Amazônia e La
Gran Sabana
O que leva as pessoas a tomar decisões e
procurar saídas para situações difíceis e
imprevisíveis? Se formos otimistas podemos pensar
que um “tropeço”, na verdade, é uma forma de
andar para frente mais rápido e que as situações
imprevistas, na verdade, nos ajudam a incrementar a
criatividade. É
assim que estamos encarando nossa próxima viagem:
“o tropeço”, “o imprevisto”, “as decisões”,
“a criatividade”...
Foi assim que saímos de São Paulo rumo
a Venezuela, usando a criatividade. Colocamos desta
vez as mochilas nas costas e pegamos um vôo que nos
levou até Belém, onde começaríamos a nossa nova
aventura.
Descemos em Belém, sob um calor de 33
graus, contrastando com o frio de 9 graus que estava
em São Paulo. Daí pra frente, durante 32 dias tudo
foi muito diferente da rotina que vínhamos tendo em
São Paulo. Como sempre fazemos em nossas viagens,
nossa primeira providência ao chegar no aeroporto
foi tentar achar um hotel, bom, limpo e barato. A
pessoa que procuramos foi de zero a cem na indicação.
Ela indicou o hotel mais caro da cidade e um bem
baratinho. Acabamos indo para uma “espelunca”
com cheiro de remédio de matar barata. Claro que
chegando lá não ficamos. Achamos um outro hotel
novo e que estava fazendo uma excelente promoção.
Pagamos muito pouco por um hotel de excelente padrão,
muito bem localizado e com vista para a Baia de
Guajarás. Era tudo que precisávamos.
Muito bem instalados, resolvemos “nos
perder” na cidade e descobrimos que estávamos
conhecendo uma “Belém” bem diferente da que havíamos
conhecido muitos anos atrás. A exceção era a
mesma pancada de chuva que cai diariamente no final
da tarde. No mais a cidade ficou bem mais moderna.
Belém é uma cidade que tem praças bem
cuidadas e conserva o antigo, como as casas e ruas
da Cidade Velha. Uma parte do porto foi restaurada e
lá fizeram a Estação das Docas, um lugar muito
agradável com restaurantes, bares e até uma mini
cervejaria. À noite muitas pessoas vão para ouvir
músicas que são tocadas por bandas em palcos
suspensos e que correm de um lado para o outro
possibilitando que todos os clientes dos diversos
bares e restaurantes possam, além de ouvir os músicos,
vê-los. Dali saem passeios de barcos e abriga, também,
um teatro que tem uma programação bem variada e
para todos os gostos. Ao lado da Estação das
Docas, está o Mercado Ver-o-Peso, hoje todo
restaurado. É muito interessante andar por ali e
apreciar a variedade de frutas, plantas medicinais,
alimentos e artesanatos, assim como é bom sentar
num dos restaurantes simples para tomar o famoso
“tacacá”, ou comer os peixes da região, como
por exemplo, o
“Filhote”. Por falar em peixe, não é possível
ir a Belém sem dispensar uma manhã no Mercado de
Peixes.
Decidimos fazer um passeio de barco,
aproveitando o dia ensolarado. Foram seis horas de
passeio, passando pelas comunidades ribeirinhas,
vendo a impressionante habilidade das crianças
remando suas canoas e buscando na água os sacos de
biscoitos que as pessoas atiram para elas. Paramos
numa praia com águas super quentes e com ondas que
nos deixou impressionados. Era uma praia na beira do
rio que fica na Baia de Marajó.
Em áreas mais remotas os ribeirinhos se
alimentam de forma natural (frutas, peixes e outros
alimentos que conseguem na mata, além da mandioca
cultivada). Ficamos surpresos ao ler numa revista
local que a média de vida destes homens e mulheres
que vivem desta forma é muito maior do que a vida
de quem vive na cidade. Apesar de não ter nenhuma
comprovação, especula-se que vivem cerca de 85
anos, em média.
De Belém fomos para a Ilha de Marajó
num barco que demora 3 horas até Camará, porta de
entrada da ilha. Resolvemos ficar em Joanes, uma
pequena praia, fugindo um pouco do comum, Salvaterra
ou Soure, capital de Marajó.
