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9a etapa
Enfim, o Alaska ! ! !
11 de junho, segunda feira. Era hora de deixar o Canadá e seguir
para o tão falado e sonhado Alaska. Partimos de Whitehorse onde
já era possível sentir o Alaska na pele, pois o visual,
segundo informações, já era o mesmo do Alaska e os
mosquitos que todos já tinham nos alertado já estavam presentes
naquela região... Faltavam somente 520 kms para cruzar a fronteira.
Partimos com a certeza de que era hora de chegar no Alaska. Quanto mais
se aproximava mais ficávamos ansiosos. O coração
já batia forte quando avistamos a aduana canadense. Paramos e conversamos
menos de 2 minutos com uma funcionária que sorriu dizendo que seríamos
bem vindos ao Canadá na volta do Alaska... Mais alguns poucos quilômetros
e chegamos numa grande placa que dizia: WELCOME TO ALASKA, que fica antes
da imigração. Não deu outra... A primeira coisa foi
ficar bobo, olhando para a placa, a segunda foi descer do carro e tirar
fotos e depois fizemos o maior carnaval... É verdade! Desde que
decidimos fazer a viagem sempre sonhamos com esta chegada. Com isto escolhemos
uma música e foi com ela no volume máximo que paramos na
estrada e ali mesmo comemoramos... Todos que passavam olhavam mas entendiam
o porque da festa. Sabiam que não era muito fácil sair do
Brasil, de carro, até ali.
Enfim, cruzamos a fronteira! O policial fez o questionário como
de costume achando meio estranho um carro vindo do Brasil. Com certeza
ele não presenciou outros brasileiros passando por ali. Pela cara
dele deve ter achado que éramos meio loucos... Esta era a "última
fronteira" ao norte.
Era hora de oficialmente colocar o pé no Alaska. Descemos do carro
no primeiro posto de combustível que vimos e compramos umas bebidas
para a comemoração da noite. Ali, naquele instante decidimos
que gostaríamos de ir até Fairbanks direto... A ansiedade
e a adrenalina ainda estavam altas e por isto rodamos no total 920 kms
sem cansar... Passamos por Tok, onde a estrada se divide indo para Fairbanks
e Anchorage. Nosso destino era Fairbanks. Pouco antes de chegar lá,
encontramos a casa de Papai Noel, em North Pole. Quando chegamos ele estava
lá, trabalhando, parece até que estávamos no Natal,
mas quando saímos de lá encontramos somente a placa se desculpando,
pois afinal até Papai Noel vai para casa descansar depois de um
longo dia de trabalho... Estávamos a 14 milhas de Fairbanks e finalmente
chegamos.
Tivemos muita sorte porque encontramos um camping bonito, na beira de
um rio, com casas do outro lado e um gramado bem verde de um lado e do
outro. No rio passavam lanchas, jet skis... era uma festa. O cansaço
bateu depois de uma comemoração com apenas 3 cervejas, mas
já não dava para aguentar mais o sono e apagamos com o dia
claro apesar de passar da meia noite. Ainda desacostumados com os barulhos
do lugar, acordávamos a toda hora com os pássaros que cantavam
durante toda a madrugada. Como o sol brilha nesta época 20 horas
e nas outras 4 horas a noite permanece mais clara que escura, até
os pássaros parecem querer aproveitar cada instante, afinal quando
chega o inverno é o contrário e pouco se vê a luz
do dia.
Aproveitamos o dia seguinte para nos organizar, mandar emails, revelar
fotos e conhecer a cidade. Fairbanks parecia uma festa! Gente na rua até
tarde: de carro, a pé ou de bicicleta. Muitos restaurantes, lojas
e fast food funcionam 24 horas. É hora de aproveitar tudo, todo
o tempo de sol e dia claro. Ficamos por ali, 2 dias antes de partir para
Proudhoe Bay. Precisávamos nos preparar para a viagem e esperar
um pouco antes de sentir de novo a ansiedade de alcançar o nosso
objetivo final.
Já sabíamos das condições da estrada até
Proudhoe Bay - eram 1.600 kms (ida e volta) numa estrada sem asfalto,
com vários pedaços em reconstrução, caminhões
circulando em alta velocidade, dividindo o caminho com quem passa por
ali, nenhum recurso nos últimos 400 kms antes de chegar a Proudhoe
Bay (acomodação, combustível, alimentação,
primeiros socorros, etc) e pouco recurso nos 400 kms iniciais. Apesar
disto não ficamos assustados porque já tínhamos preparado
nossa cabeça.
