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Viajar
é preciso...
Viajar
sempre fez parte de nossa vida. Conhecer novos lugares, novas
culturas, a culinária, sentir os aromas e conhecer pessoas, isto
sempre nos atraiu. Há muito tempo decidimos colocar o “pé na
estrada” e não paramos mais. Até hoje procuramos novos lugares
para conhecer.
Nossa primeira decisão em relação a viagens foi conhecer
o Brasil. Durante alguns anos fomos de norte a sul, de leste a
oeste, passando por belas praias, muitas montanhas, cachoeiras,
matas fechadas, trilhas, estradas de terra e fazendas. Para isso
usamos carro, ônibus, avião, trem, carona e até fizemos alguns
trechos a pé. Começamos, também, a desenvolver nosso estilo de
viagem, ou seja, muita pesquisa dos lugares para onde queria ir,
muitas perguntas para as pessoas que já haviam ido, pesquisa de
preços, como chegar, aonde ir, o que comer, etc, etc.
Conhecer
o Brasil foi importante, porque é o nosso país e sempre que
encontrávamos algum “gringo” nestas andanças tínhamos o que
contar,sabíamos indicar lugares legais e falar sobre a nossa
terra. E assim foi por um bom tempo até que em certo momento
decidimos que era hora de voar mais alto. Escolhemos o Peru como o
primeiro país a conhecer.
A
primeira experiência internacional
Começamos
nossa peregrinação a consulado e agências de viagens para
conseguir folders e informações. Às vezes os roteiros
apresentados pelas agências nos dão boas dicas sobre o que fazer
apesar de até hoje não termos utilizado os serviços de nenhuma
agência de viagem. Preferimos fazer tudo por conta própria. Não
temos absolutamente nada contra quem viaja através de agência,
mas preferimos fazer do nosso jeito.
Compramos
guias, procuramos informações em revistas e falamos com amigos
que já tinham viajado para o Peru. Arrumamos nossas mochilas e
pegamos nossa passagem comprada na Aero Peru e embarcamos em direção
a Lima num velho DC8, saindo do Rio de Janeiro. Chegamos na
capital peruana a meia noite e o aeroporto estava um pouco
tumultuado, com alguns repórteres no desembarque. Depois de
passar pela alfândega saímos no saguão principal e descobrimos
a razão do tumulto. Fábio Júnior, o cantor, estava no mesmo vôo
que nós e iria fazer um show em Lima.
Ainda
um pouco perdidos, tentando nos acostumar à língua espanhola,
procuramos nos informar a respeito de hotéis e pousadas.
Conseguimos um pequeno hotel no bairro de Miraflores e seguimos
para lá num táxi enorme, velho e barulhento. Cansados, dormimos
bem e no dia seguinte saímos a explorar a cidade e descobrir o
melhor jeito de ir para Cuzco. Conseguimos uma passagem de avião
bem barata para a cidade e depois de três dias em Lima seguimos
para Cuzco.
Curiosos
como somos, não poderíamos deixar de conhecer melhor Miraflores
e San Isidro, que são dois bairros muito bonitos, e o centro de
Lima que é um lugar muito peculiar com a Plaza de Armas e as
“Peñas”, que são os bares aonde os peruanos vão para dançar
salsa e outros ritmos nacionais.
Nesta
época, o país tinha passado por algumas transformações políticas
por causa da recente reforma agrária e o policiamento na cidade
era ostensivo. Era um pouco assustador ver os canhões de guerra
na Plaza de Armas e policiais armados prontos para qualquer tipo
de manifestação do povo. Também era uma época em que o grupo
guerrilheiro Sendero Luminoso estava agindo com muita violência.
Já
em Cuzco, vimos a cidade tal e qual imaginávamos o Peru. Bonita e
imponente, com sua arquitetura espanhola. Cuzco fica a uma grande
altitude, o que nos fez sentir um cansaço estranho nos primeiros
instantes. Descansamos um pouco, para aclimatar, e mais tarde
fomos conhecer a ruína de Saqsaywaman. Foi muito interessante
porque fomos com um senhor que falava “quéchua”, uma das línguas
dos indígenas da região. A outra é o “aymara”. Ele tinha
tipo físico indígena também e nos fez entender melhor a história
dos Incas. Nada melhor do que ouvir uma história sobre os Incas
contada por um dos seus descendentes. Ainda visitamos com este
nativo Oiataitambo, o rio Urubamba e outras ruínas e
cidadezinhas. Era a hora mais esperada: conhecer Machu Pichu.
