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14a etapa
Mais uma vez na adorável América Central
18 de fevereiro, segunda feira. Deixamos cedo a lagoa Bacalar,
o Cenote Azul e fomos para Chetumal, última cidade Mexicana, para
atravessarmos a fronteira para Belize. Já na fronteira percebemos
as diferenças. Eram negros, hispânicos e mestiços
de origem indígena. O visto de entrada foi emitido rapidamente
por um custo de 25 dólares cada um. Um trabalho a menos pois assim
não tivemos que ficar a mercê da boa vontade e horários
das Embaixadas e Consulados que as vezes pedem alguns dias para emissão
do visto. Por aquela fronteira cruzavam ônibus de turismo com chineses,
japoneses, americanos e europeus. Não houve muita burocracia e
em pouco tempo já nos encontrávamos dentro do país.
O carro não foi revisado e somente nos perguntaram o que carregávamos.
Explicamos e eles nos mandaram seguir adiante. Em 3 horas já estávamos
em Belize City, na parte central do país. O país é
o segundo menor país da América Central, ganhando somente
de El Salvador, e possui quatro rodovias principais. Belize tem crescido
em turismo e alguns reparos nas estradas tem tornado o trânsito
por lá bem melhor. A costa do país é cercada por
arrecifes e atóis. O destino da maioria dos turistas se concentram
na Caye Ambergis que fica na parte norte, em San Pedro. Outros optam pela
Caye Caulker e alguns poucos decidem ir para o sul do país que
ainda é muito pouco explorada por causa das condições
das estradas.
Belize City é pequena, apesar de ser a maior cidade do país,
e totalmente diferente do que já havíamos visto na América
Central. Apesar dos prédios e casas decadentes a cidade tem uma
arquitetura bonita e os prédios são todos de madeira dando
muito charme ao local. A cidade corre do lado norte para o lado sul do
rio Haulover com uma ponte estreita, "Swing", com muito movimento
de carro e pedestres. Belize City é a antiga capital de Belize
e foi parcialmente destruída pelo furacão Hattie. Belmopán
foi construída com o intuito de se tornar a capital. Seu nome é
simplesmente a união de "Bel" de Belize e "Mopan"
que é a língua dos povos Mayas.
De Belize City fomos para o sul. Nosso destino era Hopkins, um pequeno
lugarejo que fica perto de Dangriga, a maior cidade da região.
Não demoramos muito e cortando caminho por uma estrada de terra
chegamos em Dangriga após alcançar uma outra estrada de
asfalto e outro pequeno trecho de terra novamente. Imaginávamos
uma cidade maior. Era praticamente uma rua de comércio com uns
poucos quarteirões cortando a cidade de ponta-a-ponta. Parelelamente
a esta rua estava o mar. Mais um pouco de asfalto e terra chegamos em
Hopkins. Para Belize é uma cidade, para nós seria uma comunidade
a beira-mar. Não foi difícil localizar a casa do nosso amigo
americano, Peter, que encontramos junto com sua cachorrinha de estimação,
a Snowball, em San Carlos (México) enquanto subíamos para
o Alaska. Desde então mantivemos contato por e-mail e ele nos convidou
para sermos os primeiros hóspedes na sua nova casa em Hopkins assim
que soube que estaríamos passando por ali. Ele decidiu alugar uma
casa por 6 meses naquele paraíso. O reencontro foi muito legal
e cada um de nós contou as novidades e experiências depois
de um ano. Comemoramos com cerveja local (Belikin), e com uma deliciosa
pizza, acreditem, feita pelos nativos. A sobremesa foi uma saborosa torta
de coco também feita por eles.
A população da região sul de Belize é formada,
na sua maioria, por Garífunas, que são os negros descendentes
dos náufragos nigerianos escravos. Esta região não
é tão populosa como a parte norte e central e as estradas
não são das melhores, principalmente depois da passagem
de mais um furacão por aquela região (Placência),
em Novembro de 2001. Ainda assim nos aventuramos por aquelas bandas indo
a Placência, que é uma península, e a uma pequena
vila de pescadores. A cidade também é bem pequena com algumas
cabanas coloridas que são alugadas a estrangeiros que se aventuram
por lá. Na maioria das vezes os donos são também
estrangeiros (americanos e europeus) que decidiram morar em Belize.
