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5a etapa
Cruzando a América Central
No dia 19 de abril, quinta feira, embarcamos para o Panamá
num vôo que saía às 6:30 da manhã e para isto
tivemos que sair do hotel em Guayaquil, Equador, às 3:00 da madrugada.
A viagem para o Panamá não é muito longa e em 1:45
de vôo já estávamos no aeroporto de Tocumen na Cidade
do Panamá. O aeroporto não estava cheio, era cedo e com
isto foi fácil conseguir nos acertar com relação
à hospedagem. Já chegamos com algumas indicações
de hotéis, o que foi menos estressante. Conseguimos um bom desconto
no valor da diária e um táxi cinco vezes mais barato. Sorte?
Um pouco, mas também por causa das informações obtidas
na Embaixada do Panamá, em Quito.
Como tivemos a informação de que a Cidade do Panamá
era uma cidade grande e perigosa, ficamos com a sensação
que encontraríamos outra Guayaquil pela frente, mas não
foi isto que encontramos. Ela é realmente uma cidade grande mas
super bonita e muito moderna. O centro antigo da cidade realmente é
perigoso mas ficamos bem longe de lá, com isto tendo uma outra
impressão da cidade. Circulamos por todos os lados e inclusive
fomos ao centro velho mas sinceramente não deu a mínima
vontade de ficar andando por lá para conhecer melhor. Quem foi
ao Pelourinho, em Salvador, antes da restauração e revitalização
pode ter idéia do que estamos falando...Tem uma parte bonita de
arquitetura e foi inclusive declarado Patrimônio Histórico
pela Unesco, mas o descuido e a fama de ter muitos ladrões por
suas ruas afugenta a maioria dos turistas, inclusive nós.
A cidade do Panamá sofreu grande influência americana por
causa da construção do canal. É possível encontrar
grandes avenidas, fast food, malls com lojas e todas as marcas de roupas
que encontramos nos Estados Unidos. Em contraste a isto é possível
ver os ônibus coloridos, com sons dos rádios altíssimos
tocando salsa e merengue e as buzinas estridentes e ensurdecedoras. Pode-se
ver os carros sempre novos e tipos físicos dos mais diversos, como
descendentes dos imigrantes americanos, mestiços e negros caribenhos,
todos muito simpáticos e alegres. A cidade é uma festa de
gente, buzinas e um calor insuportável. O Panamá consegue
ser mais quente que Guayaquil . A umidade relativa do ar é em média
75%.
Ficamos sabendo que finalmente o navio com nosso carro estava chegando
na data prevista e que precisaríamos ir até Colón
(a 85 kms da capital), que fica do lado do Atlântico para retirar
o carro. Acertamos tudo com a empresa navegadora e sábado bem cedo
pegamos um ônibus numa rodoviária que faz inveja a muito
aeroporto que se vê por aí. O ônibus tinha ar condicionado,
TV, muito conforto e um ajudante do motorista bem ao estilo "latin
lover". Era muito engraçado o jeito que ele tratava todas
as mulheres que subiam e desciam do ônibus. Todas elas era chamadas
de "meu amor", "minha vida"... e o mais engraçado
ainda eram os seus dois dentes da frente: um de ouro branco e outro de
ouro amarelo, decorados com pequenos desenhos. Durante toda a viagem ele
se mostrava, dançando a salsa e merengue tocada muito alto, como
de costume. Depois de uma hora e meia de diversão, já estávamos
no escritório. Ficamos esperando pelo funcionário responsável
pelos nossos documentos de retirada do carro do porto. Quando terminamos
os trâmites, corremos para o porto Mazanillo, a 5 quilômetros.
Chegamos às 11:15 e fomos informados que o porto fecharia ao meio
dia e que o departamento de trânsito que precisávamos ter
ido antes da aduana no porto não abria aos sábados. Lembramos
do embarque do carro e pensamos que começaria tudo de novo... Deu
desespero! Imaginar toda a burocracia que teríamos que enfrentar...
