Chapada
Diamantina
Há
muito tempo queríamos conhecer o interior da Bahia,
mais especificamente a Chapada Diamantina. Já havíamos
lido bastante a respeito desta região e alguns
amigos que tinham viajado para lá falavam muito bem
das belezas naturais, cachoeiras, montanhas e
trilhas.
Resolvemos, então, que nas férias de janeiro de
1997 iríamos para lá. Fizemos um levantamento das
estradas vicinais que poderíamos percorrer, e que não
eram muitas, preparamos o carro (nosso bom Land
Rover) e saímos dispostos a conhecer a Chapada
passando por lugares onde, normalmente, os
visitantes evitam. Nossa idéia era descobrir novos
caminhos, usar trilhas pouco conhecidas e saber do
pessoal da região como chegar a determinada cidade
pelos caminhos que eles usavam.
Saímos de
São Paulo no dia 26 de dezembro de 1996 e fomos em
direção a São José do Rio Preto. Esta volta se
justificava por alguns assuntos profissionais
pendentes naquela cidade e que deveriam ser
resolvidos antes de sair de férias. Depois de tudo
resolvido seguimos para Uberaba e na manhã do dia
seguinte fomos para Belo Horizonte. Ali passamos o
Reveillon com a família e aproveitamos para rever
amigos e nos preparamos para a etapa principal da
viagem.
No dia 2
de janeiro de 1997 pegamos o carro bem cedo e saímos
em direção a Brumado, já na Bahia. Tomamos a
decisão de seguir em direção a Montes Claros e
cruzar a divisa de Minhas Gerais e Bahia bem ao
norte. Depois de Guanambi chegamos a Brumado à
noite e procuramos por um hotel. Sem muitas opções,
acabamos por ficar em uma pousada ao lado de um rio.
O quarto tinha até uma pequena varanda e o visual
era bonito, mas como os pernilongos já infestavam o
quarto, sabíamos que abrir a janela seria suicídio.
Com fome e cansados resolvemos procurar por um
restaurante. Péssima idéia. Não achamos nada e
tivemos que voltar para a pousada que oferecia
comida a quilo. Indescritível a falta de qualidade
da comida. Não temos muitas exigências para comer,
mas higiene é primordial. Nosso jantar acabou sendo
um pacote de biscoito doce e uma lata de
refrigerante.
Na manhã
seguinte tomamos nosso café da manhã (água
mineral e mais biscoitos) e iniciamos o verdadeiro
roteiro off-road. Nos informamos com o pessoal da
região sobre as estradas vicinais e fomos para
Andaraí
O município de Andaraí foi habitado pelos
índios Cariris, sendo o nome da cidade derivado da
palavra indígena Andiray (depois transformado em
Andaraí). Outros nomes como Coxó, Orobó, Açuruá,
Igatu, etc, vieram da mesma língua.
A colonização foi efeito do ciclo dos minérios e
seus primeiros habitantes foram o capitão José de
Figueiredo, seus dois filhos, genros e alguns
escravos procedentes de Santa Isabel do Paraguaçu,
atual Mucugê. A corrida em busca de diamantes e
ouro fez de Andaraí um dos locais preferidos pelos
garimpeiros, já que suas pedras afloravam do solo,
tornando mais fácil a tarefa de garimpagem.
No caminho
paramos em Capão da Volta e na cidade de Rio de
Contas. Esta última cidade, com seus 300 anos,
muito bonita e perdida na imensidão da Chapada
Diamantina é o ponto de partida para uma fantástica
viagem a essa região, e que normalmente as pessoas
não conhecem, pois o caminho foge do roteiro
tradicional. Esta bela cidade baiana fica num
altiplano entre abismos de mais de 1000 metros de
altitude e tem sua arquitetura colonial bem
preservada. Seu traçado, com ruas largas e imensas
praças, impressiona. Ela foi a primeira cidade
planejada do Brasil em 1745, na época do apogeu do
ouro. Além da cidade histórica, o município
oferece também dezenas de passeios. Cachoeiras
maravilhosas, rios e vales com uma flora muito rica
e exuberante. Lá também estão os picos mais altos
do nordeste brasileiro, o Pico das Almas, o Pico do
Barbado e o Pico do Itobira.
Nesta
viagem, apesar de levado mapas atualizados, muitas
vezes nos perdíamos no meio de tantas trilhas e
estradinhas e a saída era torcer por achar alguém
para perguntar o melhor caminho. O problema é que,
às vezes, estes transeuntes sabem o caminho, mas não
sabem explicar e muitas referências que eles têm não
significa muito para nós. Outras vezes o caminho
indicado é perfeito para fazer a pé.
Assim
fomos, nos perdendo e nos achando, por estradas que
cortavam canaviais e outras plantações até chegar
a Mucugê. Esta cidade tem diversas casas
abandonadas e um cemitério Bizantino, muito
interessante. No caminho paramos por algum tempo no
Poço Encantado, um lago que fica dentro de uma
caverna e que, de acordo com a incidência da luz
solar torna a água muito azul. É um espetáculo
fantástico.