As praias não são como as praias brasileiras. Apesar dos
coqueiros, os nativos construíram suas casas bem na beirada fazendo
com que ficassem bem estreitas. Encontramos em Hopkins uma ponta de praia
muito linda que terminava numa mata verde. Ali não tinha nenhuma
casa nem ninguém, era um pedacinho de paraíso somente com
a natureza. Passávamos horas nadando, tomando sol e fazendo muitos
planos. Hopkins com sua gente muito simpática acabou nos conquistando.
Todos passam por você, abrem um sorriso e cumprimentam. As vezes
o sorriso não vem mas o cumprimento ou o aceno de mão sempre
vem. Ficamos muito tempo conversando com o Gadd, um nativo que trabalha
num bar, que nos contou sobre Belize, sobre a música jamaicana
que eles adoram e colocam logo cedo a toda altura. Explicou também
sobre o dialeto que usam como língua oficial, e que o inglês
é usado por ter sido Belize uma possessão inglesa. As crianças
adoram o Peter e todos os dias depois da escola passam para falar um "ôi"
ou para mostrar o que fizeram na escola. Sempre aparece alguém
batendo na porta para pedir emprestado uma chave de fenda, gás,
enfim o que necessitam e assim se ajudam mutualmente trazendo de volta
o verdadeiro sentido da " boa vizinhança".
Ficamos tristes de irmos embora dali, mas como as despedidas fazem parte
desta viagem, seguimos em frente e fomos em direção a Belmopán.
Foi engraçado porque imaginávamos uma cidade pelo menos
do tamanho de Belize City, já que era a capital, mas de tão
pequena demos a volta na cidade e nem nos demos conta. Paramos num pequeno
comércio que mais parecia uma feira e resolvemos seguir em direção
da fronteira da Guatemala. Ainda do lado de Belize fomos abordados por
um velho e conhecido batalhão de pessoas querendo insistentemente
ajudar e trocar dinheiro. Já tínhamos desacostumados com
estes chatos e acabamos tendo que nos conter para não brigar com
eles. Resultado: juntando tudo, o Helinho deu uma ré em cima de
um poste, que insistia em não sair do lugar, amassando um pouco
a porta traseira e quebrando o vidro. Por causa do insulfilm o vidro espatifou
mas não caiu e assim pudemos seguir em frente (com um pequeno reparo
"caseiro" vamos seguir até o Brasil assim mesmo).
A partir dali ficamos um pouco tensos por causa de um alerta para a presença
de ladrões na estrada entre as ruínas de Tikal e Flores.
Uma das vítimas resolveu nos contar o assalto e não gostaríamos
de jeito nenhum passar pelo que ela passou. Foram muito agressivos e roubaram
tudo de todos que estavam dentro do carro. Mas não tínhamos
outra alternativa a não ser seguir adiante.
A opinião geral é que Tikal é uma das mais impressionantes
ruínas do mundo Maya. Não sabemos se é por ela estar
envolvida pela floresta ou se pelo enorme complexo de construção.
Mas depois de ver muitas ruínas Mayas no México fica difícil
de saber qual delas é a mais impressionante. Além deste
bonito visual é possível também ver os animais que
habitam o lugar, como macacos, tucanos e outras espécies. De lá
descemos para Rio Dulce, uma cidade turística preferida pelos guatemaltecas,
que deixam suas enormes lanchas na marina. Existem vários lugares
interessantes e um deles é a cidade caribenha de Livingston que
fica quase em Belize. É uma vila de garífunas que mistura
a música latina e caribenha. A viagem até o lugar é
de tirar o fôlego passando por El Golfete, indo por lugares estreitos
com a floresta ao lado, desembocando no mar do Caribe. Outro lugar legal
é o Lago Izobal, o castelo de San Felipe ou ir até uma das
praias que se formam no lago. O lugar é uma festa de barcos e lanchas.
