4a etapa
Equador
Quinta feira, 29 de março. Por pelo menos uma semana
tivemos que ouvir muitas gozações sobre a derrota do Brasil...
Eram os policiais que nos paravam para checar documentação,
atendentes de hotéis e lojas... todos enchiam nosso saco quando
nos viam no carro com bandeira do Brasil ou quando em conversa descobriam
que éramos brasileiros. Nós também aderimos a brincadeira
porque às vezes isto era um bom motivo para ter alguma informação,
começar uma conversa ou esclarecer alguma dúvida. É
impressionante como os equatorianos são fanáticos com futebol.
Não importa se o jogo é do Equador ou não, todos
os jogos são transmitidos pela TV e com muita audiência nos
restaurantes, bares e nas televisões à venda nas lojas.
Vimos a reprise do gol contra o Brasil centenas de vezes, de manhã,
à tarde, à noite, pela TV, rádio, jornais... No final
não aguentávamos mais ouvir "gol, gol, gol...."
(pronuncia-se "goullo")
A primeira parada no Equador foi em Machala. Ficamos pouco tempo mas o
suficiente para conhecermos o dono de um lava-rápido que deu uma
"geral" no carro sem cobrar nada e ainda indicou um amigo na
Costa Rica que deveremos procurar. É um cara bem legal e ficou
muito entusiasmado com a nossa viagem. Foi uma bela demonstração
de boas vindas. O que mais nos impressionou nesta cidade foi: duas horas
depois do jogo com o Brasil já havia uma edição do
jornal local com a Manchete: "Ganhamos do Brasil. Mudamos a história".
Bem próximo de Machala fica Puerto Bolívar, um porto internacional,
por isto achamos que não custava nada dar uma olhadinha sobre o
embarque do carro até o Panamá. Fomos informados depois
de muito bem recebidos pelos agentes da Capitania dos Portos, que somente
em Guayaquil poderíamos fazer o embarque. Não sabíamos
até então o que nos esperava pela frente...
Guayaquil não é exatamente a cidade que gostaríamos
de ficar por muito tempo mas não tinha como fugir disto porque
o processo e trâmites de aduana e embarque são longos e muito
complicados demandando tempo. Vocês podem imaginar nossa situação,
sem conhecer ninguém por aqui tivemos que fazer uma pesquisa das
empresas navegadores que fazem o transporte até o Panamá,
depois o contato com um despachante aduaneiro e em seguida o vai e volta
ao porto, assinaturas de documentos, xerox, pagamento de taxas, etc, etc...
Ainda bem que aqui também fomos bem recebidos na Capitania dos
Portos que nos indicou algumas destas empresas. Infelizmente ainda assim
depois ficamos sabendo de algumas falcatruas e "tabelas para estrangeiros",
que algumas vezes tivemos que enfrentar.
Acertamos o frete com uma das grandes empresas navegadoras (P&O Nedlloyd)
e depois de tudo pronto, ouvimos através do despachante aduaneiro
que o carro não embarcaria no dia combinado, pois simplesmente
a empresa não tinha reservado o espaço. Lógico que
amanhecemos no escritório e tivemos uma bela discussão em
"portunhol" mas não adiantou nada. Depois do erro cometido
não conseguiram resolver coisa alguma ou não quiseram. Tivemos
que começar quase do zero, procurando uma nova empresa que tivesse
condição de embarcar o carro numa data próxima, senão
no mesmo navio que havíamos acertado com a empresa "furona".
Depois de resolvido fomos conhecer alguns lugares por aqui enquanto o
carro chegava ao Panamá, afinal de contas a cidade do Panamá
também é grande e nada segura segundo informações.
Já não seria mais possível ir a Quito que era nosso
plano original, por isso fomos conhecer Cuenca e arredores. O nosso vôo
para o Panamá inclusive sairia de Quito; com estes acontecimentos
foi necessário cancelar nossa reserva de avião e providenciar
outra companhia que pudesse nos atender na data que precisaríamos
embarcar e saindo de Guayaquil, o que nos custou mais dinheiro.
