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7a etapa
Cruzando os Estados Unidos pela Costa Oeste
13 de maio, domingo. O que pensamos ao sair do México
era que a viagem pelos Estados Unidos seria legal mas que faltaria o calor
humano que recebemos nos países da América Latina. Erramos
feio! E feio também pela visão pré-concebida do país
e dos americanos. Na verdade seria mentira dizer que não vimos
logo na entrada "Mac lanches" diversos, carros bem melhores
que no México, uma polícia mais bem equipada, freeways excelentes
e sem pedágios... Na fronteira já percebemos a diferença
ao passar por Nogales onde enfrentamos uma fila de mexicanos e americanos
que atravessavam ordenadamente, dentro dos carros e de forma bem comportada.
Quando chegou a nossa vez não tivemos nenhum problema a não
ser a curiosidade de alguns dos policiais e funcionários da aduana
que pareciam nunca terem visto nenhum carro brasileiro cruzando por aquelas
bandas, muito menos indo em direção ao Alaska... Pelo menos
aqueles que estavam trabalhando, naquele domingo, "Dia das Mães".
Não teve nada de revista oficial, mas em compensação
tivemos que mostrar o motor, falar sobre o carro, enfim, tivemos que responder
um questionário de curiosidades sobre a viagem e nosso Land Rover.
Isto porque nos Estados Unidos o Defender 110 é uma raridade e
os poucos que existem pertencem a colecionadores...
Sem nenhum "stress" pisamos na terra do Tio Sam, pelo Arizona,
indo diretamente para um RV Park (Residencial Vehicle) em Tucson. Era
um verdadeiro "camping cinco estrelas", com piscina aquecida,
jacuzzi, salas de leitura e ginástica, Internet, sala de jogos,
lavanderia, churrasqueira. Nos espaços reservados para cada "Rvers"
tinha mesa, cadeiras, luz, água, pontos de telefone para conectar
Internet. E alguns lugares, pagando um pouco mais tinha uma jacuzzi privativa.
Ali começava uma nova etapa da viagem.
Era impressionante ver o tamanho dos traillers e motorhomes estacionados.
Imaginem um ônibus de turismo para mais ou menos quarenta pessoas,
transformado numa casa. É um luxo só! Atrelados a estas
"casas" sempre tinha um belo carro a reboque. É claro
que, como tinha ao lado do "camping" uma grande fábrica
destas "casas ambulantes", não resistimos a curiosidade
e fomos lá para saber os preços. Caímos de costas.
Os preços variam de 150 mil a 1 milhão de dólares.
Dá para acreditar??? Tudo bem, não acreditaríamos
também se não tivéssemos tido a curiosidade de saber
os preços. É claro que nem todos que estavam estacionados
por ali tinham o mesmo "calibre", mas aquilo tudo nos deixou
impressionados... Mas o "Land, nosso grande guerreiro" fez muito
sucesso também. Logo que estacionamos já tinha gente perguntando
sobre o carro, pela viagem, querendo saber sobre o Brasil, não
acreditando que estávamos dirigindo por tanto tempo. Com isso fomos
convidados para um jantar e uma festa, fazendo assim novos amigos. Encontramos
até uma brasileira casada com um americano e que mora há
mais de 30 anos no Arizona. Ela se colocou a disposição
para nos ajudar com informações e até oferecendo
e insistindo para que na volta fizéssemos uma visita a ela, ficando
alguns dias por lá.
Tucson é uma bela cidade, que traz na paisagem muito do que já
tínhamos visto no norte do México. Só para ter uma
idéia é como se estivéssemos vendo um filme do John
Wayne ou Clint Eastwood. Inclusive alguns dos filmes de western foram
rodados nas montanhas com "saguaro" (cactus enormes) e estúdios
de Old Tucson. É claro que a parte moderna nem de longe se parece
com o velho oeste, pelo contrário é uma típica cidade
do interior americano, com malls, fast food, Walmart, Best Buy e todos
andando de carro nas longas avenidas e ruas largas.
De Tucson seguimos para Safford, para encontrar um grande amigo que não
víamos há 15 anos. Na verdade nos vimos uma única
vez, no Peru, mas nunca perdemos o contato... A decisão de vê-lo
já tinha sido tomada a partir do momento que resolvemos fazer a
viagem. O encontro foi fantástico e pudemos tirar uma bela lição:
existem pessoas que são especiais na vida da gente mesmo sem ter
um relacionamento diário. São pessoas que te ensinam, te
dão força ou que simplesmente te entendem e torcem por você.