Procurando um local mais barato para ficar acabamos parando num hotelzinho
que hospeda muitos gringos e que foi o lugar mais estranho que já
ficamos nesta viagem. Ele fica dentro do rio e é suspenso, como
palafitas. Na havia paredes e os quartos eram divididos por uma espécie
de tela e cortinas. É um lugar estranho mas agradável, com
um restaurante e um píer bem movimentado. Teria sido muito legal
se não tivesse uma turma de guatemaltecos que não se cansavam
de beber e ficaram conversando alto até por volta das 3 da manhã,
fazendo um barulho muito chato. Como o quarto não tinha paredes
"participamos" da festa desta turma sem estar nela. O barulho
dos animais também era ensurdecedor mas não incomodava,
ao contrário seria bom para dormir se não fossem aqueles
"bichos homens" que conseguiam fazer mais barulho que os bichos
da natureza.
Dali, seguimos Guatemala Antígua. O visual mudou drasticamente
ficando mais agreste, com subidas, descidas e muitas curvas. O que nos
chamou atenção foi o policiamento das estradas desde que
entramos na Guatemala. Fomos parados várias vezes e chegando em
Guatemala City tivemos nossos documentos revisados junto com muitos caminhões
de carga. Tínhamos que parar em Guatemala City porque precisávamos
de um visto para entrar em Honduras. Apesar do caos da cidade conseguimos,
até com certa facilidade, chegar ao local. O mérito não
foi nosso mas creditamos o sucesso a sorte de ter perguntado as pessoas
certas. A sorte estava mesmo do nosso lado porque encontramos um cara
num Toyota e muito interessado em carros 4x4 nos guiou até o local.
Ele pertence ao Clube 4x4 de Guate (como Guatemala City é chamada).
Trocamos endereços e e-mails. Fomos correndo para a Embaixada da
Honduras e ficamos sabendo que o visto não era mais necessário
desde Setembro de 2001. Achamos realmente que aquele era nosso dia de
sorte pois chegamos na Embaixada 15 minutos depois que ela tinha fechado,
mas um senhor muito simpático nos deu a boa notícia, acompanhado
de um xerox para que não passasse por nenhum mal entendido na fronteira.
De Guate seguimos para Antígua. É uma cidade muito legal
para caminhar por suas ruas de pedras. Ficamos no mesmo lugar que já
tínhamos ficado na subida para o Alaska. É muito bom rever
os lugares e as pessoas...
A manhã do dia seguinte a que chegamos estava incrivelmente maravilhosa,
com uma luminosidade sem igual. Os vulcões que cercam a cidade
pareciam estar mais imponentes que nunca. O vulcão Água
que fica ao sul da cidade não possuía uma nuvem sequer em
volta e o Fuego parecia estar muito mais majestoso apesar de ser menor.
Pena que perdemos uma bela manifestação do vulcão
Fuego, pois na semana anterior era possível ver a noite o fogo
como se fosse uma queima de fogos de artifícios.
Antígua é conhecida pela comemoração da Semana
Santa. As procissões, que acontecem todos os fins de semana, começam
na semana seguinte ao carnaval culminando com a Semana Santa. As ruas
da cidade estavam enfeitadas com verdadeiras obras de arte. Grupos de
pessoas faziam enormes desenhos no chão usando serragem colorida
lembrando um pouco o que se fazem em Diamantina, em Minas Gerais. Vimos
quando a procissão saiu da Igreja de Santo Domingo. Todos vestiam
túnicas ou roupa preta. O andor com Jesus morto, era carregado
por muitos homens seguindo o ritmo da música triste tocada por
uma banda. Algumas vezes esta banda parava de tocar e se ouvia somente
uma flauta Maya tocada por um indígena. Muitos ônibus chegavam
de El Salvador e traziam diferentes "irmandades", cada uma com
uma vestimenta diferente. No ano passado acompanhamos as comemorações
da Semana Santa em Cuenca, no Equador e foi muito emocionante. Desta vez
estávamos em Antígua vendo as comemorações
pouco tempo antes da Semana Santa e ouvindo as explicações
sobre estas comemorações da Doña Norberta, a dona
do pequeno hotel que estávamos.