Fomos de trem para lá. A visão desta cidade perdida foi uma das
mais impressionantes que já tivemos, comparando à emoção de
ver as Pirâmides do Egito, a Victoria Falls, ao Taj Mahal, ou as
cidades maias no meio das florestas mexicanas e da Guatemala.
Viajamos
muito pelo Peru. Fomos a Iquique, Puno, Arequipa, Vale do Colca.
Conhecemos os Uros, povo que vive em ilhas artificiais feitas de
um junco, o que eles chamam Totora, no lago Titicaca. Usamos trem
e ônibus para nos deslocar, pois eram baratos e nos levavam a
todo lugar que queríamos. Comemos carne de lhama e papas fritas,
bebemos Pisco, sentimos o “soroche”, o mal das alturas, vimos
o medo das pessoas com os ataques do Sendero Luminoso, vimos
manifestações políticas, presenciamos os dois lados da reforma
agrária. De um lado os que ganharam e de outro os que perderam.
Visitamos muitas ruínas incas, conhecemos muitas pessoas e
fizemos amizades que conservamos até hoje.
Hora
de ir embora, voltamos para Lima, ficamos num hotelzinho bem no
centro da cidade e, por sorte, embarcamos num vôo da Varig para o
Brasil.
Ao
chegar em casa vimos que tudo tinha dado certo e que o jeito que
usávamos para viajar no Brasil (perguntas, pesquisas, etc, etc)
havia sido eficiente nesta viagem ao Peru. Pensamos: se este jeito
de viajar funciona no Brasil e funcionou no Peru, funcionará no
resto do mundo...
Voando
mais alto: Europa
Próxima
parada: Europa. Para dificultar um pouco, decidimos começar nossa
viagem pela Holanda. Seria quase natural começar uma primeira
viagem no velho continente começando por Portugal e Espanha, pela
facilidade da língua e proximidade de culturas, mas não, fomos
direto para Amsterdã e de lá para a Inglaterra, França,
Alemanha, Áustria, Suíça, Bélgica, Itália.Sempre viajando de
trem, mochila nas costas, procurando hotéis quando desembarcávamos
nas cidades. Num belo dia, chegamos em Munique. A cidade estava
completamente lotada, pois era o primeiro dia da Oktoberfest.
Depois de muito perguntar, procurar e insistir conseguimos um
quarto num pequeno hotel perto da estação ferroviária. Os preços
eram extorsivos, mas decidimos ficar ali pelo menos um dia e
participar da festa.
Tudo
acontece numa grande área, com um grande parque de diversões e
muitas cervejarias. Elas são grandes galpões com mesas compridas
e um pequeno palco onde uma “bandinha” toca todo o tempo.
Depois de ver o desfile inaugural, com carroças puxadas por belos
cavalos e muitos barris de cerveja, visitamos o parque e
resolvemos experimentar as cervejarias. Vagamos de uma para outra,
às vezes tomando uma cerveja, às vezes vendo a festa dos alemães
brindando com um empolgado “Prost” ao som da banda que tocava
animadamente. Cada garçonete carregava até oito copos de um
litro de cerveja. Num certo instante paramos em uma cervejaria que
nos parecia mais animada e ficamos ali, em pé, olhando a festa,
quando, de repente, vimos pessoas acenando e nos convidando para
sentar à mesa. Lá estavam três australianas, um alemão e sua mãe
e um rapaz do Tenerife. Começamos a conversar e logo, ao saberem
que éramos do Brasil, ficaram mais animados ainda. Depois de
tomar muitas cervejas já falávamos fluentemente com a mãe do
alemão, que não falava uma palavra de inglês e tampouco de
português ou espanhol. Até hoje não sabemos o que conversamos,
mas podemos jurar que entendíamos uns aos outros. Já passava da
meia noite quando fomos embora, em direção à estação ferroviária.
Nossas mochilas já estavam guardadas no maleiro. Embarcamos na
madrugada para Viena. Pelo menos naquela noite não pagaríamos o
preço abusivo do hotel.