Levantamos sem muita pressa e por volta das 10 horas partimos com intenção
de dormir em Coldfoot, último lugar com algum recurso na estrada.
Não sentimos o tempo passar e chegamos lá muito rápido,
ainda era cedo. Como estávamos bem dispostos e afinal não
tinha nada para fazer naquele lugar a não ser ficar de braços
cruzados resolvemos continuar até nosso destino final. No meio
do caminho o tempo mudou subitamente e uma nuvem completamente negra e
pesada foi surgindo e caiu uma chuva muito forte e com ela uma mudança
de temperatura drástica. Daí para frente o frio era intenso.
A estrada ficou deserta e parecia que somente nós tentávamos
chegar a Proudhoe Bay o mais rápido possível pelo pior trecho
do caminho. Os últimos 120 kms pareciam intermináveis. Começamos
a ficar um pouco preocupados pois sabíamos que lá só
tinham dois hotéis e não tínhamos nenhuma reserva.
Por volta das 21:00 hs, avistamos de longe e no meio da neblina e da chuva
a luz de um farol e outras silhuetas que pareciam ser da cidade. Finalmente
estávamos chegando lá.
A primeira sensação foi bem estranha. Chegamos em Deadhorse
que é a cidade que abriga trabalhadores dos campos de petróleo
que fica em Proudhoe Bay. Não se pode chamar Deadhorse de cidade
pois só existem dois hotéis, uma loja de conveniências,
um posto de combustíveis e o resto fica por conta de algumas construções
que pertencem à companhia de petróleo. Além disto
avistamos um lago congelado, muito gelo pelo caminho e estranhas máquinas
que pareciam ter saído do filme "Mad Max". Depois desta
visão nos restava comemorar e procurar um lugar para passar a noite.
Fomos no primeiro hotel e a recepcionista nos encaminhou para o segundo
já que neste somente era possível estar com reserva. Chegamos
no segundo e última opção de hotel e por sorte pegamos
a recepcionista que estava de saída. Finalmente conseguimos um
apartamento e pudemos ficar num quarto bem quentinho. Nestes hotéis
em Deadhorse ficam hospedados muitas pessoas que prestam serviços
para a companhia petrolífera por isto é expressamente proibido
a entrada de álcool por isso não pudemos brindar naquela
noite.
Na manhã seguinte pudemos ver melhor Deadhorse e continuamos com
a sensação de estar num lugar realmente muito estranho.
O frio continuava intenso e ficamos sabendo que apenas duas semanas antes
da nossa chegada tudo estava absolutamente branco de neve e gelo. Era
hora de tentarmos colocar o pé no último ponto e nosso objetivo
final: Proudhoe Bay. Na verdade o costa do Ártico fica dentro das
instalações da companhia petrolífera cujas terras
são de propriedade do governo americano e é área
de alta segurança. Já sabíamos com antecedência
que não seria fácil entrar com nosso carro. Mesmo assim
tentamos de todas as formas, contactando algumas pessoas, inclusive em
Anchorage. Depois de muita conversa nos foi permitido entrar, sem nosso
carro e com uma pessoa autorizada a nos levar para ver o Ártico.
De Deadhorse, onde fica o portão da companhia até o Ártico
são apenas 5 kms. O que se vê até a chegada no Ártico
são: as construções da companhia, máquinas
imensas e o oleoduto que corre a céu aberto e que já vínhamos
acompanhando por toda a Dalton Hwy desde Fairbanks, afinal esta rodovia
foi especialmente construída para tornar possível a manutenção
do oleoduto e para transporte de equipamentos e peças para Proudhoe
Bay.
No dia 15 de junho, sexta feira, depois de viajar por 115 dias, percorrer
30 mil kms e conhecer 13 países finalmente alcançamos nosso
objetivo final. Estávamos em Proudhoe Bay: missão cumprida
! Ficamos parados olhando para o Polo Norte que estava a 1.300 milhas
de distância, colocamos nosso dedo na água congelada e voltamos
para Deadhorse. Estávamos felizes e prontos para pegarmos o caminho
de volta.