Finalmente
chegamos a Lençóis. Esta cidade, que está a 425
Km de Salvador (Bahia), é conhecida como o portal
da Chapada Diamantina, pois é a partir dela que os
visitantes atingem o sertão. Fundada em 1845, também foi fruto da riqueza mineral da região.
Seu fundador tentou manter em segredo sua
descoberta, mas foi inútil, pois garimpeiros
descobriram e para lá migraram. Lençóis ainda
preserva suas características arquitetônicas em
estilo colonial. A Matriz Senhora dos Passos, igreja
construída em pedra, paredes e portais lavrados,
ainda conserva imagens barrocas. Além disso, a
pequena cidade tem todo tipo de acomodação, de hotéis
cinco estrelas a camping.
Dentre
todos os lugares da Chapada Diamantina, dois se
destacam – O Morro do Pai Inácio e a Cachoeira da
Fumaça.
Uma lenda
envolve o Morro do Pai Inácio. A história se
passou na época do garimpo. O escravo Pai Inácio
foi seduzido pela esposa de um dos coronéis do
garimpo e teve um caso com a bela portuguesa. O
coronel soube do romance e, acompanhado de seus
capangas, partiu em busca de vingança. Pai Inácio
fugiu a tempo e escondeu-se em cima de um grande
chapadão, um morro de difícil acesso. O fugitivo
permaneceu mais de um mês escondido, até que foi
descoberto pelo coronel e seus ferozes cães de
guarda. Assustado, Pai Inácio pulou do Morro com
uma sombrinha, lembrança da amada, nas mãos.
Muitos dizem que ele morreu, mas os mais otimistas
defendem a idéia de que o escravo escondeu-se em
uma pequena caverna no morro e depois fugiu para bem
longe dali.
A
Cachoeira da Fumaça é um espetáculo único no
mundo pela grandiosidade do cenário. Com 380 metros
de queda livre, ela é a segunda mais alta do mundo,
a primeira sendo o salto Angel na Venezuela. Na
estiagem, de maio a setembro, ela fica com pouca água
e o vento leva de volta as gotinhas formando a
famosa "Fumaça".
A primeira
parte da trilha é bem íngreme, mas aos poucos a
visão panorâmica do lugar compensa o cansaço.
Depois de uma hora de subida chega-se aos gerais,
campos planos que abrigam uma flora riquíssima de
bromélias, orquídeas e cactos. A partir daí a
trilha é plana e com algumas áreas inundadas,
ricas em plantas carnívoras e matas ciliares
repletas de seriemas, perdizes, gaviões e onças.
Mais uma hora de caminhada e chega-se à cachoeira.
O cânion onde corre o rio é cercado por uma densa
mata Atlântica. Após uma grande curva o rio se do
alto da serra até o rio São José e Paraguaçu. As
gotinhas de água da cachoeira da Fumaça terminarão
sua viagem na Bahia de Todos os Santos onde
encontram o mar.
Nossa
visita à Cachoeira foi acompanhada por dois
garotos, 12 anos de idade, moradores da região. Bem
falantes iam nos explicando cada detalhe da trilha e
prometendo que ao final da subida íamos tomar “água
de geladeira”. Ficamos imaginando uma geladeira de
isopor, cheia de gelo e alguém vendendo água
mineral a preços exorbitantes. Nada disso. Ao
chegarmos a uma fenda numa grande rocha, um dos
garotos desceu poucos metros e pegou água de uma
nascente. Era realmente água de geladeira, pois
estava bem fria e no calor que fazia foi uma benção
dos deuses. Outra coisa nos chamou atenção.
Enquanto caminhávamos um dos garotos explicava ao
outro, seu primo, a importância de não deixar lixo
nas trilhas. Enquanto falava guardava em um saco o
lixo que achava pelo caminho. Garrafas plásticas,
tampas e etc, eram todas retiradas dali. Depois nos
falou que na sua escola havia aula onde ensinavam a
importância da preservação ambiental e de como
podemos reciclar o lixo.
Alguns
dias nesta região e conhecemos a Gruta Azul,
Pratinha, Poço do Diabo, muitas montanhas e fizemos
muitas caminhadas. A Chapada Diamantina é muito
grande e o carro se faz necessário, pois as atrações
ficam distantes umas das outras. Nesta época do ano a chuva havia castigado
muito toda a região e as condições das estradas
estavam péssimas. Usamos a tração reduzida
algumas vezes e o guincho teve sua utilidade. Nas
estradas de terra encontramos muitas pontes de
madeira derrubadas pela força dos rios e isso nos
obrigava a arriscar a travessia (sempre testávamos
a profundidade e o tipo de leito do rio). Quando não
era possível, o jeito era buscar um desvio. Com isso atravessamos fazendas, pastos e
plantações. Certo dia, perdidos no meio do nada,
encontramos um lavrador e perguntamos pelo caminho.