Chegamos
em Viena, meio desentendidos, um pouco pela troca de país e outro
tanto pela quantidade de cerveja ingerida no dia anterior. Apesar
disto nos lembrávamos de cenas engraçadas que vimos e
participamos na Oktoberfest.
Conhecemos um brasileiro que de tão bêbado se perdeu e
perdeu todos os seus documentos em uma das cervejarias. Só
conseguiu voltar pra casa, depois que a polícia ligou para a
filha dele no Brasil, vimos os policiais recolher os bêbados que
caiam pelo chão, entramos em brincadeira de “braço de ferro”
dentro da cervejaria e choramos como criança ao despedirmos no
final da noite. Foi engraçado e ridículo lembrar do alemão e
sua mãe, as australianas e o cara do Tenerife, abraçados e
chorando numa despedida comovente de oito bêbados.
Continuamos
nosso giro por estes países, curtindo cada instante. Conhecemos
na Inglaterra um Nigeriano que parava qualquer outro africano na
estação de metrô e manadava que ele falasse português conosco
e decidiu que nós seríamos seu “guia”. Para cada lugar que
íamos o nigeriano dizia: “me too”. Até hoje nos referimos a
ele como “Me too”... e lembramos cada lugar que passamos e
pessoas que conhecemos. Chegamos ao Brasil ainda sentindo o gosto
daquela viagem. Não precisou nem mais um dia para começar a
pensar e planejar a próxima.
Temos
hoje histórias para contar e muita recordação desta primeira
viagem para a Europa. Aproveitamos
cada instante para viajar mais pelo Brasil e para programar o próximo
país a conhecer.
Voltamos
à Europa mais algumas vezes, conhecendo muitos outros países,
mas sempre começando a viagem por Amsterdã. Assim conhecemos
Portugal, Espanha, outras partes da França, Inglaterra, Itália...
Visitamos
também a Grécia, um belo país para curtir férias. Fomos a várias
ilhas, como Santorini, Mikonos, Ios, Creta, Rodes, Simi... O que
seriam quinze dias de viagem acabou em trinta. Pegamos um barco e
atravessamos para a Turquia. Chegamos a Bodrum e fomos
surpreendidos por policiais que ficaram com nossos passaportes e
nos deram uma autorização de 24 horas para visitar o país. Foi
pouco tempo, mas deu para ver muita coisa da região. Voltamos a
Grécia e ficamos alguns dias na ilha de Kos. Nesta ilha, assim
como em outras, a relação de confiança é grande. Ao meio dia
os lojistas saem para almoçar e muitos não recolhem suas
mercadorias. As mercadorias expostas são somente cobertas com um
grande pano e ficam por ali mesmo.
Tivemos
oportunidade de conhecer mais a história e a mitologia. Viajamos
no tempo. Aprendemos a fazer a famosa salada grega, provamos do
vinho Retsina, e ouzo e a Metaxa, comemos o famoso Suvlak, a
Moussaka, o Girospita que é sanduíche grego, vimos danças típicas,
aprendemos a entender o alfabeto grego, descobrimos algumas
palavras, vimos o trânsito dar um “nó” e parar completamente
e curtimos muita, muita praia. Afinal, a Grécia é um verdadeiro
país de férias. Atravessamos de navio para Itália e nos
despedimos com a certeza de que voltaríamos de novo para visitar
mais algumas das muitas ilhas que compõe o país.
Viajando
cada dia mais, tendo mais e mais experiência era chegada a hora
de voar mais alto ainda.
Nepal,
Índia, Tailândia, Israel... Vamos para o outro lado do mundo.
Chegou
a hora de arriscar um pouco mais. Decidimos conhecer países mais
distantes com culturas bem diferentes da nossa. Abrimos o mapa e
começamos a escolher o que mais nos atraía. Foi assim que
chegamos ao Nepal, Índia, Tailândia, parte da China e outros países
exóticos. Não é idéia seguir uma ordem cronológica, já que a
idéia é mostrar fatos interessantes de cada lugar.