A Ilha de Marajó tem 15 municípios e
muitas comunidades distribuídas numa terra que, em
extensão, é maior que a Bélgica, ou do tamanho do
estado do Espírito Santo. O maior problema é o
transporte público. É muito limitado e ninguém
nunca sabe se a “van” ou o velho ônibus já
passou, se vem ou não. Depois de saber deste
problema crônico da ilha, conseguimos chegar a uma
pousada muito agradável, num lugar muito especial.
Não poderíamos deixar de conhecer
Soure, pois afinal era a capital de Marajó. Saímos
da pousada bem cedo, aproveitando a “van” que
deixaria o povo local em Salvaterra para fazer
compras, pagamentos ou resolver qualquer outro
problema burocrático. O problema é que a tal e única
“van” disponível voltaria às 10:30h e nós não
poderíamos mais contar com ela pra retornar a
Joanes mais tarde. Relaxamos e fomos embora assim
mesmo. De Salvaterra para Soure é necessário
atravessar num barco. Apesar de avistarmos, de uma
cidade a outra cidade, o barco só sai com hora
marcada e pára no horário de almoço. Descemos em
Soure sem saber o que encontraríamos. Antes de
chegar especulamos se teriam prédios, ônibus, mas
ainda bem, não encontramos nada disso. Caminhamos
pelas ruas e seguimos até Barra Velha, uma praia
sossegada e muito distante do centro. Era preciso
passar dentro de uma fazenda. Logo na entrada vimos
muitos “guarás”, que são os pássaros da região.
Eles são de um vermelho fluorescente impressionante
que contrastava com o verde da vegetação. Depois
de uma longa caminhada sob um sol forte ainda bem
cedo, chegamos à Barra Velha, uma praia de rio com
areias bem branquinhas. Na entrada da fazenda
encontramos um francês que, por coincidência,
estava hospedado em Joanes e que tinha resolvido ir
para Soure na noite anterior. Seguimos juntos e
ficamos algumas horas na praia, tomando sol,
conversando e nadando. A volta foi mais difícil,
pois o sol estava escaldante. Tão escaldante que
todas as pessoas da cidade de Soure pareciam estar
escondidas dentro de suas casas por causa do calor.
Só víamos os búfalos, que pastavam pelas ruas
enfeitadas pelas mangueiras. Algumas vezes pareciam
estátuas, colocadas estrategicamente.
Depois de conhecer Soure e Salvaterra era
hora de pensar na volta. Sabíamos que existia um ônibus
que levava os “estudantes” pra casa, mas que só
saía as seis da tarde. Teríamos ainda que
conversar com o motorista e pedir uma carona.
Sentamos num bar para descansar e encontramos uma
pessoa que também queria ir pra Joanes. Ele, como
nativo, “negociou” um carro para que pudéssemos
retornar. À noite caminhávamos pelo lugarejo e o
mais impressionante era que as pessoas nos
cumprimentavam como se nos conhecêssemos há muito
tempo. O lugar nos era familiar. Foi aí que
lembramos que se parecia muito com Trancoso a mais
de 20 anos atrás. A igrejinha, o gramado, as
casinhas e a criançada brincando eram nossa diversão.
Além disto, aproveitávamos para nos deliciar com
um bolo de abacaxi feito pela Neide. Huuum, o sabor
é inesquecível. Talvez fosse a simplicidade
daquele lugar bucólico que nos fazia achar aquele
bolo simples tão saboroso e tentador. Afinal,
muitas vezes é na simplicidade que encontramos as
maiores felicidades da vida.
Queríamos ter ficado mais tempo em Marajó,
mas nosso barco para Manaus sairia às 6 da tarde e
por isto teríamos que ir embora a tempo de
embarcar. A opção foi sair de lá às 6:30 da manhã,
já que o outro barco sairia só na parte da tarde e
não conseguiríamos chegar a tempo de embarcar para
Manaus.
Chegando de volta a Belém, fomos até o
porto e conseguimos deixar nossa bagagem dentro do
barco que já estava ancorado. Foi muito divertido
porque muitas pessoas já tinham embarcado às 11
horas da manhã e a carga que o barco levaria já
estava sendo colocada no barco. Não adiantava ficar
ali o dia todo, por isto voltamos para o centro,
fomos ao shopping, enfim, caminhamos quase todo o
dia esperando a hora de embarcar rumo a Manaus.