O Equador está passando por uma difícil situação,
já que no ano passado houve a dolarização da economia
e sua antiga moeda, o Sucre, deixou de existir. A conversão foi
de 25.000 Sucres para 1 dólar. Com isso houve um empobrecimento
geral e, consequentemente, um aumento significativo da violência
urbana, com muitos assaltos e roubos. Guayaquil é uma cidade grande
e com todos os problemas que isto acarreta. Existe, como em qualquer lugar,
um agitado centro comercial, luxuosos escritórios em prédios
modernos e muita gente circulando. A periferia e o subúrbio se
assemelha ao Brasil, assim como os condomínios luxuosos com grandes
casas que ficam numa região que se chama La Puntilla, bem distante
do centro da cidade. Este contraste vem gerar os problemas sociais que
nós conhecemos tão bem. Com tudo isto, fomos intensamente
avisados sobre os perigos da cidade, não sabemos realmente se a
cidade é tão perigosa assim mas não pagamos para
ver. Exagero ou não preferimos não arriscar. É impressionante
ver nos shoppings (inclusive dentro), nos hotéis, estacionamentos,
lanchonetes, ou seja todos os lugares públicos, os guardas de vigilância
armados com metralhadoras e escopetas durante todo o tempo. Algumas pessoas
nos disseram que 4 anos atrás a situação era muito
pior e que agora Guayaquil é outra cidade, bem melhor (imaginem
antes). Diante de tudo isto optamos por um hotel distante do centro evitando
uma maior exposição do carro, embora isso não tenha
nos privado de andar para todos os lados da cidade tanto de carro como
de taxi, que é uma modo fácil e não muito caro. O
problema é ter que ficar negociando com os motoristas, principalmente
se tratando de gringos. Com o tempo aprendemos a lidar com esta situação
e finalmente não conseguiram mais nos passar para trás.
O trânsito em Guayaquil é caótico e sem aviso nenhum
os carros e os pedestres cruzam à sua frente. A buzina é
acessório fundamental e faz parte do modo de dirigir. Os guardas
de trânsito são verdadeiros heróis ou kamicazes, porque
ficam no meio dos cruzamentos, sem nenhuma proteção, organizando
o trânsito. Durante o tempo que estivemos por aqui não vimos
nenhum guarda atropelado, mas não é possível que
alguns não sejam pegos nem que seja de raspão porque eles
ficam se esquivando dos carros que passam a toda velocidade. É
engraçado ver a performance deles diante da situação.
Já que nossa permanência em Guayaquil teria que ser longa,
no primeiro fim de semana fomos a uma cidade de praia distante 150 quilômetros
chamada Salinas. É o Guarujá dos equatorianos. Existem muitos
prédios suntuosos que nos disseram que ficam cheios somente nos
fins de semana. A cidade tem uma grande estrutura turística e possui
uma certa vida própria com bancos, escolas, etc. O sol é
super quente não sendo necessário ficar exposto a ele. Adquirimos
um belo bronzeado só de ficar na sombra da barraca de praia. Aproveitamos
para apreciarmos o "ceviche", que é um prato típico
e outros mariscos e pescados que aqui existem em grande quantidade. Sem
contar a cerveja geladíssima.
Por incrível que pareça, fazer uma viagem como esta requer
além de muito bom humor, uma grande dose de paciência e trabalho.
Chega uma hora que é necessário cumprir horários
rigorosos se quisermos alcançar nossa meta. Quando pensamos em
viajar achávamos que a rotina seria esquecida, no entanto percebemos
que não é bem assim... Temos que ter horário, trabalhamos
e quando dá descansamos nos fins de semana. Mas de qualquer forma
é uma rotina muito prazerosa.
Voltamos para Guayaquil e finalmente chegou a hora de embarcar o carro,
fomos cedo para o Porto e quando lá chegamos tivemos a primeira
surpresa. O despachante disse que teríamos que pagar um valor a
mais para que o carro fosse vistoriado. Esbravejamos e falamos que só
pagaríamos com recibo da aduana. Lógico que tudo isto era
mais uma tentativa de golpe para nos tirar mais grana e o assunto morreu
por aí, sem o pagamento. O container finalmente foi liberado depois
de uma hora e meia de espera e o carro estava pronto para ser embarcado
quando veio a segunda surpresa do dia. Era necessário amarrar o
carro dentro do container como medida de segurança para que ele
não ficasse jogando de um lado para o outro. Desta vez não
teve como fugir, tivemos que pagar pelo trabalho da "quadrilha"
do porto. Nós já sabíamos que isto é prática
comum e se não pagar o prejuízo pode ser bem maior. O nome
"quadrilha" é usado por eles e não existe nome
mais adequado para definir estes "trabalhadores"...
