviam sido adotadas na cidade. Ele tinha esquecido o português, mas isso não impediu de conversarmos sobre o Brasil e sua história. Hoje, ele é médico, casado e se orgulha de ser um ítalo-brasileiro. Esteve uma vez no Brasil, mas não foi à sua cidade natal. Esta foi uma história bem-sucedida de adoção internacional.

                 

Lecce é conhecida como “Florença do Sul”. São muitos os monumentos históricos barrocos. Caminhar pelo centro histórico é voltar no tempo. O primeiro lugar que visitamos foi a ornamentada Basílica di Santa Croce, famosa pelos detalhes esculpidos em sua fachada. Na Piazza del Duomo, uma das praças mais bonitas e fechadas da Itália, abrigam-se a Catedral de Lecce e o imponente campanário. A igreja Santa Chiara também é parada obrigatória. O antigo anfiteatro romano, do século II, pode ser visto por fora e, na mesma praça, está a Coluna de Sant'Oronzo. Contam que o santo livrou Lecce do pior da peste negra. O imponente Castelo de Carlos V, antiga fortaleza militar, erguida pelo imperador espanhol para proteger a região, mereceu ser visitado. No mais, percorrer a cidade é encontrar o antigo e o novo lado a lado. Lecce marca o início da região salentina, extremo sul da Itália, conhecida como o "calcanhar da bota". 

                 

Depois destes dois dias, fomos para Martano, uma cidade pequena, com um centro histórico bem interessante e de herança grega (griko). No dia seguinte partimos para Otranto.

                 

Em Lecce e Martano nos afastamos do mar, mas chegando em Otranto nos encontramos novamente com o mar Adriático. Otranto está localizada no ponto mais oriental da península italiana. É uma cidade belíssima e famosa por seu centro histórico medieval, pelas suas águas azuis cristalinas e pelo impressionante castelo aragonês. Na Catedral, é possível ver um enorme mosaico da “árvore da vida” e uma capela que guarda os restos mortais dos mártires de 1480. Aproveitamos também para ver a praia do centro e nos organizar para a caminhada do dia seguinte, Vignacastrisi. 

                 

O caminho foi tranquilo e muito florido. Um pouco antes de chegar ao nosso destino, encontramos um supermercado bem grande, o que nos garantiu uma boa sobrevivência, uma vez que Vignacastrisi era muito pequena e com poucos recursos. Fora isso, a nossa hospedagem era ótima e tinha uma bela cozinha, onde pudemos ter um jantar delicioso. 

                 

A nossa próxima parada foi Tricase, penúltimo dia de caminhada. Este foi um dia de surpresas. Para onde a gente olhava, havia flores. Muitas flores! Foi um lindo dia. Começamos por uma via ciclável, passamos por uma cidadezinha, vimos o mar, paramos para conversar com um casal que trabalhava em suas terras, vimos um minúsculo presépio no meio do nada, e vimos caças italianos que sobrevoavam em formação pela região.  

 

Chegando em Tricase, fomos à igreja de São Miguel Arcanjo para agradecer tudo o que vivenciamos até ali. Afinal, tudo começou no Santuário de São Miguel. Agradecemos, mas também pedimos bênçãos para o nosso último dia de caminhada. 

                 

Tricase é uma cidade charmosa. É conhecida pelo Palazzo Gallone, um castelo construído pela família do mesmo nome no século XVI, e por um carvalho de 700 anos, protegido como monumento natural, o Quercia Vallonea. O porto e o mar de águas limpas convidam a um mergulho, mas era preciso seguir para o nosso último dia desse caminho. 

                 

Este foi um dia diferente de todos os outros. Acordamos com o dia chuvoso. Caminhamos o tempo todo debaixo de chuva e chegamos encharcados ao nosso destino, Santa Maria di Leuca. 