Voltamos para o barco e no início da noite ele
tocou a sirene e partiu. A sensação foi muito
legal porque sabíamos que só chegaríamos ao nosso
destino em 5 dias.
O barco que escolhemos para a viagem foi
o “Santarém”. Já sabíamos que existiam outras
opções, mas sabíamos também que este era um
barco seguro, porque a empresa, em tese, não coloca
mais passageiros do que o barco comporta. A
capacidade máxima era de 350 passageiros. O barco,
ou navio como eles chamam (toda embarcação de
ferro é chamada de navio e as embarcações de
madeira são chamadas de barcos naquela região)
tinha no porão cargas de todo tipo, no primeiro
andar uma pequena lanchonete, a cozinha, um refeitório
somente para quem estivesse viajando nas redes
colocadas neste andar e banheiros. No segundo andar,
com ar condicionado, tinha espaço para redes,
banheiros, camarotes com beliche e o refeitório que
servia àqueles que estivessem neste andar e também
às suítes do andar superior. No terceiro andar, além
das suítes, tinha um espaço para diversão; bar e
espaço externo com som altíssimo e que começava a
funcionar a partir das 8 ou 9 horas da manhã até a
noite. A primeira refeição era servida de 6 às 7
da manhã, o almoço de 11 ao meio dia e o jantar de
17 às 18 horas. É claro que ninguém perdia os horários,
mesmo porque o barco não era tão grande e a
movimentação no horário das refeições era visível.
Não tínhamos absolutamente nada para
fazer no barco a não ser ver como vivem os
ribeirinhos, conversar com as pessoas, ler ou
descansar. Tudo era surpreendente. No primeiro dia,
o barco navegou pelo rio Pará. Este rio é mais
estreito que o Amazonas e dá pra ver exatamente
como vivem os ribeirinhos, como as casas são
construídas e a habilidade das crianças que nascem
e vivem praticamente dentro do rio. Quando o barco
se aproxima de algumas comunidades muitas crianças
pegam suas pequenas canoas e ficam esperando o barco
passar. As pessoas jogam presentes enrolados em saco
plástico na água ou as crianças, algumas vezes,
contentam-se somente com um aceno ou com o
“banzeiro”, pequenas ondas que o barco provoca,
retornando em seguida para as suas casas. Crianças
e adolescentes demonstram habilidade incrível ao se
aproximarem do barco com suas pequenas canoas para
“laçarem”, literalmente, o barco em movimento.
Eles atracam suas canoas e entram, como piratas, mas
para venderem farinha, queijo, doces, palmito e
frutas da região. Numa das vezes contamos nove
barcos atracados. Depois de uma ou duas horas dentro
do barco, eles se soltam e retornam para suas casas,
remando. Vimos alguns se soltarem já à noite e
sumirem na escuridão do rio.
Somente no final do dia chegamos, no Rio
Amazonas. O entardecer estava lindo e a visão do
gigantesco rio era muito impressionante. Nestas
alturas já tínhamos alguns amigos dentro do barco.
Além das pessoas da região, encontramos vários
“gringos”. Conhecemos o Stefano, um italiano que
vinha do sul do Brasil, depois de ter viajado pela
Argentina, o Robert que é inglês e estava viajando
junto com a Zana, uma namorada de Latvia (pra quem não
sabe não é vergonha nenhuma, pois Latvia é um
pequeno país entre a Estônia e a Lituânia).
Conhecemos também o Trent (americano) e a Christin
(da Nova Zelândia), que estavam aproveitando três
meses para conhecer um pouco da América do Sul e América
Central). A Mie é japonesa e viajava sozinha em
redes, sem ar condicionado. Também estava viajando
há 3 meses e de Manaus iria para Porto Velho, Lima
e Japão. O Benjamin é um Chinês, radicado em San
Francisco e tinha desistido do emprego para viajar e
fotografar as maravilhas da América do Sul. A Patrícia
era a única brasileira, além de nós, desta turma.