Teríamos que voltar para a Cidade do Panamá e depois para
Colon novamente, na segunda feira... Mas desta vez erramos. Fizemos uma
cara tão desolada, que a pessoa encarregada pela entrega do container
pediu a um funcionário que nos ajudasse. Também o chefe
da aduana fez todo o possível, inclusive pedindo a uma funcionária
do departamento de trânsito que fosse da sua casa ao escritório
para emitir o documento que nos autorizava a circular com o carro no Panamá.
Sem este documento não poderíamos seguir viagem. Jamais
conseguiríamos tirar o carro do porto naquele dia se não
fossem estas pessoas. O chefe da aduana, além de trabalhar lá,
é um professor de geografia e muito interessado em nosso país.
É simpatizante do Lula e queria saber tudo sobre o momento político
e econômico do Brasil. Agradecemos muito a todos o grande favor
que nos fizeram e saímos felizes da vida de novo com nosso carro,
pois sabíamos que poderíamos depois de 20 dias continuar
nossa expedição. Ficamos impressionados com a boa vontade
deles, pois ambiente de porto era o que conhecíamos de Guayaquil.
Depois de toda esta correria, relaxamos e aproveitamos para conhecer o
Canal do Panamá na sua maior eclusa que é conhecida como
Gatun e que fica ao lado de Colon. É uma obra de engenharia fantástica
e que leva o navio do Pacífico ao Atlântico e vice versa,
passando por um lago que fica a 26 metros acima do nível do mar.
É possível ver filas de navios de carga e passageiros, esperando
para passar pelo canal. Só como curiosidade: a tarifa média
que cada navio paga é de 45 mil dólares. O recorde foi de
um navio de cargas que pagou 185 mil dólares. Isto que é
pedágio caro! Quando chegamos no canal estava passando um navio
inglês de passageiros e do ponto de observação que
estávamos era possível conversar com os que estavam a bordo.
O navio passa lento e a mais ou menos 7 metros deste ponto de observação.
Era hora, enfim, de seguir viagem. Saímos da Cidade do Panamá
em direção a Costa Rica, ainda pela rodovia Panamericana,
que por lá também é conhecida como Interamericana.
A paisagem é muito bonita. A estrada é estreita e margeada
por mata com flores e frutas, o que dá um colorido muito bonito.
Atravessando a fronteira da Costa Rica o visual continua lindo... Deixamos
a Panamericana e optamos, por indicação dos funcionários
da fronteira, por uma estrada chamada Costaneira que vai margeando o Pacífico.
O mar, algumas vezes, fica a poucos metros da estrada e é só
escolher uma pequena entrada, parar o carro e mergulhar. Fomos conhecendo
as praias até chegar em Manuel Antonio, que é uma praia
bem charmosa onde resolvemos ficar. Ela está num Parque Nacional
com o mesmo nome e é repleta de hotéis, pousadas, restaurantes,
bares. Conhecer o parque é uma ótima opção,
inclusive porque ele tem suas próprias praias. Depois de um merecido
descanso, seguimos para San José.