Sem sentimentalismo... Fomos recepcionados com um belo jantar e aproveitamos
para colocar quinze anos de papo em dia. No dia seguinte tivemos dois
convites especiais: um almoço com a participação
de mais ou menos 30 pessoas com direito a uma pequena palestra contando
sobre nós e nossa viagem e uma entrevista para um jornal. Foi engraçado
conversar com um jornalista tipicamente americano mas que nasceu no Japão
e viveu grande parte da sua vida em países asiáticos, inclusive
trabalhando como repórter. Durante a nossa entrevista fomos apresentados
a um senhor de 80 anos de idade e que lutou na 2a. Guerra Mundial. Ele
foi piloto de bombardeiro inclusive participando da batalha do "Dia
D". Muito orgulhoso nos mostrou fotos da época. Foi uma pena
não termos ficado para a entrevista que ele daria, pois esta é
uma grande história. Com muito pesar, deixamos aquele lugar tão
simpático e fomos para Grand Canyon, alterando assim o roteiro
inicial que seria seguir direto pela costa oeste, desde San Diego.
A mudança no roteiro valeu a pena, afinal faríamos uma parte
da Route 66. Sem nenhuma pressa passamos por Phoenix, Black Canyon, Meteor
Crater, Flagstaff e finalmente o Grand Canyon. Black Canyon é um
lugarejo que você só tem certeza que não está
num filme de época porque a highway cruza por ali. Meteor Crater
é impressionante de ver, porque foi uma cratera imensa feita por
um pedaço de meteoro que caiu a muitos anos atrás. Flagstaff
é uma cidade muito bonita e que está bem na Route 66, lembrando
em alguns lugares os anos 60. O caminho até o Grand Canyon é
lindo, com muito verde e bem diferente da aridez do Arizona que até
então tínhamos conhecido. Um pouco antes da entrada do parque
nos chamou atenção uma grande loja de artesanato, principalmente
indígena. O mais engraçado eram os donos vestidos como cowboys.
Um deles tinha uma barba branca enorme. Eles convivem ali com um lobo
branco, domesticado. É possível encontrar também
neste caminho alces, às vezes pastando na beira da estrada. A grande
estrela porém é o Grand Canyon. É sem dúvida
uma visão impressionante... grandiosa... imperdível... Fomos
até o último posto de observação da parte
sul (Desert View) de onde era possível ver melhor o Rio Colorado.
De lá não resistimos e fomos para Las Vegas, afinal não
estávamos longe e resolvemos arriscar a sorte. Quem sabe não
seria a nossa grande chance de ter nossa viagem patrocinada (doce ilusão).
Passando pelo impressionante Deserto de Mojave chegamos à cidade
mais iluminada do planeta. Se isto está no Guiness Book não
sabemos mas nunca vimos tanta luz e tanto brilho. É engraçado
ver a combinação do luxo e do lixo, do chique e do brega.
Nos desculpem os amantes de Las Vegas mas às vezes a cidade está
mais para "Las Bregas". Tem gente de todo tipo: bêbedos
às 10 horas da manhã, chiques que pagam para ver os fantásticos
shows, turistas de bermuda vendo os shows de graça , cassinos,
"peruas" andando de limusines, gente casando nas capelas tipo
"drive trhu", carrões alugados ou particulares e o mais
impresssionante, todos apostando a sorte grande, inclusive nós.
Não apostamos a vida, somente uns poucos dólares para brincar
e lógico ganhamos e perdemos.... Tudo isto faz parte do show. Encontramos
por lá até um senhor que dizia ser amigo da "Maria",
que foi secretária da Carmem Miranda... Las Vegas realmente é
um show a parte!
Resolvemos que depois de tantos desvios deveríamos seguir o caminho
original e achamos que era hora de parar de querer conhecer tudo que o
país tem, pois mesmo sendo estas férias mais longas do que
o normal, não é o suficiente para conhecer tudo. Fomos então
para Los Angeles, voltando para a costa do Pacífico. Lá
fizemos tudo que todo turista faz: Holywood, Rodeo Drive, Beverly Hills,
Santa Monica, Venice Beach, Universal Studios... enfim, tudo isto e mais
as freeways lotadas em qualquer horário. Ficamos em Pasadena e
pudemos sentir na pele o que os moradores sentem para ir de casa ao trabalho
e vice versa... Apesar da promessa de seguir nosso caminho original, não
resistimos mais uma vez e fomos para o Yosemite Park... Tínhamos
bons motivos para esta "voltinha"... Dia 24 de maio era uma
data a ser comemorada e decidimos que gostaríamos de estar num
lugar bonito e tranquilo, achamos então que este era "o lugar",
afinal era aniversário (da Vera) e não era esforço
nenhum rodar mais alguns quilômetros. Mais uma vez, valeu a pena!