Ela é do Espírito Santo, mas mora no Rio de
Janeiro. Eram suas primeiras férias depois de ter
retornado de uma temporada trabalhando na
Inglaterra. O grupo estava formado e logo o Stefano
já tinha virado “Empório Armani”, o Robert era
o “James Bond”, a Zana virou Xuxa, nós éramos
“Mr.President & First Lady” e assim nos
divertíamos entre uma e outra parada nas
cidadezinhas. Quando era possível descíamos do
barco pra tomar cervejas no porto mesmo, enquanto o
barco era descarregado e carregado.
Em Santarém, fizemos uma parada bem
maior. Conversamos com o Comandante e descobrimos
que o barco ficaria ancorado das 8 da manhã até às
4 da tarde. Resolvemos ir além do porto. Fomos para
Alter do Chão, que ficava 32 kms de Santarém.
Avisamos aos “gringos” o que queríamos fazer e
eles decidiram nos acompanhar. No caminho vimos uma
caminhonete que fazia carretos e resolvemos ver
quanto o motorista cobraria pra nos levar até nosso
destino, esperar e voltar conosco à tarde. A
negociação foi muito boa e fomos, todos, na caçamba
da velha caminhonete. Nadamos na praia de rio,
tomamos cerveja, almoçamos. Enfim, nos divertimos
muito e voltamos em tempo de embarcar novamente e
seguir adiante. O barco seguiu em frente parando em
outras cidades incluindo Parintins. Chegamos um dia
antes de começar a “Festa do Boi”, que hoje se
tornou conhecida nacionalmente. O porto estava cheio
de barcos. A expectativa era que chegassem cem mil
visitantes para o duelo dos bois que acontece no
“bumbódromo” da cidade. Como a cidade não
comporta esta gente toda muitos ficam nos barcos.
A Festa do Boi é muito importante no
norte. O Boi Garantido é o vermelho e é muito
popular. O Boi Caprichoso é o azul e, segundo os
torcedores do Garantido, é da elite. A rixa é tão
grande que os torcedores de um não pronunciam o
nome do outro. Eles se referem somente como “o
contrário”. A festa também tem resgatado a
cultura local e o interesse de adolescentes e
jovens, deixando-os cada vez mais orgulhosos da sua
descendência indígena. Os temas abordados são
folclóricos e as apresentações acontecem numa
arena. Cada boi apresenta-se em forma de dramatização,
com músicas e textos, contando a estória. A
torcida do boi que está se apresentando participa
com uma coreografia específica e a torcida do
“contrário” não pode se manifestar de jeito
nenhum, caso contrário, perde ponto. Isto acontece
nos três dias de festa. Ao final um júri decide
quem foi o ganhador e este se apresenta no final de
semana seguinte, em Manaus. Deste nós participamos,
com o Garantido campeão.
Depois de quase seis dias de viagem,
finalmente chegamos em Manaus. Foi um misto de
excitação pela chegada e tristeza por ter
terminado a viagem. Nem vimos passar todos aqueles
dias. Tudo era igual no barco, mas ao mesmo tempo
diferente. As pessoas, as histórias, tudo isto dá
para escrever um livro com tudo que ouvimos as
pessoas contarem. Tivemos experiências únicas,
inclusive a de quase ficarmos encalhados num banco
de areia. Aprendemos um pouco sobre o rio e
descobrimos que ele é misterioso e diferente a cada
dia. Escutamos lendas sobre a “cobra grande”,
sobre o “boto”, que nos acompanhava
constantemente, aprendemos sobre as estrelas, enfim,
tudo foi enriquecedor e mágico.
Chegamos finalmente a Manaus. Fizemos
muitas coisas diferentes. Encontramos e
reencontramos muitas pessoas. Cada um de nós que
estávamos no barco se arranjou em algum lugar, mas
no final da tarde nos reuníamos para colocar a
conversa em dia e contar as experiências de cada
um. Reencontramos velhos amigos. A Ana, dona Darci e
a Sussu são pessoas muito especiais e que
conhecemos há muito tempo numa época que ainda nem
cogitávamos em nos mudar para São Paulo. O Pedro
também era daquela época de Belo Horizonte. Manaus
nos pareceu bem diferente daquela que tínhamos
conhecido a muito tempo atrás. Não sabíamos
definir se era nossa visão mais amadurecida, depois
de ter conhecido tantos outros lugares e ter
novamente aprendido a valorizar nossas raízes,
nosso país e nossa gente, ou se realmente estava
tudo muito diferente, com a grande invasão dos
turistas estrangeiros. Não importava, começamos a
conhecê-la como se nunca tivéssemos conhecido.