Perto de Antígua está Chichicastenango. Aos domingos a cidade
é um grande mercado onde os indígenas colorem as ruas e
vendem de tudo. Acordamos dispostos a ir para lá tomando um ônibus
até Chimaltenango e outro para Chichicastenango. São quase
4 horas de viagem, mas vale a pena. Em Antígua as procissões
do domingo continuavam durante todo o dia e parte da noite e tinham as
pessoas vestidas de roxo. Carregar o "andor" durante a procissão
é quase que uma penitência. Vimos homens, mulheres e até
crianças carregando o Cristo. As crianças iam se abaixando
de tão pesado enquanto uma delas contava até três
como uma forma de encorajar as outras a erguerem o corpo novamente.
Na segunda feira bem cedo colocamos o carro na estrada novamente e saímos
em direção a El Salvador. Quando chegamos em Guatemala City
resolvemos, por desencargo de consciência, ligar para a Embaixada
daquele país para confirmar se o visto seria necessário
ou não. Tínhamos quase certeza que ele não existia
mais, pois os outros países da América Central já
não o exigiam. Vimos pela televisão muitos comerciais e
depoimentos a favor da unificação e abertura das fronteiras
nos países centro americanos e também alguns acordos comerciais
serem assinados. Infelizmente fomos muito otimistas e o visto era necessário.
Demorava uns 3 dias e nos custariam 60 dólares. Pensamos o que
faríamos neste período. Já estávamos com tudo
no carro prontos para sair. Tínhamos muita curiosidade de conhecer
El Salvador, mas diante destas informações mudamos os planos
e decidimos seguir naquele mesmo dia para Honduras. Na saída da
cidade pedimos ajuda a um senhor que prontamente disse que nos ajudaria
já que estava indo para a mesma direção. No meio
do caminho fomos parados por policiais de trânsito para checagem
da nossa documentação. Já não tínhamos
mais dúvidas sobre o caminho mas quando nos demos conta que aquele
senhor nos aguardava na estrada. Daí para frente parecia perseguição
pois ele insistia para que parássemos e logicamente resolvemos
que não iríamos parar. Não conhecíamos o sujeito
e achamos aquela atitude insistente demais para alguém que com
tanta simpatia tinha decidido nos ajudar. Aceleramos e finalmente perdemos
o homem de vista.
Chegamos na fronteira e o velho batalhão de chatos veio pedindo
para ajudar. Quanto mais respondíamos que já conhecíamos
os procedimentos mais eles insistiam, um deles subiu no carro o que nos
obrigou a parar o carro e dar uma bela bronca. Finalmente nos deixaram
em paz e assim pudemos sair da Guatemala. Do lado Hondurenho começaria
uma verdadeira peregrinação de um lado para o outro. A imigração
foi fácil. Deixamos ali 40 lempiras, sem recibo, é claro.
Não entendemos porque mas o oficial da imigração
somente nos deu cinco dias para ficarmos no país... Como recusamos
a ajuda dos agentes, fomos perguntando a cada passo que percorríamos
qual seria o próximo passo. O primeiro nos pediu cópias
de nossa documentação mas como já sabíamos
disto, tiramos as cópias antecipadamente. Com tudo na mão
ele resolveu que queria uma cópia xerox dos vistos de saída
da Guatemala. Sabíamos que isto não existia mas resolvemos
satisfazer os desejos do cidadão. Ele datilografou os papéis
e entregou para uma outra pessoa passar para o computador. De lá
fomos para o outro lado da estrada pagar uma taxa para alguém que
nos deu o recibo em dólares, embora pagássemos em moeda
local. Passamos para o guichê seguinte e a outra pessoa nos deu
um outro papel. Dali voltamos para o prédio principal, num guichê
que marcava a cor "roja". Entregamos nossos papéis. Na
mesma hora vimos alguns agentes entregando os papéis de outros
gringos junto com a propina. Só víamos os nossos documentos
pulando para o último lugar. Cada um que entregava as documentações
e as propinas os nossos documentos iam mais para baixo. Por mais cara
feia que fizéssemos pouco adiantava para aqueles funcionários.