O
Nepal foi uma agradável surpresa. Chegamos em Katmandu no início
da tarde, desembarcando em Tribhuvan, seu pequeno, mas muito
charmoso aeroporto. Katmandu fica no meio das montanhas e somente
é permitido que os aviões com total visibilidade aterrissem por
ali. Por causa disso tivemos que ficar um dia a mais em Nova Delhi
e no dia seguinte permanecer dentro do avião por um longo período
de tempo até que o piloto tivesse autorização para decolar. Por
sorte a visibilidade permaneceu boa até chegarmos lá, caso contrário
o vôo retornaria para Delhi. No aeroporto mesmo procuramos por um
hotel e nos indicaram um que ficava bem localizado e tinha preços
razoáveis. Recebemos ainda no aeroporto um folheto oficial que
orientava os turistas a não dar “gorjetas” para os pobres
porque esta atitude não resolveria problemas sociais do país.
Isto nos fez refletir sobre a idéia e sobre o país que encontraríamos.
A temperatura não estava tão baixa quanto imaginávamos,
mas quando caia a noite um frio intenso chegava e a sensação era
que nosso cérebro iria congelar.
Katmandu
não é tão grande, mas pode ser dividida em duas cidades
distintas: uma com seus milhares de visitantes e seus templos
feitos de tijolos rosa e uma outra cidade suja, poluída, cheia de
macacos e bazares. A Dubar Square é o verdadeiro centro antigo de
Katmandu, com muitos templos e altares, muitos prédios antigos,
alguns que sobreviveram ao grande terremoto de 1933, a Freak
Street, mais conhecida como a rua hippie, com suas dezenas de
lojas e bazares, o Hanuman Dhoka, um grande palácio, são visitas
obrigatórias na cidade. Aproveitamos nosso tempo para caminhar
muito, incluindo algumas incursões nos arredores da cidade, a
cidade de Patan, e algumas montanhas próximas. Infelizmente não
conseguimos chegar ao acampamento base dos alpinistas que tentam
subir o Everest, pois havia o perigo de ataques dos rebeldes maoístas
que tentam dominar o país.
Nas
nossas viagens sempre experimentamos comidas estranhas e no Nepal
não poderia ser diferente. Estávamos em um restaurante quando
vimos o garçom passar com um belo naco de carne em uma chapa
quente. Aquilo parecia uma picanha e tinha um cheiro muito bom.
Perguntamos o que era e o garçom falou que era carne de boi.
Duvidamos, perguntamos de novo e ele jurou que era boi. Ficamos na
dúvida, pensamos nos iaques (espécie animal, parente das lhamas,
e que são usados pelos nepaleses para levar carga para as
aldeias). Dúvida, dúvida, será??? Resolvemos pedir. O gosto era
bom, mas a carne era bem consistente. Com certeza era iaque. O
mais interessante é que exatamente no momento que o garçom
trazia nossa comida entrava uma família de indianos no
restaurante. Ao ver aquela cena (na Índia a vaca é sagrada)
eles, simplesmente, viraram as costas e foram embora.
Por
falar em Índia, esta foi uma viagem bem interessante. Começou de
uma forma meio atrapalhada, pois quase perdemos o vôo para Nova
Delhi. Chegamos em Amsterdã num dia e nosso vôo para Nova Delhi
seria no dia seguinte. Preferimos assim, pois seriam duas viagens
longas e cansativas. Aproveitamos o dia em Amsterdã para rever
lugares conhecidos, passear pelas ruas de pedras, enfim, matar
saudade desta cidade que gostamos muito. Fomos dormir tarde,
porque supostamente nosso vôo seria na tarde do dia seguinte.
Acordamos sem pressa, muita preguiça, quando resolvemos checar
nossos bilhetes. Surpresa: nosso vôo sairia às 10:45h e já eram
09:00h. Trocamos de roupa como dois foguetes, pedimos um táxi,
descemos, pagamos nossa conta e pedimos ao motorista para
“voar” até o aeroporto. Estava muito frio e as ruas de pedras
estavam cobertas por uma fina camada de gelo. O motorista fez
coisas impossíveis, mas chegou ao aeroporto em poucos minutos.
Fizemos check-in rapidamente e corremos para a sala de embarque.
Todos já haviam embarcado e só faltava nós dois. Ofegantes,
achamos nossos acentos e relaxamos. Só depois do avião levantar
vôo é que conseguimos tirar as várias camadas de roupas de frio
que usávamos.