Fomos ao Palácio Rio Negro, Teatro
Amazonas, Museus, centro da cidade, a Igreja Matriz,
ao INPA – Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia,
ao CIGS – que é um zoológico do batalhão de
selva, etc, e também ao Encontro das Águas do Rio
Negro e Solimões, os igapós, à Reserva Ecológica
de Janauari. Pudemos recordar nossas aulas de ciências,
geografia e aprender muito, muito mais... Aprendemos
porque os rios Solimões e Negro correm sem se
misturar. Devido à diferença entre a densidade das
águas (a densidade da água do Rio Negro é menor),
temperatura (5 graus de diferença) e a velocidade
(a água escura corre 2 kms/h e a clara 5kms/h) é
que os dois rios correm lado a lado, se misturando
somente depois de 5 kms. Este é um fenômeno único.
Vimos as Vitórias-Régias e ficamos sabendo que
elas são presas por um “caule” que liga as
folhas ao fundo. Na parte que fica virada para a água
ela tem uma espécie de “ventosa” que permite
agüentar o peso de um pequeno jacaré-açu, até 20
quilos, sem afundar. Cada planta é composta de
aproximadamente dez folhas e ao contrário dos seres
humanos nascem com as folhas enrugadas, ficam lisas,
dão flores e simplesmente se desfazem e
desaparecem. A flor, por sua vez, nasce branca e em
três dias fica rosada, só abrindo à noite, em
dias nublados ou chuvosos.
Vimos as casas flutuantes, navegamos nos
igarapés, que são os pequenos rios, nos “paranás”,
que são os rios formados somente nas cheias, e nos
“furos”, que são menores que os paranás e que
na verdade nada mais são do que a floresta
inundada. Conhecemos a sambaúma, uma árvore
gigantesca, com raízes longas que permitem que ela
fique dentro d’água e que mantenha a árvore
estabilizada nas grandes ventanias. É uma das árvores
mais altas da floresta e é uma espécie de
”telefone indígena”, já que em época de seca,
batendo em seu tronco o som pode ser ouvido até 5
kms de distância.
Além de tudo isto, nos deliciamos com as
diversas frutas e os peixes da região. Tomamos o
Café Regional, que é servido aos domingos em
lugares muito agradáveis e, normalmente, afastados
da cidade, e que onde se pode apreciar desde a
variedade de sucos de frutas como o taperebá,
murici, cupuaçu, abacaxi, acerola, e outros, até o
sanduíche com tucumã e queijo coalho, a pupunha e
muitas outras coisas.
Também comemos costela de Tambaqui e outros
peixes da região, como o tucunaré, pirarucu,
jaraqui. Foi uma festa de sabores.
Aproveitamos para conhecer também as
cachoeiras que ficam perto da cidade de Presidente
Figueiredo, a 107 kms de Manaus. O nome da cidade
nada tem a ver com o antigo presidente do Brasil,
mas é homenagem a outro Figueiredo que foi o
“prefeito” (antigamente chamado de presidente)
do lugar. Existem aproximadamente 40 cachoeiras,
sendo que para visitar algumas é necessário
autorização da Secretaria de Turismo. A maioria
fica em propriedades privadas. Conhecemos Iracema,
Santuário, as corredeiras do rio Urubuí e
infelizmente não vimos tudo que gostaríamos, mas
tudo bem, porque assim temos motivos pra voltar mais
uma vez...
Era hora de partir. Fomos de ônibus para
Boa Vista. Existia um motivo para que esta viagem
fosse feita de ônibus e durante o dia. Queríamos
passar pela Reserva Indígena Waimiri-Atroari. São
125 kms de estrada, onde é proibido parar,
fotografar ou filmar. A passagem só é autorizada
entre 6 da manhã às 18 horas, quando a cancela da
estrada se fecha. Somente os ônibus, que são
poucos, têm autorização
para trafegar a noite. Os Waimi-Atroari ocupam uma
área de 2.585 km quadrados. São aproximadamente
877 índios, distribuídos em 18 aldeias. Durante a
construção da rodovia – BR 174, em 69-73, o
conflito entre brancos e índios resultou na morte de
muitas pessoas.