Enfim, um pouco de sossego antes de enfrentar mais uma batalha para retirar
o carro no Panamá. Fomos para Cuenca, que é a terceira maior
cidade do Equador, mas nem de longe se aproxima em tamanho de Guayaquil
e Quito. A viagem para lá foi muito interessante e com belas paisagens.
A estrada estava um pouco "malograda" por causa das chuvas,
mas o ônibus, heroicamente, passou sem maiores problemas. Compramos
passagens numa empresa de ônibus que oferecia ar condicionado, televisão
a bordo e música ambiente. A televisão era a paisagem que
passava diante dos nossos olhos pela janela. O ar condicionado eram as
janelas abertas e a música ambiente era o radio do ônibus
sintonizado numa estação de rádio, que nem sempre
pegava, mas que tocava uma música muito alta, misturada com o barulho
do ônibus e do vento. Mas isso faz parte da história e nos
divertimos, não perdendo o bom humor.
A chegada na cidade foi uma surpresa muito agradável, pois ela
é muito bonita com arquitetura colonial, muitas igrejas, grandes
praças e culturalmente muito ativa. Cuenca está a 2.500
metros de altitude e fica num bonito vale, cercado de altas montanhas
andinas, com muito verde. A temperatura varia de 8 a 20 graus e com isso
fica muito agradável caminhar por suas ruas. Ela é considerada
Patrimônio Cultural da Humanidade. Demos sorte de estarmos por lá
exatamente numa época dos festejos da fundação da
cidade e uma semana antes da Semana Santa, com isto pudemos ver os preparativos
com as índias tecendo na rua enormes ramos de palmeiras, fazendo
diversos enfeites trançados para o domingo de ramos.
Fora do centro histórico da cidade, existe uma parte moderna e
muito ativa. Segundo pesquisa do governo equatoriano, Cuenca é
a cidade mais cara do país e isso se deve ao grande número
de habitantes que emigraram para os Estados Unidos e Espanha. Esses emigrantes
enviam muitos dólares para Cuenca e isso aumenta o custo de vida,
já que circula mais dinheiro.
No Equador existem vários povos indígenas e em Cuenca pode-se
ver, entre outros, os Otavalos, que vem do norte, os Saraguros e Cañarejos.
Eles se diferenciam principalmente pelas roupas e adereços. Os
homens Saraguros, por exemplo, usam calças mais curtas, parecendo
bermudões, rabo de cavalo no cabelo e um chapéu preto. Já
as mulheres Otavalos usam vestidos longos, camisas brancas e muitos colares
dourados no pescoço. As cañarejas usam roupas bem coloridas,
saias rodadas, chapéu e um xale nos ombros. O mais interessante
é como as crianças são carregadas, de modo geral
as índias as amarram às costas com um grande lenço
e trabalham normalmente. Estes povos indígenas além do espanhol
têm como língua de origem o quechua (pronuncia-se quichua),
com pequenas variações entre cada povo.
O Domingo de Ramos foi muito bonito e a catedral da cidade, que dizem
ser a maior das Américas, fica lotada todo o tempo. Foi interessante
ver os vários povos indígenas, mestiços e brancos,
juntos, agitando seus ramos dentro da catedral e rezando fervorosamente.
Na segunda feira ainda em Cuenca, resolvemos ligar para a CSAV, empresa
navegadora que contratamos e veio outra surpresa, o carro não tinha
sido embarcado na data prevista e tivemos outra discussão com esta
segunda empresa. Voltamos para Guayaquil para resolver a situação
e a desculpa desta vez foi "problemas de calado", ou seja o
rio não estava cheio suficiente para permitir a entrada do navio
no porto e nenhuma carga foi embarcada. Agora tínhamos alguns problemas:
nosso vôo já estava marcado e o bilhete emitido, no passaporte
a aduana já tinha colocado o nome do navio que o carro estaria
sendo transportado e deixar o carro no porto com todas as nossas coisas
era um problema, porque os containers são constantemente violados.
Nossa primeira providência foi tentar falar com o consulado brasileiro
para saber exatamente o que fazer. No consulado disseram que não
sabiam e sugeriram que ligássemos para a Embaixada em Quito. Quem
nos atendeu na Embaixada não foi brasileiro e não sabia
o que fazer também, pediu que falássemos no consulado do
Panamá. Como já conhecíamos o cônsul panamenho
em Guayaquil, que morou muito tempo no Brasil, ligamos para obter as informações.