Depois
de 12 horas de vôo chegamos a Nova Delhi. Já passava da meia
noite. Tínhamos feito uma reserva do Brasil num hotel indicado
por uma amiga que tinha visitado a cidade. Era um hotel simples,
mas descente. Pegamos um táxi pré-pago no aeroporto; esta era
uma “dica” que já tínhamos quando saímos do Brasil. Além
do motorista havia outra pessoa no banco da frente. Achamos aquilo
estranho e questionamos o porque do acompanhante. Na verdade era
uma pessoa que tentava levar os turistas para os hotéis que ele
representava. Agradecemos sua atenção e pedimos ao motorista
para dispensá-lo. O táxi, parecendo um velho táxi inglês,
tinha o taxímetro do lado de fora, fixado nos pára-lamas
dianteiro. Naquele caso era somente um enfeite, já que não
funcionava há anos. Chegamos no hotel Nirulas, mortos de
cansados, sentindo os efeitos do fuso horário e fomos dormir as
03:00hs da manhã.
Acordamos
desentendidos, procurando saber onde estávamos, onde era o café
da manhã, enfim precisávamos nos localizar. Depois de certo
tempo nos situamos e saímos para conhecer a cidade. Nova Delhi é
uma cidade grande, poluída, com o tráfego congestionado quase
todo o tempo. Nos carros está escrito “please horn”. Os
motoristas, diante deste pedido, não hesitam, buzinam o tempo
todo. Sem contar os animais na rua, a cidade é um caos para quem
nunca visitou antes.
Gastamos
alguns dias por ali e, um dia, fomos até a estação ferroviária
comprar passagem para Agra, cidade onde fica o Taj Mahal. Fomos
recomendados a comprar passagens de primeira classe. Já sabíamos
da fama dos trens indianos e tentamos seguir o conselho. Nos
indicaram o lugar para a compra, que era diferente de onde os
indianos compravam. Isto porque éramos “gringos”. Depois de
esperar quase duas horas, fomos atendidos por um funcionário
muito solícito que informou que não havia mais primeira classe.
Ele disse: “- Mas o que são duas horas de segunda classe. A
viagem é rápida e o trem não vai tão cheio”. Pronto. Nos
convenceu.
No
dia seguinte, às seis horas da manhã chegamos a estação. Tudo
escuro, gente dormindo espalhadas pelas plataformas, nenhuma
indicação de onde o trem sairia, enfim, uma confusão total.
Achamos mais alguns “gringos” perdidos, o que ajudou um pouco,
pois somamos nossa desorientação à deles. O trem chegou às 09:00hs. Embarcamos no nosso vagão e logo
estava como lata de sardinha.
Para piorar, alguns passageiros resolveram jogar cartas,
fumando feito loucos e cuspindo no chão. Que nojo. O lugar que
estávamos era para seis pessoas. Tinha perto de vinte. As duas
horas prevista por aquele tão solicito funcionário, virarão
sete. Sufoco geral. E o pior é que todos achavam que o trem não
estava tão cheio.
Chegamos
a Agra e fomos seguidos por um rapaz que insistia em nos levar a
qualquer hotel no seu Riquixá (moto transformada com lugar para
dois passageiros atrás e que serve de táxi). O cara era tão
chato que resolvemos chamá-o de ”Riquichato”. O pior é que só
tinha ele na estação. Tudo bem, lá fomos nós. Achamos um belo
hotel, chamado Amar. Bonito e barato. Resolvemos ficar por ali. O
Riquichato também. Era só colocar o pé na calçada e lá vinha
ele correndo. Aparecia do nada e, por mais que tentássemos
despistá-lo, era impossível.
Nossa
grande expectativa nesta cidade era ver o famoso Taj Mahal. A
primeira coisa que chama a atenção é um comprido espelho d'água
no centro de um pátio refletindo a imagem dos visitantes que se
aproximam. Quatro torres laterais protegem a construção. Ao
centro, o grande palácio de mármore branco. O Taj Mahal é, sem
dúvida, uma das construções mais belas do mundo.
A
construção do palácio começou no fim de uma linda história de
amor. O príncipe persa Shah Jahan ao perder sua esposa Arjumand
Begum, que morreu ao dar a luz ao 14º filho. O príncipe se
desesperou e quase morreu também, de tristeza e desgosto. Para
abrigar o corpo de sua amada, ele decidiu construir um palácio.