                 

Passamos primeiro no Santuário. Atravessamos um portal com dois anjos que nos abençoaram e, finalmente, entramos na enorme catedral, um lugar de peregrinações. Fomos recebidos por uma freira, que carimbou nossas credenciais, atestando que ali encerramos a Via Francigena. Depois de ficar um tempo dentro do Santuário, saímos, ainda no meio de muita chuva e vento. Ali deixamos os nossos bastões de caminhada. Este foi um gesto de desapego e um sinal de que terminávamos mais um ciclo e que começaríamos um novo ciclo. Enfim, caminhamos toda a Via Francigena. 

                 

Ainda ficamos algum tempo por ali, vendo o mar Adriático se encontrar com o mar Jônico e bater forte nas pedras, entrando pelas cavernas, formadas pelo tempo, até que nos demos conta de que estávamos, literalmente, em Finibus Terrae. 

                 

A chuva caía pesada sobre nós. Era como se lavasse nosso corpo e nossa alma. Depois, em silêncio, descemos os 300 degraus e chegamos à parte baixa da cidade. Milagrosamente, a chuva parou e o sol se abriu. Uma tarde linda se fez e nos permitiu caminhar por Santa Maria di Leuca e apreciar os mares Adriático e Jônico se abraçando. Foi uma chegada inesperada e muito emocionante. Mais um daqueles momentos para guardarmos na memória e nunca mais nos esquecermos.  

                  

Uma nova etapa...

                 

Acordamos às 4 horas da manhã para pegar um ônibus até Gallipoli e outro a Zollino. De Zollino pegamos um trem para Lecce e só então, de Lecce, tinha um trem para Bari. 

                 

Quando chegamos a Bari, a cidade estava bem movimentada. Turistas e moradores se misturavam. Fomos para a nossa hospedagem, que ficava no centro histórico, ainda sem entender o porquê de toda aquela movimentação. Só depois fomos entendendo o que estava acontecendo na cidade. Era o ponto alto da festa de San Nicola, padroeiro de Bari. Na orla, havia uma feira enorme de gastronomia. O principal local onde ficava o santo era belíssimo, com uma estrutura gigantesca decorada com muitas luzes. Ali, as pessoas faziam suas homenagens e apreciavam a beleza do lugar. Mas o ponto alto religioso foi na Basílica de São Nicolau, com a solene celebração do “Rito da Santa Manna”, um ritual de extração da sagrada Manna, líquido transparente que brota das relíquias do santo.  Na fé católica e ortodoxa, trata-se de um milagre em que o líquido emana diretamente dos ossos do santo. Finalizando as celebrações, vimos uma queima de fogos. 

                 

No dia seguinte continuamos em Bari. Nos perdemos, literalmente, pelo centro antigo; vimos o Castello Normanno-Svevo, fomos à Via delle Orecchiette, onde as mulheres fazem e vendem massas em formato de orelhas; caminhamos pelo Lungomare Nazario Sauro, um dos maiores e mais belos calçadões litorâneos da Itália. Enfim, em dois dias e meio conseguimos ver o que de melhor a cidade oferecia. Entretanto, era preciso entender como funcionava a travessia de ferryboat para a Albânia, nosso próximo destino. 

                 

No porto, fomos informados de que precisávamos ir até uma tal “Isabel”, num tal ônibus “GSA” para imprimir os tickets que compramos pela internet. Como nunca sabemos as burocracias dos portos, seguimos à risca o que foi informado. Chegamos num lugar bem distante do embarque. No guichê da companhia marítima, disseram que não poderia imprimir os tickets. Somente no dia seguinte, data da viagem, seria possível a impressão. Foi aí que descobrimos por que se sugere chegar 4 ou 5 horas antes da partida do barco. Burocracias…

                 

No dia da viagem, passamos o dia seguinte caminhando por Bari, voltamos ao guichê para imprimir o ticket e o funcionário reforçou que deveríamos chegar ao local do embarque às 17 horas, embora o ferry só saísse às 20h30. Chegamos antes do horário estipulado. Foi a melhor decisão porque o embarque foi muito demorado. Era preciso aguardar numa fila o despacho de muitas bagagens de albaneses que voltam carregadas de compras. Aguardamos duas longas horas na fila até a imigração. Para nossa surpresa, aquele ferryboat estava mais para navio do que para os ferries que conhecíamos até então. Tinha um belo restaurante, bar, piscina e cabines externas e internas. Ficamos numa dessas cabines. O barco zarpou e dormimos até Durrës, viagem que demorou a noite toda.  