Já era idéia uma parada "técnica" na capital
para fazer uma revisão no carro e coincidentemente chegando à
cidade o carro apresentou um pequeno problema que foi facilmente resolvido
pela concessionária Land Rover que nos recebeu muito bem e com
muita curiosidade sobre a viagem. Conhecemos algumas pessoas simpáticas
e inclusive uma pessoa que já havia morado no Brasil. O serviço
foi rápido e honesto. Lá também tivemos uma informação
que nos deixou um pouco preocupados. A Costa Rica e a Nicarágua
têm um problema comercial e a marca Land Rover não pode entrar
na Nicarágua. E este era nosso próximo destino depois da
Costa Rica. Ligamos para a Embaixada da Nicarágua e apesar deles
saberem da existência deste problema não sabiam se poderíamos
ou não cruzar o país. Deram o telefone do chefe da aduana
da fronteira por onde entraríamos. Ligamos e ele nos disse que
realmente a informação estava correta, mas que seria possível
cruzarmos o país num único dia acompanhados por uma pessoa
da aduana, pagando uma taxa, é claro! Pânico total!!! Viajar
com alguém desconhecido dentro do carro era um problema para nós,
mesmo porque o carro só tem 2 bancos, já que a parte de
trás foi toda modificada... Argumentamos com ele sobre a falta
de espaço no carro, e ele educadamente nos disse que "ordens
são para serem cumpridas", ou seja, "ou o acompanhante
vai junto ou vocês não entram". Esta era a resposta
e ordens são ordens. Resolvemos então parar um pouco, absorver
a idéia e esperar pela 2a. feira seguinte que sabíamos que
o "chefe" estaria trabalhando. Aproveitamos para ir para Tamarindo,
uma praia ao norte, próxima da fronteira e lá passar o fim
de semana... Deu para descansar mais um pouco e curtir mais aquela vida
boa costarriquenha. Esquecemos temporariamente o problema e relaxamos,
afinal não dá para sofrer por antecipação.
Na Costa Rica quando se cumprimenta uma pessoa, eles respondem: "pura
vida". Esta é uma expressão que representa bem o modo
como eles encaram a vida. Este é um país que aboliu o exército
e que o índice de criminalidade é baixo. O povo é
muito politizado e tem eleições livres há bastante
tempo. Fora isto o sol, as praias, enfim, a beleza natural do país
é deslumbrante. Este é um país que pretendemos, quando
voltarmos, explorar com mais calma, percorrendo também a Costa
Atlântica. O único problema que aqui como grande parte da
América Central, é uma região sujeita a abalos sísmicos,
mas isto não tira o bom humor e a alegria desta gente.
Já era hora de partir desta "pura vida" e enfrentar nosso
problema com relação à entrada na Nicarágua,
por isso partimos de Tamarindo bem cedo em direção à
fronteira que abria às 8 horas da manhã. Neste horário
já estávamos lá, mas também estavam muitos
ônibus, caminhões, micro ônibus e vans carregadas de
mercadorias que os comerciantes nicaraguenses buscam na Costa Rica e Panamá
para vender na Nicarágua. Tudo aquilo tinha que ser revisados pelos
inspetores para cruzar para o outro lado... E nós também
precisávamos passar por todos os trâmites e tentar resolver
a nossa situação de entrada do carro. Nossa sorte foi ter
ligado para o chefe da aduana e com isto tínhamos a quem recorrer
nesta hora, caso contrário não saberíamos o que fazer...
A imigração foi fácil mas depois disto, na aduana,
foi difícil saber por onde começar, por onde passar, quem
procurar, acreditamos que nem eles sabem... Acreditem, cumprimos 15 procedimentos
, sem contar o vai e volta mais de uma vez nos guichês, correndo
atrás dos inspetores, pagando taxa, pegando carimbo, assinaturas...
Apesar de ter ficado igual duas baratas tontas por 4 horas nós
conseguimos finalizar todo o processo. Ficamos então sabendo o
que significava um funcionário da aduana nos acompanhar. Na verdade
estávamos sob custódia. Este funcionário era nosso
salvo conduto e garantia que sairíamos do país antes do
final da tarde. Com isto, é claro, que o assento da frente foi
"gentilmente" cedido para ele... Ele levava a documentação
do carro até a fronteira com Honduras para provar que realmente
deixaríamos o país. Quanta burocracia! Que falta faz a informatização
nesta hora... Não foi nada agradável ficar sob custódia
e ter que sair do país no mesmo dia. Nestas muitas horas de viagem
fizemos greve de fome, o que afetou diretamente o agente aduaneiro, pois
não podíamos perder muito tempo parando para comer, porque
tínhamos hora de chegar do outro lado, já que sabíamos
que a fronteira de Honduras fechava no final da tarde. A única
concessão foi uma parada de 5 minutos, num posto de gasolina para
ir ao banheiro (lá não tinha nem uma bala para comprar).