Shah Jahan convidou os maiores artistas e arquitetos dos impérios
persa e mongol, mandou comprar os melhores mármores, encomendou
rubis e jades para decorar o mais belo túmulo que alguém poderia
ter. O Taj Mahal demorou 22 anos para ser construído e ficou
pronto em 1653. Shah Jahan resolveu então construir um novo palácio,
mas de mármore negro, onde ele próprio seria enterrado. Seus
filhos não deixaram o príncipe cometer mais essa loucura e o
prenderam em uma fortaleza. Quando ele morreu, também foi
enterrado no Taj Mahal. Realmente uma linda história de amor.
Continuamos
nossa viagem pela Índia de trem e ônibus, sentindo na pele (e no
nariz) o que o país oferece. Apesar da pobreza, do sistema de
castas, da poluição, da desorganização, da enorme e
ineficiente burocracia, este país oferece belezas naturais, um
povo resignado e até certo ponto feliz. Também riquezas culinárias
e uma cultura fantástica que só quem foi lá é que pode falar.
Mudando
um pouco de ares e fomos ao Egito e Israel. Do Egito pouco
precisamos falar. A própria história que aprendemos nas escolas
nos dá uma boa imagem do que encontramos. Mas nada é comparável
a emoção de estar lá, vendo com os próprios olhos o que os
livros nos mostraram.
Chegamos,
mais uma vez, na cidade do Cairo à noite. Achamos um hotel, fora
do centro da cidade, em Giza. Dormimos e no dia seguinte,
acordamos ao som das buzinas. Acreditem, mas a buzina toca ao
frear o carro... Ao
abrir a cortina do quarto quase caímos de costas. No meio da névoa
que vinha do deserto surgiram bem na nossa frente as Pirâmides.
Enormes, poderosas, dominando tudo a sua volta. Foi uma visão
inesquecível, uma surpresa que, por si só, pagava a viagem. Não
sabíamos que estávamos tão próximos.
Tomamos
nosso café da manhã e, fugindo de agências de turismo,
conseguimos um táxi para nos levar até lá. Não fomos direto.
Seguimos por caminhos alternativos e paramos num pequeno vilarejo.
Ali conseguimos cavalos e saímos cavalgando pelo deserto até
chegar àquelas maravilhas. Parecia um filme. Quanto mais próximo
mais imponentes elas se tornavam. São inacreditavelmente belas e
enormes. Por mais que tentemos é difícil imaginar como foram
construídas, sem os recursos tecnológicos da era moderna.
Ficamos por ali todo o dia, subindo onde era possível, cavalgando
um pouco mais pelo deserto, visitando outras pequenas obras ao
redor. Não resistimos e tivemos que repetir a dose, mas desta vez
montados em camelos.
Mesmo
com a dificuldade da língua e a escrita totalmente diferente,
conseguimos nos virar sozinhos. Pegamos ônibus para Alexandria,
fizemos compras fora do circuito turístico, andamos por ruas
estranhas, enfim, fizemos tudo que gostamos. O Museu do Cairo é
uma preciosidade. Decidimos cada dia visitar os pontos mais
importantes incluindo o mercado El Kalili e outras ruínas e pirâmides,
tudo isto acompanhados pelo nosso amigo “Salaha”
Mas
nós tínhamos um pequeno problema a resolver. Nosso vôo vindo de
Amsterdã chegou na cidade do Cairo e nossa volta seria por
Tel-Aviv, Israel. Como ir de um país ao outro? Começamos a
procurar, pesquisar, perguntar. Conseguimos, finalmente, uma
passagem de ônibus, cruzando o deserto do Saara. Fomos muito
recomendados a ter cuidado, pois alguns extremistas estavam
matando turistas. O
ônibus saiu às cinco horas da manhã. Era um pequeno ônibus com
alguns turistas. Nós dois brasileiros, dois ingleses, um holandês
e dois que não conseguimos identificar. Logo na saída da cidade
fomos parados pelo exército e um soldado, depois de chutar a
porta para abri-la e mostrar a metralhadora, perguntou se tinham
americanos ali. Graças a Deus ninguém se manifestou. Não tinha
nenhum americano entre nós.
Depois de checar os passaportes nos escoltaram por toda a
viagem até a fronteira com Israel. Durante todo o trajeto havia
uma camionete com seis soldados à frente do ônibus e outra atrás.