O parque é muito bonito e a tranquilidade somada ao céu
claro e estrelado que fazia, motivou a um belo jantar a luz de velas e
das estrelas (romântico, não?) Só tinha um probleminha:
o parque é habitat natural dos ursos negros. Eles são gulosos
e têm um olfato apurado podendo sentir o cheiro de qualquer comida
deixada no carro. Imaginem... nosso carro é nossa casa e está
sempre abastecido de alimento. Existe a recomendação ao
entrar no parque de não deixar absolutamente nenhum alimento dentro
dos veículos, pois estes imensos e gulosos ursos arrombam as portas,
ou quebram os vidros causando enormes prejuízos. Existem caixas
de ferro para que todo alimento seja guardado longe do carro. Não
iríamos deixar de fazer nossa comemoração por causa
dos ursos. Felizmente, nenhum deles resolveu nos fazer surpresas, não
os convidamos para a festa e eles não vieram...
Vale dizer que foi um dia especialmente muito feliz, pelo aniversário
e pelos emails recebidos da família e dos amigos. Mesmo estando
longe é muito bom ser lembrado...
A próxima parada foi San Francisco. Para chegar lá voltamos
para o litoral subindo pela HWY 1 e passando pela Baía de Monterrey
(Carmel, Santa Cruz e outras praias). Na entrada de San Francisco, num
congestionamento, fomos surpreendidos por um carro que estava ao nosso
lado com uma brasileira e um americano e que balançavam uma pequena
bandeira do Brasil. Aproveitamos a lentidão do trânsito para
conversarmos um pouco. Ficar em Bekerley do outro lado da Baía
de San Francisco por nossa passagem por San Francisco coincidiu com o
maior feriado americano, o Memorial Day. São 4 dias e todos viajam,
deixando os campings, hotéis e motéis lotados. Ainda assim
aproveitamos bem a estadia por lá e fomos conhecer as atrações
que a cidade oferece como a Golden Gate, Sausalito, China Town, Nob Hill,
Lombard Street, etc. De lá seguimos para Sacramento e por sorte
nossa estava acontecendo um dos maiores festivais de jazz dos Estados
Unidos. Foi uma oportunidade e tanto de participar do festival que tinha
a presença de muitas bandas que tocavam simultaneamente pelas ruas
de Old Sacramento e artistas que tocavam sozinhos. Old Sacramento foi
construída na época da corrida do ouro americano e era o
ponto final da linha ferroviária transcontinental. Os prédios
são preservados e hoje funcionam como restaurantes e lojas, dando
um ar do western e saloons que vemos nos filmes.
Resolvemos definitivamente que já era hora de acelerar até
o Canadá, pois afinal de contas já rodamos 23.000 quilômetros
de ainda temos um bom caminho até Proudhoe Bay.
A partir do extremo norte da Califórnia, a paisagem já começa
a ficar diferente com matas de pinheiros e montanhas, algumas se destacando
por seus picos nevados. O Mount Shasta é um destas montanhas que
pode ser observada de uma cidadezinha com o mesmo nome onde ficamos acampados.
A temperatura também já muda, é mais amena embora
o dia seja ensolarado e longo e as noites bem frias. Assim atravessamos
os estados de Oregon e Washington apreciando a paisagem que mais se parece
com o Canadá. Nossa última parada nos Estados Unidos foi
próximo aos Montes Rainer e St.Helena, sendo este último
famoso por causa da erupção que aconteceu a 20 anos atrás
modificando radicalmente a paisagem. Onde existia um monte nevado, como
o Shasta, agora é uma cratera.
Todo o tempo que estivemos nos Estados Unidos fomos muito bem recebidos
pelos americanos que sempre nos acenavam dos carros, vinham conversar
conosco nos postos de gasolina, estacionamentos, lojas, campings ou nas
ruas. Muitas vezes trocamos endereços eletrônicos e informações
mudando assim a nossa visão do americano como frio e distante.
Como sempre cada vez que saímos de um país, sentimos uma
dorzinha no coração mas ao mesmo tempo uma enorme vontade
de conhecer o que vem pela frente. O que nos deixa mais felizes é
saber que ainda estamos indo e que temos a volta para curtir mais os países
que agora estamos deixando para trás. Percebemos agora que o Alaska
está bem mais próximo!
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