Albania - Península dos Bálcãs...

                 

O ferryboat atracou por volta das 7 horas. O engraçado foi acordar, tomar um café na cabine mesmo e, quando saímos, os prédios da cidade estavam bem perto das janelas do ferry. Não vimos o barco atracar. Por isso, a nossa surpresa. Aguardamos a permissão para desembarcar no porto de Durrës. 

                 

Durrës é a segunda maior cidade e o principal porto da Albânia. Fica a 33 km de Tirana, a capital do país. Apesar de ser uma cidade bonita e com atrativos turísticos, decidimos seguir direto para Tirana. No início, ficamos sem entender como ir até o terminal de ônibus e qual dos viadutos em frente ao porto nos levaria até lá, mas foi só perguntar a um rapaz que passou por nós e tudo ficou bem claro. Chegamos numa área com poucos ônibus e vans. Mas primeiro era necessário trocar o dinheiro porque, como o país ainda não pertencia à União Europeia, o Lek era a moeda corrente. Depois disso, o desafio era saber onde pegar o ônibus para Tirana. De novo, bastou perguntar a uma moça na rua e ela nos levou até o transporte para a capital. Mas aqui cabe uma explicação.

                 

Os ônibus intermunicipais da Albânia são particulares. Por isso, quando vamos de uma cidade a outra, é preciso ir até o terminal, algumas vezes distante do centro da cidade, e ver qual ônibus, micro-ônibus ou van partirá para o local desejado. O detalhe é que o veículo só sai quando estiver completo. Por isso, não se pode confiar nos horários; é preciso contar com a sorte de chegar, ter transporte, lugar para sentar e passageiros suficientes para que partam. E foi o que aconteceu. Tivemos sorte de nos sentarmos e esperarmos até que o ônibus lotasse de passageiros para partir. Chamaram a atenção duas moças que estavam próximas a nós. Ofereci para levar a mochila delas, mas elas não aceitaram a oferta. Não insisti por não saber o costume local. Enfim, chegamos ao terminal.

                 

No terminal, ficamos perdidos e o jeito foi perguntar como ir até o centro. Recorremos às duas moças, que estavam próximas de nós, e elas disseram que também estavam indo para o centro da cidade.  Seguimos com elas até um ônibus urbano e, como cortesia, ainda pagaram a nossa passagem. Fomos conversando e, coincidentemente, descobrimos que o nome de uma delas era Vera. A outra era de Berat, cidade que pretendíamos visitar. O resultado é que ficamos amigos e tivemos muitas informações sobre o país durante a nossa estadia na Albânia. Ainda hoje nos falamos via WhatsApp. 

                 

Tirana nos surpreendeu. A cidade é conhecida pela mistura de arquiteturas das eras otomana, fascista e comunista, com prédios modernos. A Praça Skanderbeg e a estátua deste herói nacional, a Mesquita Et’hem Bey e a Torre do Relógio ficam bem no coração da cidade. 

                 

A igreja ortodoxa, embora não seja uma das atrações turísticas mais visitadas, vale a pena conhecer. O Museu de História Nacional mostra da pré-história até a ditadura comunista e as revoltas anticomunistas dos anos 90. Também oBunk’Art 2 é um museu fascinante. Fica num antigo bunker nuclear subterrâneo e mostra a história da vigilância e da polícia secreta do regime comunista. É bom salientar que a Albânia possui, aproximadamente, 200 mil bunkers construídos nas décadas de 60 a 80 pelo então líder comunista Enver Hoxha, que temia invasões da OTAN, da União Soviética ou de países vizinhos.