Não nos deixaram descer nem quando ônibus furou o pneu. Enquanto
o motorista e o ajudante, ambos armados, trocavam o pneu os
soldados cercaram o ônibus e ficaram vigiando o deserto. Somente
na travessia do Canal de Suez, enquanto esperávamos a balsa, nos
permitiram ir ao banheiro. Esta viagem durou mais de seis horas de
pura tensão e beleza. O deserto é lindo. É possível ver os
acampamentos dos nômades, oásis, camelos e as mulheres que vivem
no deserto vestidas com suas roupas coloridas. Ao chegar à
fronteira com Israel ainda tivemos que esperar, dentro do ônibus,
até nossa liberação para os trâmites de saída do país.
Ao
cruzar a fronteira tudo mudou. O lado israelense do deserto era
florido e os prédios modernos e bonitos. Isto no meio do nada,
pois para onde se olha só se vê deserto. Tivemos que esperar
mais um bom tempo até que outro ônibus veio nos buscar. O
motorista se desculpou pela demora e disse estavam revistando o veículo
a procura de bombas. Hein! Bombas??? Ah! Tudo bem! Pode demorar o
tempo que quiser!!!
Seguimos
direto para Tel-Aviv, cidade bonita e bem organizada. Foi fácil
achar hotel e nos localizar. O país é muito pequeno, com boa
malha rodoviária e bons transportes públicos. Só nos incomodava
um pouco as ameaças de ataques terroristas e bombas. Lá todos
andam armados e “ligados” o tempo todo. Se alguém joga um
papel no lixo, sempre tem quem olha o lixo. Pensando bem, o medo
é justificável. É possível sentir a tensão na cidade antiga
onde judeus, muçulmanos, ortodoxos e católicos convivem lado a
lado. Tínhamos sempre a sensação que estávamos sendo vigiados
e de fato, fomos surpreendidos por um homem que nos seguiu por
longo percurso. Quando percebemos tentamos mudar de caminho, mas não
resolveu. Somente depois muito entre e sai em lojas foi que não
vimos mais o tal sujeito. Não nos deixamos impressionar e não
deixamos de ver nada que nos propusemos ver.
Visitamos
Belém, o Mar Morto, Jerusalém, Tiberíades, as ruínas de Quran,
caminhamos na Via Dolorosa, vimos o monte das Oliveiras,
presenciamos sinais de atentados de bomba e vimos até desarmarem
uma bomba num hotel caro ao norte de Israel, enfim, aproveitamos
ao máximo nossa estadia.
Nosso
vôo de volta saía às três horas da manhã, mas tivemos que
chegar à meia noite, pois os procedimentos de revista e segurança
são extremos. Fomos revistados mais de uma vez, nossa bagagem foi
revistada, revirada, mexida, passamos por Raio X quatro vezes,
perguntaram tudo o que tinham direito. Nunca vimos nada assim.
Depois desta maratona nos liberaram para embarque, mas somente em
pequenos grupos de 10 pessoas, que eram levadas de ônibus até o
avião que estava estacionado bem longe. Tudo bem, isto era em
nome da nossa segurança. Uma certa hora foi dado alarme de bomba.
Vimos um grupo da ONU e resolvemos nos juntar a eles. Metade do
aeroporto era de policiais a paisana. Todos corriam e nós ficamos
ali, sem entender o que fazer. Graças a Deus era um alarme falso.
Fim de viagem, mais uma volta, mais
planos. Que tal Tailândia, Hong-Kong...? Gostei!!!
A
sensação de chegar na Tailândia e em Hong-Kong é de estar
realmente longe de casa. Nos dois lugares falam línguas
totalmente diferentes da nossa (na Tailândia parece que só tem a
letra “A” no alfabeto), a culinária, apesar da comida chinesa
ser velha conhecida, é muito diferente, os hábitos, a religião,
costumes. Tudo muito diferente.
Sentimos
um calor insuportável em Bangkok. Na verdade estava quente em
todo o país. Aliado ao calor, a comida muito apimentada dava a
sensação de estarmos numa sauna usando roupa de veludo.
Andamos muito, por todo lado e, quando cansávamos, pegávamos
um Tuk-Tuk (irmão do riquixá da Índia, só que mais moderno e
muito colorido. Alguns até com rádio). Aproveitamos para
conhecer as praias, principalmente em Pataia, que não fica muito
distante da capital. Neste lugar, muito freqüentado por
americanos, a prostituição rola solta. Muitas garotas do Vietnã
foram para lá tentar a vida, algumas, nitidamente, menores de
idade.