Achamos que eles simplesmente aguardavam a nossa propina. Esperamos um
longo tempo pela revisão do carro. Depois ficamos esperando muito
tempo para o supervisor conferir e assinar toda a papelada. Muito tempo
depois nos deram uma conta para pagar no banco. Enfrentamos a fila para
o pagamento e chegando nossa vez a funcionária nos avisou que precisaria
de uma cópia xerox. Apesar de não ser um problema nosso,
fomos lá tirar mais uma cópia. Voltamos com tudo pago e
só faltavam agora a permissão para rodarmos nas estradas
hondurenhas. Um outro funcionário nos entregou o passaporte carimbado
e disse: "una copia más e no more". Demos uma risada
e voltamos ao xerox. O funcionário nos levou no guichê onde
começamos todo o processo. O cara de pau do oficial da aduana antes
de entregar os documentos nos disse que custaria mais 120 lempiras. Pagamos
mas o recibo não veio. Resultado: mais uma "mordida".
O safado ficou com o dinheiro para ele, era a sua propina que recusamos
pagar desde o começo. No final deixamos naquela fronteira perto
de 40 dólares para uma permissão de estadia de apenas cinco
dias e que nos deixou 3 infinitas horas debaixo de um calor de 35 graus.
Honduras é montanhosa e por isso as estradas são feitas
de muitas curvas, subidas e descidas. Vimos todas as loucuras que não
víamos desde o Equador. Os motoristas ultrapassavam em qualquer
situação, na curva, na lombada ou sem visão nenhuma.
Em dois dias cruzamos o país indo para Santa Rosa de Copan, San
Pedro Sula, Tegus (Tegucigalpa) e Choluteca. Provamos desta vez o "baleado"
que eles comem no café da manhã. É tortilha com feijão
batido, creme e queijo.
Chegava a vez de cruzar a Nicarágua. Quando passamos no sentido
contrário tivemos que ir com uma "custódia", ou
seja, com um oficial de aduana com todos os nossos documentos. Tivemos
que ir direto de uma fronteira a outra sem direito a nenhuma parada no
país. Desta vez chegamos na fronteira e pegamos um "agente"
para nos ajudar a fazer a duana pois não sabíamos se ainda
existiam os antigos problemas comerciais entre a Land Rover e o governo
nicaragüense. Não queríamos perguntar para não
levantar a questão. Passamos pelo "Pase Facil", uma modernização
que fizeram desde a última vez que ali passamos e fomos ajudados
por "uma agente" muito simpática. "Santo quando
vê muita esmola, desconfia" mas preferimos pensar que as coisas
realmente tinham mudado. Incrivelmente em meia hora já estávamos
dentro do país, sem nenhum oficial de aduana conosco. Liberdade
total! Nem acreditamos!
Inacreditavelmente tudo tinha acontecido de forma rápida, descomplicada
e até muito fácil. Enquanto esperávamos os trâmites,
encontramos quatro meninos de mais ou menos 10 anos e um deles se destacava.
Ele dizia o nome de todas as bandeiras dos países que temos no
carro, queria saber sobre cada um deles e dizia que o melhor futebol do
mundo era do Brasil. Ele falava com tanta convicção que
quase acreditamos!!! Pena que nosso futebol não esteja fazendo
jus aos elogios deste pequeno nicaragüense e fã anônimo...
Já na estrada e não muito longe dali encontramos um casal
de alemães que também viajavam, porém em sentido
oposto ao nosso. Paramos, trocamos algumas informações e
seguimos em frente. Os 70 quilômetros iniciais foram de estrada
muito ruim. As crianças jogavam punhados de terra nos buracos e
pediam dinheiro. Infelizmente, já conhecemos esta mesma prática
em algumas estradas do nosso nordeste brasileiro. Aliás, tanto
Honduras e Nicarágua, que são os países mais pobres
da América Central, não nos mostrou mais miséria
do que já vimos no nosso próprio país. Aqui não
vimos nem mais, nem menos. É exatamente como as regiões
brasileiras mais pobres.
Passamos por León, uma cidade colonial, berço da Frente
de Libertação Sandinista. Os Internacionalistas surgiram
na Universidade de Direito desta cidade. Neste trecho a estrada é
excelente. A partir de um certo ponto duas estradas indicavam para Manágua,
resolvemos seguir pela que acreditávamos ser a mais curta, porém
muito esburacada. Era um interior árido, somente com alguns lugarejos.
Finalmente chegamos a Manágua depois de tanto desviar das imensas
crateras.