O movimento da estrada que liga
Manaus-Belém, não é muito grande. Dentro da
reserva cruzamos somente dois caminhões e quatro
carros pequenos. A estrada é bem estreita e sem
acostamento, e obrigava o motorista a
“ziguezaguear” para escapar dos buracos da pista
causados pelas chuvas.
Depois de 12 horas de viagem chegamos a
Boa Vista. Na estrada, além da reserva indígena,
vimos mata fechada, fazendas de gado e mais uma vez
cruzamos a linha do Equador, que neste trecho é
demarcada por uma grande pedra, que é o marco zero
ou latitude zero. Ao contrário do que vimos no
Equador onde a “Mitad Del Mundo” é um ponto
visitado por pessoas de todo o mundo, só
conseguimos ver o “marco” porque estávamos
muito atentos a tudo que se passava pelo lado de
fora do ônibus. Isto também nos permitiu enxergar
um Tamanduá em busca de formigueiros.
Em Boa Vista fomos recebidos pela Eliana,
que é amiga da Ana, nossa amiga de Manaus. Ela nos
mostrou a cidade e nos levou para um lanche. Apesar
de pequena, Boa Vista é uma cidade limpa e muito bem
planejada. Nos causou uma ótima impressão à
primeira vista. As pessoas são simpáticas,
educadas e hospitaleiras. Apesar de não ter nenhum
shopping e só ter um cinema, foi lá, o único
lugar no Brasil, que vimos os motoristas respeitarem
os pedestres. Ao colocarmos o pé na faixa, mesmo
que não tenha sinais de trânsito, os motoristas
param imediatamente. Nos sentimos em outro país. A
cidade tem a forma de um “leque”. As avenidas são
largas e compridas. No canteiro central de uma das
avenidas, que liga o centro ao aeroporto, no
Complexo Ayrton Sena, foram construídos bares,
lanchonetes, sorveterias, pistas de motocross, espaços
para as crianças brincarem, espaço para exercícios
físicos, centro de artesanatos, etc. À tarde e à
noite o lugar fica bem movimentado, dividindo com a
“Orla Taumanan”, que é uma espécie de
“malecon” ou “calçadão”, às margens do
Rio Branco. É um complexo com bares e restaurantes,
com muita gente namorando e crianças se divertindo.
Decidimos que Boa Vista seria o lugar que
passaríamos uma data muito especial para nós. Era
nosso aniversário de 25 anos de casados. Fizemos
nossa programação para comemoração, com a ajuda
do Sr. Ramiro, pai da Eliana, da própria Eliana e
do Paulo, irmão dela que tinha um bom hotel na
cidade. A comemoração foi num dos restaurantes da
orla, regado a um bom vinho e Tambaqui na telha,
especialidade do lugar. Depois ficamos namorando,
olhando as estrelas cadentes, a lua, o céu, o rio,
a mata da outra margem... Foi muito gostoso e romântico.
Nos sentimos muito felizes e fizemos planos para os
nossos 50 anos de casados e “otras cositas más”...
Já em Boa Vista, começamos a ficar
preocupados com relação à nossa escalada ao Monte
Roraima. O motivo era que, curiosamente, enquanto no
sul do Brasil o inverno deixava os termômetros na
casa dos 7 ou 8 graus, em Belém e Manaus as TV’s
já anunciavam o verão. Porém, em Boa Vista ainda
era inverno, mas isto não quer dizer temperaturas
baixas. Os termômetros batiam a casa dos 33 graus,
mas a chuva indicava a estação. Só então ficamos
sabendo que o verão chegaria apenas em Setembro e
que Boa Vista acompanhava a estação da Venezuela,
pela proximidade. Aliás, a Venezuela e a Guiana
Inglesa estão muito mais próximos de Boa Vista do
que Manaus. Num raio de 100 a 200 kms é possível
chegar nestes dois lugares, enquanto foram necessárias
12 horas para chegar em Boa Vista, vindo de Manaus.
