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10a etapa
De volta ao Canadá
No dia 21 de junho, quinta feira, fomos saindo do Alaska
sem nenhuma pressa. Não resistimos e resolvemos ir até a
Península Kenai para conhecer os "Fjords", o "Exit
Glaciar" e a cidade de Seward e região. A estrada que liga
Anchorage à Peninsula é muito bonita e por isto valeu a
pena o passeio antes de ir embora. Paramos também numa pequena
cidade, Palmer, onde acabamos conhecendo uma família que nos visitou
no camping. Ficamos conversando e apreciando o "solstício
de verão"; o sol permaneceu além da meia noite, não
se pondo naquele dia. O casal queria conhecer o nosso carro, saber melhor
do desempenho dele e mostrar um Land Rover que conseguiram comprar nos
Estados Unidos. Era o sétimo de uma série especial, com
tudo que tinha direito: automático, ar condicionado, acabamento
de primeira, motor V8... não tinha nada parecido com o nosso a
não ser o design, mas era de acordo com as leis americanas.
Depois de uma agradável "noite" de bate-papo decidimos
partir de fato do Alaska pela rodovia "Top of the World" em
direção a Dawson City, no Klondike, na província
do Yukon, Canadá. A paisagem continuava bonita mas com a estrada
bem poeirenta. Era um lugar muito interessante mas tivemos que nos apressar
porque a fronteira do Canadá fechava às 8 da noite. Era
uma viagem sem muita euforia mas estávamos felizes pela certeza
de ter cumprido nosso objetivo. Não era uma volta, mas uma nova
oportunidade de conhecer outros lugares, mais gente e coisas interessantes.
Dawson City tem o clima da época da "corrida do ouro",
com os prédios e casas restauradas e bem conservadas, algumas pessoas
vestidas com trajes da época e ruas de terra. A cidade foi até
o final do século XIX a maior a oeste de Winnipeg e ao norte de
Seattle. Também foi a capital do Yukon até 1973, chegando
a ter mais de 30 mil habitantes. Depois a capital passou a ser Whitehorse.
Este foi um lugar onde além de apreciar a beleza da cidade reencontramos
algumas pessoas que conhecemos durante a viagem: duas australianas e um
casal de canadenses de Quebec que conhecemos em Fairbanks, no Alaska.
De lá partimos para Whitehorse, Watson Lake e Dawson Creek, cidades
que passamos na ida para o Alaska. Este é o roteiro obrigatório
pela falta de opções de estradas naquela região.
Quando subimos em direção ao norte nossa euforia era grande
querendo chegar logo ao topo do mundo. Desta vez deu para apreciar melhor
os lugares mas sentimos uma pontinha de pesar por sabermos que aquele,
quer queira ou não, era um caminho de volta. Ali avistamos novamente
os ursos negros e marrons. No Alaska o urso "grizzly" é
o mais comum de ver; apesar da sua aparência amigável é
o mais perigoso dentre eles.
A partir de Dawson City todo o caminho seria novidade. De lá fomos
para Edmonton, uma cidade grande e capital da província de Alberta.
Era hora de dar uma atenção especial para o carro fazendo
a manutenção necessária. Era um lugar propício
pois a cidade oferece muitas opções de serviços.
Edmonton tem o "maior shopping do mundo", aliás a cidade
inteira parece um verdadeiro shopping, com os mais variados tipos de lojas.
Dentro do shopping é possível assistir shows de golfinhos,
apreciar uma réplica do fundo do mar e também nadar numa
piscina imensa com ondas produzidas artificialmente. A próxima
parada foi Calgary conhecida pelos famosos eventos country e rodeos. Existe
na cidade um parque para exposições e apresentações
chamado "Stampede", que leva o nome de uma grande festa anual.
A festa do Stampede acontece durante 10 dias e seria na semana seguinte,
com isto pudemos ver o início dos preparativos. Circulavam por
lá muitos carros puxando traillers com cavalos, alguns "vaqueiros"
e muitos turistas começando a chegar para a festa. Próximo
a Calgary está Drumheller que fica num vale chamado de Vale dos
Dinossauros.
