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12a etapa
Na estrada novamente
15 de janeiro, quarta feira. As duas semanas que antecederam
nossa partida de Bowling Green foram cheias de arrumações
e emoções. Desmontamos o apartamento e montamos nossa casa
novamente no carro. Era hora das despedidas e isto nos deixava cada dia
mais ansiosos para pegar a estrada novamente. Não por desejo de
sair dali correndo mas porque estávamos muito emotivos com a nova
mudança de vida, afinal criamos raízes e amigos. Naquela
hora não foi diferente do que sentimos quando deixamos o Brasil
pois era hora de dizer um "um até mais"aos amigos que
ali fizemos. Na verdade o mais difícil da viagem não são
as longas distâncias ou alguns incômodos que encontramos mas
sim as despedidas que vão acontecendo pelo caminho.
Deixamos a cidade num dia muito gelado o que nos fez passar uma vez mais
no Grounds for Thought, um café muito especial para nós
porque foi um ponto de partida para fazermos amigos quando chegamos na
cidade. De lá, rodamos pela cidade como que despedindo e partimos
por uma rodovia vicinal onde tivemos a oportunidade de passar mais uma
vez em Waterville e Grand Rapids, duas cidadezinhas muito charmosas que
costumávamos passear. Dali nossa direção era Chicago.
Foram 504 quilômetros de estrada secundária, onde pudemos
apreciar as cidadezinhas de Ohio e Indiana. Na chegada em Chicago encontramos
o engarrafamento da cidade grande, com os loucos que nos ultrapassavam
por todos lados, coisa que já não lembrávamos mais...
Já estava escuro e já sabíamos onde ficar. No caminho
um brasileiro nos chamou perguntando se precisávamos de ajuda.
Paramos para conversar e fomos convidados para ficar em sua casa. Resolvemos
aceitar e lá estivemos por dois dias. Ao chegar fomos surpreendidos
por uma turma de brasileiros que foram convidados pelo João para
que pudessem nos conhecer e saber mais sobre a nossa viagem. Tivemos uma
bela recepção e acolhida dos brasileiros que ali viviam,
do "João Pai" e do "João Filho".
Como bons viajantes sem medo das grandes distâncias demos uma bela
¨esticada¨ de Chicago a Omaha, em Nebraska. No meio do caminho
fomos surpreendidos por um carro do Alaska o que nos fez sentir bem perto
daquele lindo lugar. A decisão de ir até Omaha tinha um
motivo especial por ser a cidade onde fica a matriz da empresa que o Hélio
trabalhava antes de "embarcar" nesta viagem. Era hora de rever
os amigos. Encontramos a Carolina, o Tim, o Rebello, o Atanu e o Lyle.
Infelizmente por culpa nossa não avisamos com mais antecedência
para que pudéssemos encontrar todos os outros. Ainda assim foi
possível encontrar algumas pessoas no "happy hour" que
acontece na empresa todas as sextas feiras. Foi uma uma ótima oportunidade
de contar a viagem e rever Omaha, agora com o nosso próprio carro.
De lá partimos para Kansas City e St.Louis. Na chegada fomos premiados
com um programa de rádio que tocava somente boas músicas
brasileiras (bossa nova, chorinho...), afinal estávamos na terra
do blues... Foi interessante estar em St.Louis num dia de um importante
jogo de futebol americano, é claro. Era um time da cidade e um
time de Green Bay, em Winsconsin. Apesar da temperatura muito baixa os
torcedores do time visitante ficavam sentados em grupos ao lado dos carros
ou motorhome fazendo um churrasquinho, quase que ao estilo brasileiro,
tomando cerveja, só que sem samba e pagode. Na hora do jogo os
torcedores iam em direçao do estádio... mas muito bem comportados.
A cidade não é muito grande mas é bem simpática.
No centro tem o "Arch" que é um arco enorme feito de
chapas de metal, perto de 200 metros de altura que domina a cidade. Existem
também o Laclede's Landing que fica bem perto do Rio Mississipi.
Ali tem bares, restaurantes e muita gente. É um lugar muito bom
para ouvir blues ao vivo. Fora isto é possível ver e jogar
nos cassinos que são barcos que ficam ancorados no rio. Muito legal
também foi conhecer a Union Station, uma antiga estação
de trem, que hoje virou um shopping bem bonito. A cidade também
tem para oferecer uma bela visão dos prédios públicos,
Ópera Hall e Bush Stadium. O passeio pelo Forest Park é
bem agradável no verão mas no inverno se torna quase impossível.
Lá existem vários museus e o zoológico da cidade.
Decidimos ir de St.Louis para Nashville também por estradas vicinais
o que nos permitiu atravessar muitas e longas pontes que cruzavam os rios
Mississipi, Missouri e Tennessee. Lá encontramos um verdadeiro
"little Brazil". Eram aproximadamente 400 estudantes fazendo
intercâmbio cultural.