                 

O bairro mais animado, com bares, cafés modernos e ótimos restaurantes, é o Blloku, não distante do centro. Outra atração interessante é a Pirâmide, construída em 1988 em homenagem ao líder e ditador comunista, e hoje transformada num centro de tecnologia, inovação e cultura. Subimos as escadarias da sua fachada para apreciarmos a vista da cidade. 

                 

Como o país fechou suas fronteiras durante a ditadura comunista, de 1945 a 1991, ainda é possível ver muitos indícios daquele momento sombrio, em que as pessoas eram vigiadas pelo regime opressor. Hoje, um país democrático que reivindica a entrada na União Europeia, o que parece estar previsto para 2028. A conferir. 

                 

A parte norte da Albânia é onde estão os Alpes Albaneses. Há vários parques nacionais, lagos, rios de cor turquesa e desfiladeiros. Nós queríamos conhecer o Parque Nacional de Valbona, local de nascimento de uma amiga albanesa, de onde veio o seu nome “Valbona” ou “Bona” para os mais íntimos. 

                 

Tivemos sorte de ir na primeira van para Berat. Berat é uma cidade histórica, conhecida como a "Cidade das Mil Janelas", pela arquitetura otomana do bairro de Mangalem, onde as casas na encosta parecem estar apoiadas umas nas outras, e as janelas alinhadas parecem entreolhar-se. É Patrimônio Mundial da UNESCO e fica mais ao sul do país. 

                 

Logo que chegamos, ficamos impressionados com a beleza da cidade. Visitamos o bairro de Gorica, que fica do lado oposto ao de Mangalem e do outro lado do rio Osum. A propósito, a ponte que liga os dois lados também liga as culturas cristãs e muçulmanas, que ainda hoje convivem pacificamente. Visitamos o Castelo de Berat (Kalaja), uma fortaleza do século IV a.C. que ainda é habitada por moradores locais e tem vistas lindas. Caminhamos no complexo por duas horas e meia e nos emocionamos ao entrar numa igreja ortodoxa, na parte mais alta da montanha. 

                 

A cidade, apesar de ser antiga, abriga um calçadão moderno, o Boulevard Republika, ótima opção para almoçar, jantar ou tomar um café. Mas há quem prefira as alturas e não se importe de subir e descer as escadas das vielas estreitas do bairro de Mangalem para tomar um aperitivo ou um café, almoçar e contemplar uma vista incrível da cidade.

                 

Era hora de deixar Berat e ir para Sarandë, principal cidade da Riviera Albanesa. A cidade é famosa pelas suas águas cristalinas no Mar Jônico, pela noite agitada e pela proximidade de Corfu, na Grécia. É na orla marítima que ficam os bares e restaurantes, além das lojas e dos grandes hotéis. Enfim, Sarandë é uma ótima cidade para se curtir e serve como base para visitar praias da região e o Parque Nacional de Butrint, famoso pelas ruínas antigas. 

                 

Em Sarandë aproveitamos os dias quentes e de sol para ir à praia e conhecer as praias espetaculares de Ksamil,que não fica longe e é acessível de ônibus. Fomos também conhecer Gjirokastër, outra cidade histórica, que também é Patrimônio Mundial da UNESCO. A viagem pelas montanhas é muito bonita. A parte antiga de Gjirokastër fica no alto. Foi uma longa subida até o Castelo, uma imensa fortaleza no topo da colina com museus de armas e vistas para o vale. As ruas são calçadas de paralelepípedos, as casas são de pedra e o museu fica na casa onde o ditador Enver Hoxha nasceu. No meio do caminho, entre Sarandë e Gjirokastër, está a Blue Eye, outra atração para os turistas. A Blue Eye é uma nascente de águas azuis, de impressionante beleza. Enquanto o ônibus em que estávamos retornava para Sarandë, o motorista parou para recolher os visitantes da Blue Eye. Mas o número de passageiros era maior do que o número de passageiros que ali desceram. O motorista não teve dúvida e acomodou todos os turistas em banquinhos no corredor do ônibus. Foi divertido. Mais uma vez ficou clara a gentileza dos albaneses.