Depois dos terremotos (o último em 1972) que assolou a capital,
e da guerra civil, o centro da cidade nunca foi reconstruído mas
a cidade em si virou uma cidade moderna. O que mais nos chamou atenção
neste lugar foram o lago, os shoppings modernos e as "station wagons"
zero km que vimos circulando pela cidade.
Na época da guerra civil as famílias mais ricas migraram
para Miami, retornando mais tarde e trazendo de lá o estilo arquitetônico
americano. Hoje é contrastante ver um país pobre e tão
sofrido misturando o moderno e sofisticado com gente muito simples. Muitos
"nicas", como se auto denominam, fugindo das áreas rurais
que foram seriamente atingidas nos anos difíceis da guerra, seguiram
em direção a capital em busca de mais segurança.
Apesar da Nicarágua não ter um turismo muito grande devido
as catástrofes naturais e os problemas sociais e políticos
que marcaram o país, ela tem uma beleza natural incrível,
com o lago Nicarágua e muitos vulcões. Aproveitamos para
conhecer Massaya que tem o vulcão com o mesmo nome e Granada, uma
simpática cidade colonial e que fica ao lado do lago. A brisa que
sopra por lá, faz da cidade um lugar bem gostoso no final de tarde,
com pessoas sentadas nas portas de suas casas. Nos fez lembrar Icó,
no interior do Ceará onde no final da tarde todos vão para
fora das casas e sentam nas calçadas esperando o "aracati"
que é o vento que sopra da cidade com o mesmo nome.
Mais em direção ao sul está San Juan del Sur, uma
cidade praiana que recebe os poucos turistas que vão a Nicarágua.
Na Ilha Ometepe estão dois vulcões, o Concepcion e Maderas.
Eles erguem-se majestosos de dentro do lago.
Chegamos finalmente na fronteira e tudo parecia muito fácil para
nós que não tivemos a mesma felicidade de conhecer o país
quando passamos pela primeira vez. Nos procedimentos de saída o
policial nos disse que deveríamos apresentar um recibo com pagamento
de 10 dólares para rodar nas estradas. Argumentamos que não
recebemos nada para pagar mas não teve jeito, ele simplesmente
disse: "ou paga a taxa, ou não sai do país". Resolvemos
pagar rapidamente... Depois de pago só faltava a assinatura do
supervisor que nos perguntou sobre a "custódia" já
que o Land Rover não poderia circular no país. Fizemos cara
de bobos e fizemos de conta não sabíamos de nada sobre o
assunto. Ficamos com receio dele querer cobrar a taxa de custódia.
Depois de fazer cara feia, dizer coisas que fizemos de conta que não
entendemos, pediu para ver o carro, fez a revisão e finalmente
assinou nossa liberação. Respiramos aliviados e fomos embora.
O mais curioso é que vimos Land Rovers, antigos e novos, circulando
no país e até uma concessionária...
Entrar na Costa Rica foi super tranquilo. Estávamos loucos para
chegar em algum lugar na praia e por isto elegemos Tamarindo para ficarmos
por uns dias. Fomos para a mesma pousada que ficamos da outra vez e foi
engraçado porque quando chegamos, o Lucca, o italiano dono da pousada,
nos olhou e disse: "conheço vocês!" Dissemos que
sim, contamos um pouco sobre nossa viagem até o Alaska e nos sentimos
em casa. Pura Vida!
Em Tamarindo encontramos um casal de gaúchos que estava de férias
pela Costa Rica. O tempo que ficamos por lá foi para fazer absolutamente
nada, somente para desfrutar a vida... Descansamos, conversamos bastante
com o Lucca e com seus pais que ali estavam e conhecemos o Stuart, um
menino de três anos muito simpático. Ele aborda todos dizendo,
"Hola! Soy Stuart". Algumas vezes ele nos surpreendia. Ele só
tem três anos mas tem umas atitudes muito engraçadas. Um
dia estávamos tomando um sorvete quando ele apareceu. Compramos
um sorvete para ele e nunca vimos uma pessoa tomar um sorvete com uma
cara tão boa quanto a dele. Ele nos convidou a sentar num banco
e nos apresentou a um rapaz que ali estava dizendo que nós éramos
seus amigos. Ele tinha um jeito e expressões divertidas. Depois
que uma formiga picou seu o pé, ficou bravo e nos disse que a formiga
picou o pé dele "duríssimo".