Os tais 120 piores kms que tínhamos pego com chuva no dia anterior,
é um lugar onde uma camada de terra cobre a imensa camada de gelo
que fica por baixo. Ali o solo é congelado... A medida que nos
afastávamos de Proudhoe Bay o clima ia ficando bem melhor e um
céu muito azul surgia. O tempo por ali é bastante instável,
variando rapidamente e sem aviso prévio. Era possível agora,
ver a vida selvagem que existe na região como os caribus que cruzam
a estrada, bizões, ursos, raposas, lobos, alces, etc.
Esta vida de viajante é bem engraçada mesmo. Quando saíamos
de Fairbanks para Proudhoe Bay, vimos pessoas acenando para nós.
Era um casal de alemães com a filha e que viajavam num jeep Mercedes
desde Ushuaia e como nós estavam ansiosos para chegar a Proudhoe
Bay. Eles disseram já saber de nós porque uma alemã
que tinham encontrado contou sobre a nossa viagem. Lembramos na hora da
Siegi e do marido que ficamos conhecendo num camping perto do Mount Santa
Helena, ainda nos Estados Unidos e que ficamos conversando por muito tempo.
Eles também tinham a intenção de chegar ao Alaska
mas em Anchorage.
Na volta de Proudhoe Bay encontramos novamente este casal com a filha
e paramos na estrada para contar sobre nossa experiência. Fomos
premiados com a visita inesperada de um grande urso que descia uma pequena
montanha próxima da estrada. Ficamos por ali observando o urso
que comia tranquilamente sem se importar com a nossa presença.
O restante da viagem foi com dia muito claro e bonito onde pudemos observar
melhor a paisagem de montes nevados e desta vez parar numa parte onde
a estrada passa no meio das montanhas (Atigun Pas). Aproveitamos também
para novamente parar no marco, onde passa a linha imaginária do
Círculo Ártico. Ali, no solstício de verão
(que neste ano acontece no dia 21 de junho), o sol brilha as 24 horas
do dia, enquanto no solstício de inverno ele não nasce.
Depois disto só nos restava acelerar até Fairbanks guardando
a lembrança da experiência de dirigir na Dalton Hwy e de
ter cumprido nosso objetivo. Optamos também por seguir direto sem
paradas para dormir, afinal o dia estava lindo e o escuro da noite não
viria. Estranhamente quando a luz permanece por longo tempo o cansaço
não vem muito fácil... Chegando em Fairbanks encontramos
dois alemães andando na estrada e paramos para conversar. Eles
iam a pé de Proudhoe Bay até Ushuaia e a previsão
de chegada é de aproximadamente 4 anos. Assim como o casal de alemães
nos encontrou na estrada, nós também já tínhamos
tomado conhecimento da façanha deles, por isto quando avistamos
os dois paramos de pronto. Eles ainda andavam por volta da meia noite
e seguiam felizes para o sul.
No dia seguinte cedo acordamos descansados e de novo fomos por a casa
em ordem. Desta vez tivemos que tirar absolutamente tudo de dentro do
carro pois não tinha um só lugar onde a poeira não
tivesse entrado. Depois de tudo limpo fomos para a cidade. Era sábado.
Com o dia muito claro parece que todos resolveram sair para a rua. Estava
bonito ver todo mundo andando pela rua. Aproveitamos até o último
instante daquele dia, vendo o sol da meia noite e com pesar de deixar
Fairbanks. Seguimos no dia seguinte para o Denali Park, ficando acampados
dentro do parque com todos os mosquitos e pernilongos que tínhamos
direito. Depois de conhecer o lugar e o famoso Monte Mckinley (o mais
alto pico da América do Norte), fomos para Anchorage e finalmente
estávamos prontos para sairmos do Alaska com todas as lembranças
na memória. Nos sentimos mais "ricos" por termos conseguido
atingir a nossa proposta. Descobrimos o valor do "tempo", que
dinheiro nenhum do mundo pode pagar. O apoio da família e dos amigos
foi fundamental nesta viagem. O prazer de conhecer pessoas, lugares e
o contato direto com a natureza, já que passamos pelo menos dois
meses dormindo em camping, compensou qualquer sacrifício. O que
realmente nos importa é saber que saímos do Alaska com a
certeza da MISSÃO CUMPRIDA. Afinal tínhamos um sonho e os
SONHOS SÃO PARA SEREM VIVIDOS.
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