Ele disse que era simples, bastando chegar até a
plantação nova de feijão e virar à direita.
Muito bem, alguém pode explicar como é uma plantação
nova de feijão? Ainda não usávamos o GPS e mesmo
ele não mostra como é uma plantação nova de feijão!!!
Assim fomos, procurando feijão, abrindo porteiras,
correndo de cachorros, atolando daqui e dali.
Esta era
nossa opção e estávamos gostando.
Finalmente
decidimos sair do sertão e curtir um pouco de
praia. Seguimos dali direto para Maceió, mas ainda
buscando caminhos alternativos. Desta vez as
estradas não estavam lamacentas, mas os buracos e a
poeira castigavam de forma inclemente.
Passamos
bons dias em Maceió, só curtindo praia, cerveja e
um calor insuportável. Num sábado decidimos comprar camarão e
fomos até a casa do pescador. Procuramos uma
entrada para a praia e fomos dirigindo pela areia até
encontramos um grupo do Jeep Clube de Maceió. Fomos
todos juntos até a foz de um rio, mas como a maré
já estava subindo, e rapidamente, não foi possível
cruzá-lo. Tivemos que voltar buscando os pontos
mais altos da praia, evitando as ondas, até que
nosso carro e uma Toyota atolaram de vez. Demoramos
mais de uma hora para desatolar cada um e,
finalmente achamos um pequeno caminho que subia a
falésia em direção a estrada principal, passando
por dentro de uma fazenda. Dali fomos até uma
cachoeira para nos refrescar. Nosso carro mostrou
toda a sua força e qualidade no off-road, subindo
por caminhos estreitos e com grande grau de
dificuldade. Na praia tivemos problemas, pois além
da areia fofa, nossos pneus não eram adequados para
aquela situação, diferente dos jeeps que estavam
juntos. Veículos muito leves e com pneus próprios
para aquele tipo de areia. Mas quando chegamos na
terra invertemos a situação. Tivemos que rebocar e
ajudar alguns carros a vencerem os obstáculos.
Os camarões?
Desistimos de comprá-los.
Depois de
uma bela estadia na Praia do Francês, Barra de São
Miguel, Ponta Verde e muitas outras praias, depois
de muita carne de sol, camarões e cervejas, era
hora de rumar para o sul. Nos despedimos e fomos
para Mangue Seco. Cruzamos o Rio São Francisco, na
divisa de Sergipe com Bahia e seguimos pelo asfalto
da Rodovia do Sol por vários quilômetros. Na praia
de Costa Azul entramos na areia e dirigimos de volta
a Mangue Seco por quase 80 quilômetros, numa praia
de areia dura, parecendo asfalto.
Mangue
Seco já foi cenário e tema de novela e é um lugar
especial. O fato de não haver carros (o nosso ficou
estacionado fora do lugarejo) dá uma tranqüilidade
muito grande. A vida passa devagar. As crianças,
que são muitas, brincam com o que tem e inventam
brinquedos. Foi divertido ver um menino puxando
alguma coisa viva em um barbante. Chegando mais
perto é que vimos que era um enorme caranguejo como
se fosse seu “carrinho”. Muito engraçado e
surreal.
Ficamos em
Mangue Seco por alguns dias e depois seguimos para
Praia do Forte, Subaíma e Itacimirim. Sempre que
podíamos entravamos pela praia ou buscávamos uma
estrada vicinal para chegar a algum lugar. E
chegamos a Salvador.
Nossas férias,
infelizmente, já chegavam ao fim. Depois de
Salvador ainda queríamos passar em Itacaré e Caraíva.
Além destas duas praias serem muito bonitas tem com
um percurso off-road interessante. Fomos de Porto
Seguro a Caraíva em uma estrada precária. Depois
seguimos para Itacaré. De Itacaré a Ilhéus
pegamos muita lama, de uma estrada em construção.
Demoramos muito tempo, não pelo nosso carros, mas
porque tínhamos que socorrer e rebocar outros
carros atolados. De lá decidimos vir pelo asfalto
até São Paulo, pois o tempo era curto. No meio do
caminho ainda paramos numa cidade do interior do Espírito
Santo. Dormimos ali e no dia seguinte, muito cedo,
saímos para a última etapa de nossa viagem. Estava
muito quente e tínhamos que rodar mais de 1000
km’s até São Paulo. Chegamos em casa à noite,
mortos de cansados e, o pior, sabendo que no dia
seguinte tínhamos que trabalhar. Mas valeu a pena.
O cansaço físico foi compensado por termos
atingido nosso objetivo de fazer uma viagem off-road
a maior parte do tempo, se não em todo o seu
trajeto, mas nas áreas onde verdadeiramente queríamos,
por ter sido uma viagem divertida, com paisagens belíssimas
e povo acolhedor. Ainda com a poeira da estrada no
carro e no corpo, já sentíamos saudades, mas já
era passado e ganhamos mais experiência. Hora de
preparar a próxima.
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