Em um ano de viagem tivemos pouquíssimos dias chatos, sem graça
ou de pouca sorte. Sem saber porque saímos de Tamarindo antes do
que prevíamos e este foi um dia muito esquisito. Não nos
acertávamos sobre o que fazer. Estávamos um pouco preocupados
com a situação da Venezuela, que começava a ficar
muito ruim, e com um e-mail que recebemos de um amigo venezuelano avisando
que não deveríamos ir por lá. Aquilo atrapalharia
todos os planos de entrar no Brasil pela Amazônia e nos deixava
sem saber o que fazer, pois descer novamente pelo Equador deixaria nossa
viagem muito mais longa do prevíamos. Queríamos enfrentar
o problema rapidamente passando logo por ele, mas não medimos as
consequências e agimos por impulso do momento. Dois dias seguiram
de forma muito estranha mas finalmente vimos que estávamos sendo
muito precipitados e resolvemos parar para pensar melhor. Ficamos mais
um pouco na Costa Rica, fomos para San José, Dominical e Golfito.
Não passamos pelo vulcão Arenal, que estava nos planos,
mas resolvemos não ficar sofrendo por isto.
De Golfito, seguimos para o Panamá e já neste país
aconteceu algo inusitado. Estávamos indo na estrada entre Davi
e a cidade do Panamá quando vimos um carro da polícia rodoviária
atrás do nosso carro sinalizando para pararmos. Paramos no acostamento
e o guarda muito educadamanente nos disse que havíamos feito uma
ultrapassagem em local proibido e que seríamos multados por isso.
Não entedemos nada, porque todo o tempo somos cuidadosos ao dirigir.
Ele afirmou que ultrapassamos em frente a um cemitério e isso era
proibido. Fazendo força para não rir ou fazer alguma piada
com isso, pedimos desculpas e dissemos que o cemitério talvez não
estivesse tão bem sinalizado. Depois de muita conversa e usando
a tática de "sorriso nos lábios e cara de bobo"
fomos liberados sem a tal multa e prometendo tomar mais cuidado nas ultrapassagens,
principalmente em frente a cemitérios. Chegando na cidade do Panamá
vez resolvemos fazer tudo com muita calma, pois tínhamos difíceis
decisões a tomar. Enviamos outros e-mails para alguns venezuelanos
que conhecemos, para alguns viajantes que cruzaram a Bolívia recentemente
e outros mais buscando informações para nosso caminho de
volta. Continuávamos preocupados com a situação política
e social da Venezuela que piorava a cada dia, com greves e manifestações
acontecendo com mais frequência. As resposta dos emails enviados
para a Venezuela não foram muito animadoras, inclusive nos desaconselhando
a passar por lá. A opção de voltar para o Equador,
Peru e entrar para a Bolívia tinha alguns inconvenientes, pois
nesta época as chuvas deixam as estradas bolivianas muito danificadas,
nosso carro estava muito pesado e a marcha reduzida dele estava com problemas.
Para piorar vimos pela TV as fortes chuvas e enchentes que aconteciam
no Equador. A outra opção era enviar o carro para o Chile
e cruzar a Argentina, que também enfrentava muitos problemas. Só
para recordar, quando passamos por este país tivemos que ficar
horas parados em estradas fechadas, com muitos trabalhadores rurais fazendo
os famosos "paros". Resolvemos "esfriar"a cabeça
e começamos a fazer as pesquisas de preço do embarque do
carro com as companhias navegadoras e passagem de avião. Com tudo
na mão era hora da decisão. Por incrível que pareça
tudo favorecia o envio do carro para o Chile. Mesmo sendo mais longe que
a Venezuela e Equador, conseguimos um preço incrivelmente mais
baixo, pela empresa Maersk (dinamarquesa e muito confiável). Apesar
da grande vontade de ir para a Venezuela e cruzar a Amazônia tivemos
que ser racionais e decidir pela proposta mais interessante e segura.
