 |
 |
3a etapa
Saindo de Atacama e atravessando o Peru
Domingo, 19 de março. Deixar o Deserto do Atacama para trás
significou mais do que simplesmente sair de uma situação
de deserto e partir para o oceano Pacífico. O Hostal que ficamos
era de uma nativa do deserto, muito simpática que nos deixou bem
à vontade. Todos os dias tomávamos o café da manhã
na cozinha junto com sua prima de Socaire que estava trabalhando por lá
há pouco e com sua sobrinha, uma menina de um ano e seis meses
que dominou facilmente o "portunhol". Quando partimos levamos
como recordação uma foto que guardaremos de lembrança.
A menina queria de qualquer forma vir conosco... Na saída uma surpresa:
ganhamos um "regalo", uma lhama de pano para não esquecermos
mais delas. Com certeza, jamais nos esqueceremos... Despedir é
muito chato mas será assim o tempo todo que estivermos viajando
e teremos que nos acostumar. De San Pedro de Atacama fomos em direção
à Iquique. A viagem foi tranquila e encontramos algumas pessoas
pelo caminho. Primeiro uma família francesa que estava viajando
há seis meses e depois quatro brasileiros, de São Paulo,
que iam surfar na costa peruana. Chegando a Iquique foi hora de colocar
"a casa em ordem". Tivemos que trocar um pequeno rolamento do
motor do carro e isso nos fez gastar um dia inteiro. Era consequência
das péssimas condições das estradas, com barro e
a areia muito fina. No dia seguinte foi um merecido dia de descanso com
direito a praia.
A curiosidade das pessoas não nos deixa ficar sozinhos porque elas
se aproximam e perguntam sobre a viagem, o Brasil, etc. Um dia estávamos
no hotel em Iquique quando nos chamaram dizendo que tinha uma pessoa querendo
falar conosco. Levamos um susto mas era somente um chileno que tinha morado
no Brasil. Ele viu nosso carro na frente do hotel e assim quis matar a
saudade do Brasil. Também no dia que chegamos um brasileiro ao
ver o carro na porta nos procurou para conversar. Fora isto no posto de
gasolina, na rua, na praia, em qualquer lugar as pessoas querem conversar.
Antes de sair do Chile resolvemos fazer uma parada em Arica, última
cidade chilena a 20 quilômetros da fronteira com o Peru onde achamos
um ótimo camping, com uma grande noite para descansar e com direito
a um arroz com feijão brasileiro para jantar, regado por um ótimo
vinho chileno, é claro. Na manhã seguinte atravessamos a
fronteira do Peru bem cedo e os trâmites foram muitos. Começamos
a viajar em estradas peruanas, mas ainda no deserto. A estrada é
perigosíssima com muitas curvas e canyons enormes onde podíamos
ver as carcaças dos carros no fundo dos desfiladeiros. A quantidade
de cruzes na estrada é enorme e as pessoas colocam pedaços
dos carros acidentados, como calotas, pneus, pedaços de pára-lama,
etc.
Com muita calma e cuidado chegamos a Arequipa, cidade que já conhecíamos
de outra viagem feita ao Peru. Foi bom rever os locais que estivemos há
14 anos atrás, mas não conseguimos encontrar o hotel que
ficamos e que pretendíamos ficar. Quando estivemos aqui o presidente
era o Alan Garcia e por coincidência assistimos o seu comício
político já que agora ele é candidato à presidência.
Pelo que percebemos suas promessas já não convencem mais.
Apesar disto tinha uma verdadeira multidão assistindo aos shows
e depois ao seu discurso. Era uma verdadeira festa!
No dia seguinte cedo fomos em direção a Nazca e para nossa
surpresa: ficamos parados mais uma vez na rodovia por mais ou menos duas
horas esperando passar uma manifestação de camponeses. Eram
muitos trabalhadores rurais que vinham em passeata tomando toda a estrada.
Em Nazca a idéia era ver os famosos desenhos feitos no solo do
deserto e que formam diversas figuras como: mãos, árvore,
lagarto, aranha, etc. A cidade parece uma coisa de louco porque tem música
alta em quase todas as lojas com diversos ritmos e um alto falante numa
torre central com o volume muito alto e uma música irritante. Isto
sem contar a televisão pública que fica no meio da praça
e com todos os carros buzinando não sabemos para quem ou para que.
Saindo de Nazca em direção a Pisco, vimos algumas figuras.
O ideal é vê-las de avião porque são muito
grandes mas nos contentamos em ver algumas a partir de um mirante. Seguimos
para Pisco mas paramos 15 quilômetros antes, em Paracas, onde existe
um parque nacional que se pode apreciar lobos marinhos, condor, formações
geológicas muito interessantes como a que se parece com uma Catedral.
Resolvemos ficar o final de semana por lá para melhor conhecer
o parque, as ilhas Balestas e curtir um pouco de praia. Foi mais um merecido
descanso. Descobrimos que Paracas é um dos paraísos dos
milionários peruanos. Um pescador, que já havia morado também
no Brasil, contou que ali existem casas de verão de políticos
e empresários. É uma região muito bonita com o deserto
e o mar se encontrando. Além das belezas naturais o museu pode
ser visitado e mostra um pouco da cultura Paraca.
Antes de chegar em Paracas entramos numa cidade que se chama Ica, para
conhecê-la e o que vimos foi um lugar muito parecido com algumas
cidades da Índia. Era empoeirada, com muita gente na rua andando
a pé, com trânsito caótico e muitos "riquichás"
que viram para onde querem sem sinalizarem e obviamente buzinando a toda
hora. É uma cidade produtora de uvas que inacreditavelmente são
plantadas em pleno deserto, na areia irrigada formando campos verdes imensos.