                 

Foram dez dias bem divertidos na Albânia, antes de irmos para Corfu, que ficava a apenas uma hora e meia de ferryboat. Aliás, da Albânia é possível ver parte da ilha grega e, vice-versa. 

 

Ali em Corfu, Grécia... 

                 

A ilha de Corfu, banhada pelo Mar Jônico, fica a noroeste da Grécia. Possui, além das praias paradisíacas, montanhas acidentadas. Como a ilha já esteve sob domínio veneziano, francês e britânico, antes de se unir à Grécia, a sua cultura acabou por ser híbrida e a arquitetura das cidades, idem. A cidade de Corfu, a maior da ilha, é Patrimônio Mundial da UNESCO. É ladeada por dois grandes palácios, São Jorge e São Miguel. As ruas são vielas sinuosas e ainda conta com uma arcada em estilo francês. Um dos passeios para quem está em Corfu é o Palacio Achilleion, do século XIX, construído para a Imperatriz Elisabeth da Áustria e cercado por jardins exuberantes. 

                 

Resolvemos ficar três dias na cidade para conhecer e passar mais um aniversário da Vera. Com isso, visitamos cada cantinho do centro histórico, caminhamos pela Liston e pela Praça Espianada, um calçadão elegante ao estilo francês, com cafés e restaurantes. E visitamos a Igreja de Saint Spyridon (São Espiridião), um templo ortodoxo onde estão expostos os restos mortais do Santo, guardados em um sarcófago duplo. O maior dos dois contém o menor em seu interior e é feito de madeira com acabamento em folha de prata. O sarcófago menor é revestido de veludo vermelho e possui um fundo removível para facilitar a troca dos chinelos do santo que, segundo contam, inexplicavelmente, gastam-se, rasgam-se e acumulam marcas de uso com o passar dos meses. 

                 

Durante o dia, a cidade fica cheia de turistas que se hospedam e de turistas de apenas um dia. À noite os restaurantes e bares ficam repletos e a cidade ganha ar de festa. Foi neste clima que celebramos o aniversário. Um belo jantar, regado a vinho branco regional, e um licor de Kum Quat, bebida da região e vendida nos quatro cantos da ilha de Corfu. 

                 

Era hora de conhecer um pouco mais da ilha. Partimos para Kassiopi, ao norte de Corfu. Foram 36 km e mais de uma hora, por uma estrada estreita e sinuosa, tendo como fundo o mar e céu azuis. Os turistas entram e saem do ônibus visitando as praias da região. 

                 

Barbati fica no caminho entre Corfu Town e Kassiopi. É uma praia impressionante de seixos brancos e, ao fundo, oliveiras verdes. Enfim, chegamos a Kassiopi, um vilarejo charmoso com um pequeno porto movimentado, restaurantes, bares e praias de águas claras e seixos. Das ruínas de um castelo bizantino na colina, acima da cidade, a vista panorâmica da costa é deslumbrante. De Kassiopi avistamos a costa da Albânia e também avistamos os golfinhos que brincavam pela costa. 

                 

Kassiopi é um vilarejo movimentado, com vai e vem de turistas que se hospedam e os que fazem um bate-volta para conhecer. No primeiro dia, fomos até as praias Bataria, Kanoni, Pipitou e Kalamionas, todas paradisíacas, de seixos brancos, águas azul-turquesa e cristalinas e ótimas para nadar e praticar snorkel.