Nashville foi exatamente o que imaginávamos em quantidade de saloons
e restaurantes com música country. Esta foi a cidade mais "diferente"
que vimos nos Estados Unidos. Ela é preparada para receber muita
gente durante o verão, mas por ser inverno a cidade não
estava cheia o que possibilitou conhecê-la por inteiro. Mesmo não
sendo muito grande o centro merece ser visitado com calma. O State Capitol
é uma enorme construção de 1845, em estilo grego.
Muito legal foi subir a Second Avenue, que era o centro de negócios
de algodão. Hoje os enormes e antigos armazéns são
ocupados com lojas, restaurantes e saloons, como por exemplo, o Wildhorse
que tem shows de música country diariamente. Não é
preciso dizer que Nashville é a "Capital Mundial da Música
Country". Muitos cantores do estilo foram "achados" tocando
nos vários saloons da cidade e outros ainda continuam por lá
com a esperança de conseguir bons contratos. O Printers Alley,
que é uma pequena rua boêmia, o Fort Nashborough e o Ryman
Auditorium são também lugares imperdíveis. Os shows
que aconteciam no Ryman foram transferidos para o Grand Ole Opray, que
é um gigantesco espaço de um complexo chamado Opryland que
também tem um gigantesco e colorido shopping e um suntuoso hotel.
Nashville foi uma cidade muito gostosa de visitar mas era hora de seguir
para Memphis. Fomos pela "rodovia da música" até
o nosso próximo destino. A cidade oferece atrações
que incluem o jazz e o blues, muito de Elvis Presley e Martin Luther King
Jr. O Sun Studio é parada obrigatória porque foi ali que
Jerry Lee Lewis, BBKing e Elvis Presley gravaram discos. O centro da cidade
tem um pequeno pedaço interessante de ser explorado. A Beale Street
é conhecida pelos bares e pelo blues e jazz que podem ser ouvidos.
Haviam um grande anúncio de venda de entradas para o show de BBKing
que aconteceria em poucos dias, mas pena que não estaríamos
ali para assistir. Em três quarteirões pudemos encontrar
várias atrações incluindo o Wall of Fame, a praça
com uma escultura do Elvis, e Schwab's Dry Good Store, que é uma
loja enorme de quinquilharias, inclusive com "pós mágicos"
e que existe desde 1876. O Museu da Polícia mostra a ordem de extradição
do assassino de Martin Luther King Jr, morto em Memphis em 1968. No dia
seguinte antes de seguir para New Orleans, fomos a Graceland, lugar onde
fica a mansão, os aviões e a coleção dos carros
de Elvis Presley.
Saimos de Memphis debaixo de uma chuva torrencial que nos perseguiu por
muito tempo. O que mais nos preocupava era o aviso de tornado se aproximando.
O aviso era feito a cada intervalo de música e o locutor com tom
muito sério parecia estar anunciando o fim do mundo. Viajamos com
o mapa da região na mão acompanhando o movimento do Tornado.
Parecia que ele nos perseguia... No meio de toda esta "turbulência"
perdemos a terceira bandeira do Brasil em pleno estado do Mississipi..;.
Entrando em Louisiana o sufoco já tinha passado, o céu ficou
azul novamente e enfim chegamos a New Orleans com um calor de 26 graus.
Por uma distração nossa caimos bem no centro da cidade em
pleno horário de pico. O trânsito era caótico mas
foi bem oportuno para começar a entender a cidade. No dia seguinte,
em plena sexta feira, fomos para o French Quarter para conhecer esta antiga,
bonita e histórica parte da cidade. A cidade que foi fundada por
franceses e depois ocupada por espanhóis, tem na sua história
o mesmo passado escravo que tem o Brasil, por isto foi possível
ver algumas semelhanças, como por exemplo, o sincretismo religioso
que lá é conhecido como Voodoo. É possível
encontrar casa de Voodoo com um "arsenal" para magia incluindo
alguns produtos vindos do Brasil. Apesar de algumas diferenças
reconhecemos um pouco da nossa cultura em New Orleans.O turismo nos Estados
Unidos explora tudo que tem direito e em New Orleans eles aproveitam o
passado doloroso dos escravos para vender "roteiros Voodoos"
que inclui visitas a cemitérios.
O quarteirão frances reúne arquitetura francesa e espanhola
com ruas estreitas lembrando um pouco o casario de Parati, Olinda e Ouro
Preto mas com varandas com detalhes em ferro. Todas as varandas estavam
enfeitadas para o carnaval (Mardi Gras). São máscaras, colares
coloridos e bonecos que dão ar de festa. Na verdade o Mardi Gras
lembra os antigos carnavais brasileiros com desfiles em carros alegóricos.
Os desfiles acontecem nos finais de semana que antecedem o carnaval e
a alegria é geral. Enquanto estávamos por lá vimos
muita gente na cidade e muita bebedeira, principalmente na Bourbon Street
que é a rua mais badalada do quarteirão francês. Foi
engraçado ver as 4 da tarde de uma sexta feira pessoas bem vestidas
com copos de cerveja na mão, andando pelas ruas e algumas completamente
bêbadas. Os bares a esta hora já estavam lotados com música
ao vivo e muitos dos frequentadores subiam nos palcos para dançar
e até ensaiavam um "strip". Nas ruas vimos grupos de
jazz e blues, sapateadores e pessoas que imitavam estátuas. Tem
aqueles que são muito legais e outros que tentam fazer o melhor
que podem. Vimos de tudo, do fantástico ao engraçado...