A partir dali começaria uma nova paisagem até Winnipeg já
que os próximos 2.000 kms é uma região totalmente
plana. Era possível ver fazendas, verde, fazendas, silos, fazendas,
seleiros... A visão era às vezes um pouco monótona
mas ao mesmo tempo era completamente diferente do que tínhamos
visto anteriormente. Regina, a capital de Saskatchewan, é o quartel
general da polícia montada canadense e é possível
assistir a troca de guardas e o treinamento deles. Depois de muito rodar
com descanso merecido em alguns lugares, chegamos a Winnipeg, na província
de Manitoba justamente no feriado do Canada Day. Não conseguimos
ver a cidade num dia normal de trabalho mas pudemos conhecê-la bem
e em pouco tempo.
De Winnipeg em diante a paisagem mudou novamente, os lagos e as montanhas
reapareceram deixando para traz a pradaria. Entramos em Ontário
e o nosso trajeto era margear o Lago Superior (no lado americano é
o Lago Michigan) que mais parece um mar com ondas. Paramos em Thunder
Bay. Existe ali um monumento dedicado a Terry Fox, um jovem canadense
de 18 anos que teve uma perna amputada por ter sido vítima de um
câncer. Nos anos 80, depois de colocar uma prótese, decidiu
fazer uma caminhada atravessando o Canadá. O objetivo era arrecadar
dinheiro para a pesquisa da cura do câncer. Chegando em Thunder
Bay ele teve que interromper a jornada já que sua saúde
estava muito debilitada. Não conseguiu ir em frente e morreu pouco
tempo depois. Ainda assim conseguiu arrecadar alguns milhões de
dólares. Até hoje as doações continuam.
Seguimos apreciando o lago até que chegamos em uma pequena cidade
de apenas 4 mil habitantes chamada Marathon. Na estrada vimos uma placa
que mostrava ter um camping. Resolvemos seguir até lá e
chegamos num lago muito bonito com uma ótima área de camping.
Não encontramos ninguém já que em alguns campings
no Canadá e Estados Unidos depois das 18 horas o registro é
feito por você mesmo e o dinheiro depositado numa caixa. No entanto,
este camping mesmo durante o dia, não trabalhava ninguém
a não ser certamente quem recolhe o dinheiro e limpa o lugar. O
acesso ao banheiro só era possível depois do depósito
de 1 dólar. No camping, além de nós, só tinham
dois traillers por isto estava muito tranquilo. Como era costume, fizemos
nosso jantar, comemos e fomos passear no lago apreciando a beleza do lugar.
Quando já estava escurecendo,10 ou 11 horas da noite, voltamos
da caminhada e encontramos os dois donos dos traillers assustados. Perguntaram
se estava tudo bem. Não entendemos. Eles disseram que viram dois
ursos a menos de 100 metros de nós. Não vimos nada mas resolvemos
que era hora de dormir... No dia seguinte resolvemos tomar nosso café
da manhã, sentados numa mesinha na beira do lago esperando ver
os dois "abelhudos", mas eles não vieram. De lá
fomos para Sault Saint-Marie que fica na fronteira com os Estados Unidos.
Como ainda não hora de cruzar a fronteira, ficamos dois dias por
ali. Era um lugar muito agradável e perfeito para a comemoração
de aniversário do nosso casamento. Seguimos para North Bay ainda
no Canadá e tivemos uma boa surpresa, era também uma cidade
bonita na beira do lago. Passamos o domingo debaixo de um sol bem forte
e nos refrescamos na água do lago.
A partir deste ponto seria uma viagem para relembrar uma parte já
visitada por nós anteriormente. O primeiro lugar foi Ottawa, que
desta vez nos surpreendeu bem. O lugar foi muito mais agradável
do que tínhamos na memória. Capital política e administrativa
do Canadá, Ottawa tem uma vida cultural intensa, com museus interessantes
onde se destacam o Museu da Civilização e o Museu de Arte
Moderna. A cidade é acolhedora embora tenhamos ficado num camping
fora dela. Deixávamos o carro num estacionamento público
e de lá era possível pegar um ônibus para o centro.