                 

Depois de ficar três dias curtindo aquele paraíso, fomos para Sidari, ainda no norte, mas agora na parte oeste da ilha. Sidari é um destino muito turístico, com muitos hotéis, praias longas e de areia. É famosa pela noite agitada, restaurantes, bares e pubs estilo inglês. Entretanto, preferimos ficar num lugar mais tranquilo, sem muito agito, e aproveitar o dia para nadar e conhecer as praias, o Canal d’Amour e as falésias. 

                 

O Canal d'Amour é uma formação geológica, com penhascos de arenito e estreitos canais marinhos. A lenda diz que nadar pelo canal traz o amor verdadeiro e que, se o casal nadar junto, viverá feliz para sempre. Achamos bonito de ver, romântico, mas pouco convidativo para nadar. Preferimos ficar numa praia um pouco mais adiante, a Apotripiti, aos pés de uma falésia bonita e mais tranquila.  Na verdade, as praias mais centrais são faixas de areia muito extensas, cheias, com aluguel de pedalinho, bóias, banana-boat próprias para famílias e crianças. 

                 

Nosso próximo destino foi Paleokastritsa, região pitoresca, também banhada por águas azuis cristalinas, com penhascos imponentes e um mosteiro no topo de uma colina. A região tem várias praias, e é difícil eleger as mais bonitas. Agios Spiridon, Agios Petros, Akrotiri são praias mais centrais e ficam bem movimentadas, mas valeu muito a pena conhecer e nadar nas suas águas calmas.  O La Grotta Bar é famoso e fica à beira do mar com pedras, onde as pessoas se divertem pulando e nadando em águas transparentes. O duro é descer e subir as escadarias de acesso. Num dos dias resolvemos ir um pouco mais longe. Caminhamos até a praia de Lipiades, num cenário pitoresco cercado por penhascos e enseadas. Praias paradisíacas não faltaram na região. 

                 

Aproveitamos também para conhecer Lakones. Fomos caminhando numa subida infinita. Como gostamos de “trilhar” por alguns lugares, vimos a indicação de umas trilhas que cortavam caminho e não tivemos dúvida: seguimos as indicações para chegar à pequena vila empoleirada em um penhasco. A vista fabulosa valeu a pena o sacrifício da subida. Para descer, todo santo ajuda… Descemos pela estrada por onde os carros passavam e continuamos curtindo o visual, a cada passo do caminho. 

                 

Outra atração, é o Mosteiro da Virgem Maria, um santuário bizantino do século XIII, ainda em funcionamento. Fica no topo de uma colina e oferece uma vista espetacular do mar e tem belos jardins. Fora isso, tem uma pequena capela, um museu com os livros sagrados, relíquias bizantinas e trajes antigos, além de mostrar a antiga produção de azeite feita pelos monges. 

                 

Foram doze dias de praia, sol e muitas andanças. Era hora de deixar a ilha e o destino era Napoli, na Itália. 

 

Partiu, Napoli…

Quem conhece Napoli vai entender a nossa primeira impressão da cidade. Depois de um mês e meio entre a nossa caminhada e as praias paradisíacas da Albânia e de Corfu, chegamos ao centro antigo de Napoli. Cá entre nós, foi um choque! Isso mesmo, um choque! A bagunça generalizada, da disputa dos restaurantes por clientes às motos e scooters que se jogam na frente dos pedestres, dos turistas e das excursões que disputam cadeiras nas pizzarias, tudo aquilo nos deixou tontos. 

                 

Nesse dia, escolhemos conhecer o que Napoli tem de mais caótico. Passamos pela Duomo, Igreja de San Lorenzo, Cidade Subterrânea, Via dei Tribunali, caminhamos pela Spaccanapoli e, enfim, conseguimos algum sossego caminhando Lungo Mare até o Castello dell’ovo, com vistas do golfo de Napoli e do Monte Vesuvio. Depois, passamos pela Piazza del Plebiscito, Palazzo Reale, Gran Caffè Gambrinus e Galleria Umberto I. Pegamos um metrô até o Vomero,onde nos hospedamos. O bairro contrasta com o centro histórico. Podemos dizer que foi um dia muito movimentado. Só nos restou relaxar tomando um vinho e comendo uma pizza napolitana. 