Foi ele que anteriormente havia nos informado da necessidade de visto
de entrada para aquele país, informação que coincidia
com a que tínhamos conseguido num site de um jornal brasileiro.
Fizemos novamente o contato e ele muito solícito nos deu algumas
informações adicionais. Deveríamos "consularizar"
toda a documentação de embarque do carro, é claro
mediante mais uma taxa. Já tínhamos ouvido dizer que precisar
de Consulado ou Embaixada do Brasil em qualquer lugar é um problema
e realmente a única vez que precisamos não nos ajudou em
nada.
As coisas vinham se acertando novamente pois conseguimos trocar a passagem
sem nenhum custo adicional. Na companhia navegadora pedimos que checassem
o lacre do container e parecia estar tudo bem, só que por incrível
que pareça eles não se responsabilizam por nada se por acaso
alguma violação acontecer. A chefe da exportação
da empresa somente pediu que colocassem um container junto ao nosso, evitando
que alguém mexesse. O negócio é rezar para que ninguém
resolva ver o que tem dentro do container.
Como não adiantava nada ficar em Guayaquil e como é uma
cidade sem nenhum atrativo e que já conhecíamos absolutamente
tudo, resolvemos então conhecer Quito. Pelo menos isto nos distrairia
deste problema. Foram oito horas de ônibus mas vale a pena porque
parte da viagem é feita por entre as montanhas, no meio de uma
floresta incrivelmente maravilhosa, só sentimos muita falta do
carro... teria sido muito melhor poder parar para apreciar.
Chegar em Quito foi muito bom, porque ficamos num lugar muito legal, com
muitos turistas, bares, restaurantes, uma verdadeira festa e mais... um
lugar onde se pode andar e voltar a pé a noite para o hotel.
Quito é uma cidade muito bonita. Já na entrada podemos avistá-la
num vale, situado a 2.850 metros. O verde predomina e as casas e prédios
são construídas morro acima. Existe uma parte colonial muito
antiga, com o casario bem preservado. Suas ruas estreitas e ladeiras predominam
nesta parte lembrando Ouro Preto e fazendo jus ao título de Patrimônio
Histórico da Humanidade. O outro lado da cidade é moderno
com grandes avenidas, prédios e casas luxuosas.
Visitamos dois lugares interessantes próximos a Quito. Otavalo
que fica uns 100 quilômetros ao norte e é uma cidade de um
povo indígena do mesmo nome. É a maior concentração
deste povo em todo o Equador. No sábado esta pequena cidade se
transforma numa grande feira, com artesanato, roupas, tapetes, enfeites
e também uma parte de frutas, verduras e legumes da região.
É muito bonito ver o colorido desta feira e a quantidade de gente
que circula por lá, incluindo, é claro, gringos de todos
os lugares. O outro lugar foi a Metade do Mundo é onde passa a
linha do Equador, a 22 quilômetros de Quito. Lá colocamos
literalmente um pé no norte e outro no sul do mundo.
Ter que ficar no Equador além do previsto por conta do atraso do
embarque do carro a princípio foi uma chateação mas
foi compensado pela visita a Quito e região onde pudemos conhecer
um lado muito bonito do país.
Aproveitando o tempo que nos restava em Quito resolvemos acertar uma parte
burocrática da viagem que são os vistos para alguns países
da América Central. Fomos às Embaixadas da Nicarágua
e Honduras e aproveitamos para ver o que conseguiríamos adiantar
para a "consularização" da documentação
do carro. Fomos muito em recebidos na Embaixada do Panamá e mais
uma surpresa: não precisaríamos fazer absolutamente nada
com os documentos do carro e também que, como brasileiros, não
precisaríamos do visto, que já havia sido concedido em Guayaquil,
tudo mediante taxas, é claro.
A viagem de Quito para Guayaquil foi boa mas o mais incrível é
que desta vez sentimos um certo alívio por chegar em Guayaquil.
Primeiro, chegamos inteiros. Não existe limite de velocidade para
os ônibus, não existe a preocupação de procurar
o melhor lugar de ultrapassagem, dentro do ônibus vai galinha e
cachorro (de verdade), toda hora entram vendedores ambulantes, em 8 horas
de viagem não existe parada, e o banheiro do ônibus... Segundo,
a empresa navegadora nos informou que o carro embarcou e chegaria no Panamá
na data prevista. E finalmente poderemos, depois de 20 dias continuar
nossa viagem rumo ao Alaska. Ufa!!!
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