Num destes dias voltamos e encontramos um bilhete do proprietário
de um Land Rover que pedia que fizéssemos contato, pois estava
interessado em saber melhor do carro e da viagem para uma matéria
no jornal da cidade. Fizemos o contato e fomos muito bem recebido por
ele. Como todas as coincidências que tivemos nesta longa viagem,
uma outra aconteceu no segundo dia que estávamos em Ottawa. Andando
pela cidade encontramos um casal de brasileiros, o Júnior e a Tanja,
que também estavam cruzando as Américas de carro, ou melhor
num caminhão Scania. Despedimos deles em São Paulo e agora
estávamos coincidentemente nos encontrando no Canadá. Trocamos
nossas experiências e fomos juntos, no dia seguinte, para um parque
chamado Algonquin onde improvisamos até um churrasco e umas caipirinhas
para comemorar o encontro. Dali nos despedimos indo para Montreal e ficando
lá por três dias. A cidade estava uma verdadeira festa. Era
verão e estava acontecendo o Festival do Riso. Todos os lugares
estavam cheios. Tinha turista de todas as partes do mundo. Revisitamos
alguns lugares e conhecemos outros novos. Era hora de ir para Quebec.
Ficamos em Lévis que fica do outro lado do rio Saint Laurent de
onde era possível apreciar o Parliament e parte da cidade velha
de Quebec. Era só atravessar pelo Ferry Boat e lá estávamos
subindo a ladeira da Petit Camplain. Lévis também era uma
cidadezinha bonita e agradável para uma caminhada. De Quebec fomos
em direção a Mil Ilhas, um lugar que não conhecíamos
mas que sabíamos ser bem bonito. Diz a lenda que quando Deus fez
o paraíso deixou cair um pedacinho na terra e este se espalhou
formando as Mil Ilhas. Isto diz a lenda... mas lá é de fato
quase um pedaço do paraíso. Quando passamos em Brockville
sentimos que deveríamos ficar por ali pelo menos um dia. Ficamos
5 dias. É um lugar para não se fazer nada, apenas apreciar,
andar pela cidade, observar as pessoas indo e vindo de lancha ou veleiro
dentro do rio, ver o por do sol, nadar ... O lugar é tão
especial como as pessoas que ali moram Imaginem que estávamos saindo
de um supermercado e fomos abordados por uma família que nos convidou
para um churrasco com eles. Queriam apenas nos conhecer e conversar. Claro
que fomos e passamos uma horas bem agradáveis por lá. No
camping encontramos pessoas que como nós queriam descansar e ficávamos
conversando por horas. Tivemos com estas pessoas algumas dicas sobre a
região. Conhecemos uma senhora de quase 80 anos que falava 8 línguas
inclusive o português. Foi hora dela colocar em prática o
idioma que não falava há muitos anos. Nesta idade ainda
viajava muito e junto com a sobrinha participaria de um campeonato de
golfe que estava acontecendo na cidade. Ela ganhou o primeiro lugar e
a sobrinha o segundo lugar. Foi uma bela festa de comemoração.
Mesmo sem querer partir fomos para Toronto. Na verdade a cidade grande
não nos atraia muito mas como já conhecíamos nos
demos o direito de apenas caminhar e rever alguns lugares que já
conhecíamos. De lá fomos para Niagara Falls.
A beleza de Niagara Falls é impressionante e a cidade bem agradável
de ficar. Fomos presenteados com um dia de muito sol podendo assim apreciar
todo o encanto do lugar. Era hora de deixar o Canadá. Como já
tinha acontecido anteriormente no Alaska, deixar um lugar tão bonito
e que tanto gostamos para traz nos causa uma certa tristeza mas também
uma grande alegria por termos tido a oportunidade de fazer uma viagem
como esta e apreciar o que há de mais bonito. Dali seguimos para
os Estados Unidos, cruzando a Rainbow Bridge indo para uma pequena cidade
no estado de Ohio chamada Bowling Green. Aqui estacionaremos nosso Land
Rover por algum tempo e aproveitaremos para um merecido descanso antes
de começarmos a descer novamente em direção ao nosso
grande Brasil. O caminho de volta será diferente portanto nossa
aventura continuará depois desta pausa.
Nesta longa viagem, encontramos muitas pessoas, aprendemos muitas lições
e com certeza ainda temos muitas coisas para aprendermos. Na verdade estamos
a cada dia aprendendo e assimilando mais. Conforme nos disse uma senhora
com muita experiência pela idade, "a vida é muito curta
e a morte muito longa"... por isto resolvemos aproveitar cada segundo
da vida para aprender, conhecer e agarrar todas as oportunidades que nos
são dadas. É isto que fizemos até agora...
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