                 

Dos três dias que ficaríamos na cidade, escolhemos o segundo para ir a Pompeia. Compramos nossas entradas para as 9 horas. Saímos cedo e fomos para a estação pegar um trem da linha Circumvesuviana. Este é o mesmo trem que vai até Sorrento, outro lugar procurado pelos turistas. Chegando na estação, vimos que a entrada para a linha Circumvesuviana estava cheia, mas qual estação de trens ou metrôs não fica cheia nos horários de pico?  Um funcionário orientava as pessoas a seguir uma ordem numa fila. Formaram-se quatro filas no corredor de espera. E a nossa era a mais confortável, porque tinha onde se sentar, mas se tornou a última fila a entrar no trem. Em tese, porque na prática, todos embolaram nas portas de entrada do trem quando estas se abriram.

                 

Depois da entrada caótica e de um trem abarrotado de pessoas, as portas se fecharam. De repente, a luz acabou. O ar-condicionado parou de funcionar, as portas do trem não se abriam e pessoas, agarradas umas às outras, começaram a passar mal. O medo, o pânico e o calor fizeram com que a agitação fosse maior. Um homem, que estava com dois filhos, teve um ataque de pânico e uma mulher começou a gritar e apertar o comunicador pedindo para abrirem as portas. Por pouco não aconteceu uma tragédia. Não é possível precisar o tempo, mas depois de alguns minutos, a luz voltou e as portas abriram. Algumas pessoas desceram e desistiram de continuar. Outras, que não sabiam do ocorrido, chegaram. O funcionário, que organizou as filas, saiu correndo e, junto com ele, todos correram. Pediram pelo alto-falante que todos fossem para a outra plataforma porque viria outro trem.  Lá fomos todos nós. Foi a mesma confusão para entrar no outro trem, do mesmo tamanho, ou seja, não era grande o suficiente para levar a multidão.

                 

A porta fechou e seguiu. Devagar. As pessoas quase abraçadas umas às outras. Uma verdadeira lata de sardinha. Cada estação que parava, entrava mais gente do que saía. Na quinta estação o trem parou novamente. Um problema nas portas do trem ocorreu, a luz apagou, o ar-condicionado parou de funcionar e assim ficou por uns minutos. Sufoco de novo! Quando as portas abriram, nós resolvemos descer. Quando chegamos ao último vagão, vimos que, possivelmente, algumas pessoas desistiram e sobrou um espaço perto da porta. Resolvemos entrar. Mas, de novo, a luz apagou, o ar-condicionado parou, as pessoas xingando, o calor tomou conta do trem. Enfim, as portas abriram e, no alto-falante, o aviso de que era para ir para outra plataforma porque viria outro trem. O trem chegou lotado, tão velho quanto os outros dois que pararam de funcionar. Desistimos. Outras pessoas também desistiram. Fizemos o caminho de volta para Napoli e junto com um casal de japoneses resolvemos ir até os guichês de venda das entradas para Pompeia e dos tickets do trem para pedir reembolso. Afinal, nada disso foi barato. A resposta que obtivemos foi que não era problema deles. Voltamos frustrados e resolvemos conhecer mais um pouco da cidade.

                 

Nesse dia, resolvemos voltar a pé até nossa hospedagem. Subimos 480 degraus da escadaria que leva até o topo da colina onde fica Vomero. Vimos a cidade do alto e conhecemos melhor o bairro, que é bem diferente do centro caótico. 

                 

Nos restava ainda mais um dia. Já tínhamos nos conformado com o fato de não ter dado certo nossa visita a Pompeia. Nós nos acostumamos com o caos da cidade e ainda havia mais o que ver. Fomos direto para o Quartier Spagnoli. Ali, Maradona é o rei, é o santo e o herói. Para onde olhávamos, estava ele. Nas roupas, nos objetos, em bandeiras, pintado nos muros, nos restaurantes. 