Mas fazem de tudo para ganhar uma grana.
New Orleans também tem uma parte moderna com prédios enormes
e cassinos. É o centro de negócios da cidade. Em uma outra
parte da cidade ficam as antigas mansões que foram reformadas e
que é chamado de Garden District. Se quiser também é
só caminhar pelo Riverfront, as margens do rio Mississipi. Outra
opção é ver os crocodilos dos Swamps (pântanos)
ou pegar uma praia do lado leste da cidade. Depois de caminhar bastante
chegamos a conclusão de que apesar de termos visto New Orleans
numa época de festas a cidade é realmente uma festa sempre.
De lá fomos para Houston e demos sorte de chegar num domingo já
que ela é a quarta maior cidade americana e certamente com todos
os problemas de uma grande metrópole. Conseguimos conhecer o centro
da cidade de forma tranquila, ver os prédios muito bonitos que
ali existem e a parte onde estão os museus, o zoológico
e o aquário. Houston é uma cidade repleta de autopistas
e viadutos o que faz o tráfego fluir rapidamente mas que não
permite nenhuma dúvida quanto ao trajeto a percorrer. Algumas atrações
estão a alguns quilômetros da cidade, como o Johnson Space
Center (NASA), Six Flags Astroworld e Water World e Galveston que é
uma pequena cidade que fica no Golfo do México. Definitivamente
esta não era uma cidade para ficar muito tempo numa viagem como
a nossa. Nossa última parada nos Estados Unidos seria Austin, também
no Texas, já que a nossa intenção era cruzar a fronteira
para o México em Laredo. Um outro bom motivo para estar em Austin
seria fazer uma visita a um casal de amigos (Siegi e Roland) que encontramos
em Mount St. Helena, perto de Seattle quando subíamos em direção
ao Alaska. Eles também estavam indo para o Alaska de carro e em
todo este tempo mantivemos contato via e-mail.
Chegando em Austin fomos muito bem recebidos pelo casal que nos saudou
com uma faixa de boas vindas, o que nos deixou bastante felizes e emocionados.
Era hora de relembrar toda a viagem e cada um contar suas experiências
no Alaska. Nada melhor que conhecer uma cidade com moradores do local.
Não é preciso dizer que conhecemos Austin de uma forma muito
especial. Siegi é uma alemã que vive há muitos anos
nos Estados Unidos e Roland é um americano descendente de alemães.
Depois de viverem em muitos lugares fora dos Estados Unidos e também
em alguns estados americanos, incluindo o Hawai, vieram morar no Texas
e hoje conhecem este estado como poucos.
Austin é uma cidade muito simpática e bonita com uma parte
bem montanhosa e com casas construídas de forma a ter uma visão
do vale ou do rio Colorado que corta a cidade. Este é um "outro
rio Colorado", não o que passa pelo Grand Canyon no Arizona.
São casas enormes e muito caras. Fomos ao parque da cidade, de
onde é possível ver este rio, e também fomos ao State
Capitol que é um suntuoso complexo de mármore rosado, sede
do governo do Texas. Seguimos por toda a Congress Avenue que cruza a cidade
e que tem uma ponte famosa pela quantidade de morcegos que ali vivem de
março a outubro. Ao entardecer eles viram as "estrelas do
show", já que saem aos milhares voando ao mesmo tempo em busca
de alimentos. Para muitos, morcegos causam um certo arrepio de repúdio,
mas eles são necessários pois eles devoram toneladas de
insetos mantendo o equilíbrio ecológico e sendo muito importante
para a agricultura. Eles também ajudam na polinização
das plantas. Hoje o governo texano mantem estudos especiais sobre o morcego
e se preocupam com a construção de novas pontes privilegiando
o habitat destes mamíferos. A 6th Street é a mais badalada
rua da cidade, com bares, restaurantes, lojas, música e muita gente
jovem.
Saimos sem pressa de Austin em direção a Laredo. Chegando
lá o que vimos foi uma cidade agitada, com muitos restaurantes,
shoppings, hotéis e com um certo "ar" mexicano. Decidimos
não cruzar a fronteira neste dia pois os trâmites são
sempre muito demorados e dirigir a noite no México não estava
nos nossos planos. Fomos para um hotel e no dia seguinte bem cedo dirigimos
em direção a fronteira. Era hora de deixar os Estados Unidos.
Um momento sempre muito difícil, mas necessário. Quando
fomos em direção ao Alaska chegar lá era nossa meta,
agora temos uma outra meta, chegar no Brasil, rever nossa família
e nossos amigos. Porém ficamos mais uma vez divididos. Da mesma
forma que ficamos tristes por estar deixando para traz gente que gostamos,
lugares fantásticos estamos felizes por estar indo em direção
ao nosso Brasilzão, passando por lugares muito legais. Temos ainda
um longo caminho pelo frente, muita novidade e muitos amigos para conhecermos....
Adelante! Viva México!
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