Nesta viagem aprendemos a ter que decidir de acordo com as circunstâncias
e temos certeza que até então tínhamos tomado todas
as decisões corretas.
Ficar na cidade do Panamá foi muito legal já que estávamos
revendo os amigos que fizemos quando estávamos subindo para o Alaska.
Ficamos no mesmo hotel e lá conhecemos algumas pessoas interessantes,
como um surfista do Hawaii que atualmente mora numa praia na Costa Rica,
quase fronteira com o Panamá. Ele parecia estar longe das notícias
há muito tempo porque insistia que deveríamos ir para a
Colômbia que era muito mais barato e mais fácil. Explicamos
a ele toda a situação atual do país mas parece que
ele não se conformava pois a cada instante nos argumentava sobre
as vantagens de ir para lá. Encontramos também três
viajantes de moto que estavam na mesma situação nossa, ou
seja, tentando sair do Panamá para a América do Sul. O Morten
estava viajando a um ano e meio. Ele é dinamarquês e já
tinha cruzado a Europa, Ásia, Austrália, Estados Unidos
e América Central indo em direção a Argentina. O
Luis, um argentino vivendo em New York e o Patrick, um americano de New
York, estavam viajando juntos desde os Estados Unidos até a América
do Sul. O destino final do Luis era a Argentina e do Patrick era o nordeste
do Brasil. Em algum instante, diante das dificuldades apresentadas, tanto
o Luis quanto o Patrick cogitaram desistir do resto da viagem e retornar
dali mesmo para os Estados Unidos, pois eles não tinham tanto tempo
para viajar. Usando nossa experiência, conversamos bastante com
eles e sugerimos que não desistissem. Numa viagem como esta o bom
senso é necessário. É preciso parar e pensar, mas
nunca desistir. Foi o que fizeram. Depois de muita pesquisa, troca de
informações e pensar bastante eles não desistiram
e também decidiram não ir para a Venezuela pois os preços
eram bem mais altos e tudo parecia mais complicado. Decisão tomada,
resolvemos fazer todo nosso processo de trâmites, que foi muito
rápido e descomplicado. Era somente ir até a Policia e aduana
para acertar todos os papéis. Em meio dia já estávamos
com tudo nas nossas mãos. No dia seguinte colocamos o carro num
container, no porto de Balboa, dentro da cidade do Panamá. Foi
tudo muito rápido, seguro e a partir de então decidimos
somente curtir nossa estadia no Panamá na companhia dos nossos
novos amigos. Fomos conhecer a ilha de Taboga e aproveitamos para conhecer
cada pedacinho da cidade do Panamá. Foi divertido e pudemos contar
nossas histórias e ouvir as histórias deles. Jantávamos
juntos ou então ficávamos no hotel conversando por muito
tempo.
Era hora de nos despedir já que nós embarcaríamos
na sexta feira para o Chile, o Luiz e o Patrick estavam indo no sábado
para o Equador e o Morten continuaria aguardando uma peça da moto
que estava para chegar da Dinamarca naquela semana. Mais uma vez chegou
a hora de dizer "tchau" e seguirmos o nosso caminho em direção
a nossa América do Sul...
No começo da nossa viagem a América Central era uma incógnita.
Sempre que falávamos deste pedaço de terra lembrávamos
das guerras civis, de hostilidades, ditadores, terremotos e corrupção.
Depois de cruzá-la duas vezes vimos a injustiça que cometemos
ao pensar somente nestes aspectos negativos. A América Central
tem uma maravilhosa paisagem natural e as pessoas que ali vivem são
muito amigáveis, além de possuir uma rica cultura. Não
sentimos uma vez sequer nenhum tipo de hostilidade. O que vimos foram
pessoas simpáticas que nos ajudaram, nos ensinaram e que se tornaram
nossas amigas. Jamais poderemos esquecer o abraço sincero de doña
Norberta, uma índia de quase 70 anos, que nos disse para não
esquecê-la. Com toda certeza jamais esqueceremos dela e de outras
muitas pessoas que conhecemos. Aprendemos a ter muito carinho com esta
gente sofrida, mas feliz, e temos certeza que algum dia voltaremos para
revê-los e para passar mais um tempo na adorável América
Central.
Hasta luego Centro America!
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