                 

Depois, fomos caminhar pela Via Toledo, uma rua movimentada com lojas, bares, lanchonetes e fast food. Aproveitamos para comer o que era típico da região e seguimos até a Via Chaia, um lugar elegante. Ainda faltava conhecer a estação de metrô de Toledo, eleita a mais bonita da Europa. E assim, chegamos ao final dessa saga. No final, valeu a pena conhecer Napoli. Napoli é caótica, vibrante e, ao mesmo tempo, um lugar que não pode deixar de ser visto. Em cada cantinho encontramos uma surpresa, um bar ou um restaurante escondido, um modo de vida bem diferente do que já tínhamos visto na Itália. 

 

De volta a Roma e Lisboa…

                 

Era um domingo e saímos cedo para pegar um trem até Roma. Foi um dia divertido de viagem. Em cada estação subia uma turma de jovens, aparentemente indo para a praia. Eles circulavam pelo trem, depois se sentavam, mas não tinham passagem. Num certo momento, a funcionária do trem colocou uma turma para fora. Os outros, espertamente, mudaram para outros vagões. Depois de um longo bate-boca e do trem parar por alguns minutos em uma estação aleatória, o trem continuou, mas não sem que outra turma, sorrateiramente, entrasse. E assim fomos até uma cidadezinha que era o destino da moçada. Na verdade, este era um trem regional, por isso, transformou uma viagem não tão distante em uma viagem bem demorada. Finalmente, chegamos a Roma e nos acomodamos num Airbnb em San Giovanni, um lugar não muito distante do Termini, mas num local bem agradável. Como já conhecíamos Roma de outras vezes, resolvemos revisitar alguns lugares que achamos legais e conhecer as redondezas do bairro em que estávamos. 

                 

A Basilica di San Giovanni in Laterano é a catedral da Diocese de Roma e a sede oficial do Papa, como bispo de Roma. Neste dia, a frente da catedral estava cercada e algumas ruas no entorno estavam fechadas para o trânsito. Mais tarde entendemos o porquê. Houve uma grande procissão, com muitos padres, freiras e irmandades religiosas, a que assistimos da janela do nosso quarto. Foi uma celebração muito bonita. No final, todos os participantes retornaram pelo mesmo caminho, pela mesma avenida. Ficamos observando a movimentação quando vimos um grupo de padres da ordem de Santiago de Compostela. Reconhecemos pela cruz. Um deles olhou na nossa direção e, numa breve conversa, vimos que era um brasileiro. Ele nos convidou para irmos à pequena igreja de San Benedetto di Trastevere. No dia seguinte fomos até lá, mas estava fechada. Na verdade, é uma pequena capela medieval que, segundo a tradição, foi erguida sobre uma antiga casa de nobres e foi onde São Bento morou por alguns anos no final do século V. 

           

O calor era intenso, o movimento de turistas era muito grande, mas ainda assim caminhamos pela cidade. Por mais que já tenhamos visitado a cidade, Roma sempre tem mais para se ver. No dia seguinte, bem cedinho, fomos a pé até o Termini para pegar o ônibus para o aeroporto. Ali deixamos a belIa Italia e a lembrança dos momentos super agradáveis que passamos em todos os dias em que lá estivemos.

           

Chegamos a Lisboa e fomos direto para nossa hospedagem com a certeza de que a nossa amiga Ana Sofia estaria nos esperando. Era hora de colocar tudo em ordem. Roupas lavadas, pequenos mimos comprados, tardes e noites deliciosas com os amigos, Feira do Livro, Feira da Ladra, festa dos santos populares com mais amigos, procissão do dia de Santo Antônio, que é sempre emocionante, e volta pra casa com a certeza de que os 63 dias que viajamos foram inesquecíveis e que ficarão guardados para sempre na nossa memória. 

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