Certo
dia, sentados em um bar chamado Pink Lady, fomos abordados por uma
velha senhora, nos oferecendo companhia. Agradecemos a oferta e
continuamos na companhia da nossa cerveja gelada. Apesar disso, o
país é muito bonito, rico culturalmente falando, e com o povo
muito receptivo.
Visitamos
seus templos, o mercado fluvial, andamos por entre barracas de
frutas exóticas e experimentamos bons pratos, vimos seu mar
claro, suas praias limpas, passamos por florestas tropicais e com
muitos animais. A Tailândia merece ser revisitada uma vez mais.
Dali
seguimos para Hong-Kong. O contraste entre a tradição milenar
chinesa contrastava com a riqueza e pujança do capitalismo.
Podia-se ver carros impressionantemente caros (Rolls Royce,
Ferrari, etc) convivendo com barracas de peixes vivos e camelôs.
Se você precisar de um terno ali é o lugar perfeito. Em menos de
duas horas você tira as medidas, escolhe o tecido, passeia um
pouco, faz uma prova e volta para pegar o terno pronto. É incrível.
E o que mais impressiona é que estes alfaiates sobrevivem nas
suas minúsculas lojas ao lado de Shopping Centers imensos, com
lojas de grifes internacionais e com preços absurdos. A cidade é
cara, de um modo geral. É preciso andar muito e pesquisar mais
ainda para fazer bons negócios. Pode-se comprar bons equipamentos
fotográficos por preços extremamente baixos, desde que você
conheça do assunto e saiba avaliar bem o que estão oferecendo.
Relógios, canetas, gravatas, roupas: acha-se de tudo por lá.
Muitos são falsificados e é preciso muito cuidado na compra, mas
vale a pena, pois mesmo os originais têm preços competitivos.
Aproveitamos
nossa estadia em Hong-Kong e fomos até Macau, antiga possessão
portuguesa. Ainda hoje existem placas de ruas e nomes de lojas
escrita na nossa língua, mas menos de 2% da população fala
português, o que torna tudo mais estranho ainda. Andando em seus
mercados de rua, vimos muitos animais vivos, alguns estranhos para
nós, presos em gaiolas. Estes animais são vendidos para abate em
casa, pois os chineses cultivam o hábito de comprar animais
vivos. No meio daquela profusão de temperos, carnes, peixes, tudo
muito colorido e com cheiro forte, vimos umas pessoas comprando
uma coisa estranha. Difícil de descrever era como se fosse aquele
pano de limpeza Perfex, porém mais grosso. Uns compravam os
vermelhos, outros os amarelos. Todos pediam para provar um
pedacinho, que era cortado com uma tesoura, faziam cara de aprovação
e pediam para embrulhar alguns. Não resistimos e fomos perguntar.
Achamos um vendedor que falava um pouquinho de Inglês. Com muita
dificuldade explicou que aquilo era carne de boi ou frango.
Compramos uma folha dessa, das vermelhas, e um refrigerante e na
“Avenida Infante Dom Henrique” paramos para degustar esta
delicia da culinária local. Já comemos coisas estranhas, mas
esta bateu todos os recordes. De deliciosa não tinha nada.
Parecia um Perfex temperado. Ainda bem que tinha o refrigerante
para ajudar a descer. Mas foi difícil. Vencemos esta batalha a
duras penas, com medo das conseqüências posteriores, mas
sobrevivemos ilesos.
Não
dá para esquecer esta viagem para Hong Kong e Macau, pois pudemos
conhecer os países ainda como possessão inglesa e portuguesa e
também conhecemos e descemos no aeroporto de Kaitak, habilitado
apenas para poucos pilotos super treinados. O Kaitak foi
desativado depois que inauguraram outro ultramoderno e feito sobre
uma ilha artificial.
Como
sempre chegou a hora de voltarmos para casa. Afinal não se pode
viajar indefinidamente. Devemos voltar para ter para onde ir. E
assim vamos levando nossa vida. Conhecendo, pesquisando,
perguntando, sonhando.
Afinal
os sonhos são para ser vividos. Volta
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