Enfim, chegamos na fronteira e enfrentamos outra burocracia com mais uma
série de carimbos e idas e vindas à guichês, à
polícia, etc antes de seguir para a aduana de Honduras. Eram 5
da tarde quando começamos a fazer os trâmites para entrar
em Honduras. No meio do processo, que é um pouco lento, os funcionários
começaram a sumir. Outro susto! Pensamos que teríamos que
dormir ali mesmo. Depois de algum tempo descobrimos que a fronteira fecha
para o jantar só reabrindo não sabíamos que hora...
Não tinha outro jeito a não ser aguardar, pacientemente
e com fome, até a volta do revisor, do xerox, do administrador,
do caixa. Já era noite e continuávamos por lá esperando
o revisor, o xerox, o administrador, agora espantando um bêbado
que enchia nosso saco, um cachorro que queria brincadeira... Depois que
todos voltaram e conseguimos finalizar o processo decidimos parar em Choluteca,
uma cidade a 40 kms da fronteira pois as estradas não são
boas, a sinalização não existe, muitos animais cruzam
a pista e existem muitos desvios que a noite fica mais difícil
de entender.
A Nicarágua e Honduras são os países mais pobres
da América Central, mas o turismo tem crescido nos últimos
tempos. Além disto são países muito castigados pela
guerra e que ainda sofrem as consequências do furacão Misty
que arrasou com a região. A Nicarágua, por exemplo, tem
estradas e pontes sendo reconstruídas com doações
feitas pelo Japão. Apesar de tudo isto é um região
muito bonita de se ver, com floresta tropical, praias tanto no Pacífico
quanto no Caribe, montanhas, vulcões e lagos. Também tem
um povo simpático o que na volta nos estimula uma parada maior,
pelo menos em Honduras, pois já fomos informados que este problema
com a Land Rover é antigo e que não tende a ser solucionado
tão rapidamente. Tudo bem porque agora não temos mais motivos
de ficar assustados pois sabemos dos procedimentos para cruzarmos o país
de volta.
De Choluteca fomos para Santa Rosa de Copan, próximo a fronteira
com a Guatemala. Resolvemos dormir nesta cidade já que era final
de tarde e não queríamos repetir a experiência de
chegar na fronteira no início da noite. A fronteira com a Guatemala
é mais organizada e os trâmites foram rápidos. Já
na Guatemala seguimos direto para a cidade de Guatemala Antigua, porque
a capital é muito grande, poluída e com um trânsito
caótico. Guatemala Antigua é um acidade agradável,
bonita, cercada de vulcões e com uma arquitetura colonial impressionante.
Ela já foi destruída algumas vezes por terremotos e sofre
pequenos abalos sísmicos durante todo o ano. Tem muitos bares,
hotéis, restaurantes e turistas do mundo inteiro. É um lugar
inesquecível e impressionante ao mesmo tempo porque apesar de tão
bonita sempre está sob perigo de destruição.
Aqui finalizamos nossa etapa da América Central, já que
a fronteira com o México não está muito longe. Só
para filosofar um pouco, na verdade aprendemos que existem duas realidades:
a primeira é aquela que a gente aprende ouvindo ou lendo sobre
a experiência de outros e a segunda é aquela que a gente
vivencia. A América Central, sempre foi para nós uma região
pobre, assolada por guerras, corrupção, ditadores, uma verdadeira
república das bananas. Agora estando aqui descobrimos um outro
lado. Vimos uma região bonita, povo fácil de conviver, amigável
e alegre, paisagens exuberantes, de grandes contrastes e difícil
de esquecer.
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