Partindo de Paracas o destino foi Trujillo. São pelo menos mais
1000 quilômetros. Nesta viagem privilegiamos conhecer a costa peruana
porque já conhecemos Cuzco e Puno que ficam na região mais
central. Nos informamos sobre a possibilidade de voltar a Cuzco mas teríamos
que ir por Arequipa retornando também por lá o que aumentaria
muito nossa viagem.
A saída de Paracas teria sido normal se não fosse mais uma
manifestação de trabalhadores rurais com bloqueio de estrada...
Não queríamos acreditar, parecia brincadeira, de novo não...
Era o 4º bloqueio... Só que desta vez quando a polícia
informou sobre o protesto estávamos decididos a furar esse bloqueio
de qualquer jeito. Resolvemos, por orientação deles, seguir
por uma estrada vicinal junto com uns 10 carros mais ou menos que como
nós não estavam dispostos a ficar parado esperando até
o meio dia; eram 8 horas da manhã e nossa viagem seria muito longa
e com poucas cidades com estrutura para passarmos a noite. Mais parecia
um rally porque fomos avisados que a ponte que dava saída para
a estrada Panamericana seria bloqueada. Fomos feito loucos pela estrada
entre plantações de algodão e cana, encontrando outros
carros vindo na mão contrária. Não dá para
saber até agora como dois carros conseguiam cruzar naquela estrada
que as vezes mal cabia um carro. Quando chegamos na tal ponte o problema
era que estava caindo. Eles estavam selecionando quais carros poderiam
passar por ali e o nosso carro era pesado para passar. Depois de negociar
conseguimos chegar à estrada principal novamente. Tempos depois
estávamos atravessando a caótica Lima. O trânsito
é completamente louco. Todos buzinando e se espremendo para passar.
Enfim, conseguimos passar por mais essa com direito a um prêmio:
almoçar no McDonalds. Achar um fast food não quer dizer
que estamos comendo mal, pelo contrário, por aqui os frutos do
mar, peixe e frango podem ser encontrado em larga escala e são
de ótima qualidade, mas às vezes sentimos falta é
de organização mesmo, e o McDonald nos remete a esta "organização",
mesmo que só pelo tempo de um lanche. Com todos os contratempos
não conseguimos chegar a Trujillo e resolvemos dormir em Casma,
uma cidade pequena mas bem legal que fica numa região onde se pode
apreciar a cultura Chimu. No hotel que ficamos tinha televisão
no quarto e surpresa: pegava a Band, Globo e Record.....
Partimos cedo no dia seguinte para o norte. Paramos em Piúra e
ficamos num hostal também muito legal com direito ao melhor apartamento
por um preço bem baixo. Os donos do hostal queriam saber da viagem,
do Brasil, de nós e com isso nos deixou bem a vontade. Ele um engenheiro
e ela uma economista estavam bem familiarizados com assuntos referentes
ao Brasil. Foi bom estar ali e conhecê-los. De lá estávamos
dispostos a cruzar a fronteira do Equador. As imagens que vimos pela televisão
não eram muito animadoras porque a chuva realmente estava castigando
a região; é o resultado do efeito "El Niño".
Muitas pontes caíram, inclusive ao sul de Piúra onde passamos
no dia anterior. O rio que cruza a fronteira do Equador também
estava bem cheio.
As estradas ficaram muito danificadas e em alguns pontos era necessário
esperar o trator passar para tirar a lama. As cidades ficaram alagadas.
Pelo que deu para perceber fenômenos como este já são
constantes porque existem alguns desvios que foram construídos
a mais tempo.
Apesar de tudo conseguimos seguir caminho e quanto mais fomos em direção
ao Equador mais mudava a paisagem. Piúra foi o marco dessa transição
da paisagem. O deserto deu lugar ao verde e os arrozais, bananeiras e
coqueiros iam tomando conta do cenário. Algumas vezes lembrava
o nordeste do Brasil, só que com o mar à nossa esquerda.
O calor o tempo todo é insuportável, mas agora ficou muito
úmido. Estamos na mesma linha de Manaus.
Finalmente conseguimos vencer mais esta etapa e cruzamos o Peru de sul
a norte. O que vimos foi muito contraste e um país diferente de
quando aqui estivemos. Não sabemos se a mudança é
em função do tempo que estivemos aqui ou se porque resolvemos
agora conhecer a parte litorânea.
Viajamos até agora 10.000 quilômetros e finalmente entramos
no Equador. Atravessamos a fronteira que mais parece a fronteira de Ciudad
del Leste em tamanho menor mas com o mesmo volume de gente circulando.
Fizemos os trâmites que são sempre muito burocráticos
e fomos para Machala, uma cidade a 60 quilômetros da fronteira.
Chegamos na hora do jogo do Brasil x Equador e exatamente na hora do gol
do Equador. Vocês podem imaginar: um carro do Brasil todo enfeitado
com bandeiras por todos os lados e uma bem acima da altura do carro, presa
a uma antena, voando para que todos nos identifiquem como brasileiros,
entrando numa cidade que comemorava não só o gol mas a vitória
sobre o "tetracampeão mundial"... O resultado foi um
"buzinaço" atrás de nós....Pois é,
tivemos que pagar
|
 |
 |
 |
 |