Não nos deixamos abater e mais uma vez pegamos um
ônibus para a cidade de Santa Elena, na Venezuela.
A viagem não seria longa, apenas 4 horas
até Pacaraíma que fica na fronteira da Venezuela,
mas ainda do lado brasileiro. Como os ônibus que vão
diretamente para Santa Elena, não saem todos os
dias, resolvemos seguir o conselho dos vendedores de
passagem da empresa. Chegando na fronteira teríamos
que pegar um táxi e rodar 15 kms até Santa Elena.
Saímos de Boa Vista debaixo de chuva. A estrada era
a mesma BR 174, estreita e sem acostamentos. O mais
interessante, desta vez foi observar a relação
passageiros-motorista que conversavam quase que por
códigos. Não conseguíamos entender como o
motorista sabia exatamente qual era o lugar que
queriam descer. O motorista muitas vezes parou
“num nada”. É claro que devia ter alguma
sinalização ou coisa parecida que nós não
conseguíamos enxergar. Diziam para parar no “oásis”,
mas não víamos nada, pediam para parar depois da
“placa branca” e no entanto não enxergávamos
placa alguma. Desistimos de tentar entender e nos
deixamos levar pelo encanto da paisagem.
Nesta estrada passamos também por uma
reserva indígena que abriga três tribos sendo uma
delas dos índios Macuxis. Interessante é entender
que para os indígenas não existe
“nacionalidade”. Eles são capazes de transitar
entre os países sem perceberem a diferença a não
ser pela distinção que fazem, dizendo que o Brasil
é “terra plana”, a Venezuela é “terra
montanhosa” e a Guiana é “terra selvagem”.
Afinal, eles são os donos destas terras muito antes
delas serem brasileiras, venezuelanas ou
“guianeses”.
Chegando em Santa Elena, percebemos que
realmente estávamos na estação chuvosa. As ruas
da cidadezinha estavam alagadas. O mesmo táxi que
nos levou até ali nos indicou o caminho para que
pudéssemos carimbar nosso passaporte dando entrada
no país. Por falar nisto, esta fronteira foi o único
lugar que demos saída no passaporte brasileiro.
Geralmente quando saímos do Brasil nunca é
estampada a saída. Não entendemos porque, mas
seguimos as regras.
Era hora de nos informar sobre o trekking
ao Monte Roraima. A cidade é um dos principais
pontos de saída das expedições para o Monte
Roraima e para a Gran Sabana. A idéia seria escalar
o monte, que com seus 2.700 metros de
altitude, é um dos locais mais visitados do Parque
Nacional Canaima. Este trekking leva os aventureiros
ao “Mundo Perdido”, chamado assim por causa de
suas formações geológicas peculiares, seu
isolamento e também por ser um dos lugares mais
antigos do mundo. O percurso é feito, a pé,
durante seis dias e cinco noites.
No primeiro dia a saída é feita de
Santa Elena, na parte da manhã, num carro 4x4 até
a comunidade indígena de Peraitepuy de Roraima para
encontrar com os nativos que ajudam com os
equipamentos e comida, afinal é preciso levar
barracas, sacos de dormir, comida, etc, para todos
estes dias. Dali caminha-se até o primeiro
acampamento, já a 1.400 metros de altitude à beira
do Rio Kukenan.
No dia seguinte, depois do café da manhã,
começa uma caminhada longa até atingir uma
altitude de 2.000 metros. Novamente acampa e passa a
noite, descansando para o dia seguinte, que será a
subida do Monte Roraima.
No terceiro dia começa com a subida do
Monte, onde no seu topo atinge-se
2.700 metros. Novamente são mais algumas
longas horas de caminhada, mas desta vez com extrema
dificuldade, pois a subida é íngreme e nesta região
costuma chover sempre. Já no alto do Monte Roraima,
o acampamento é feito em pequenas cavernas, que os
nativos batizaram de “Hotéis”.
O quarto dia é dedicado à exploração do topo do
monte. Pode-se ver o marco da tríplice fronteira
entre Brasil, Venezuela e Guiana, o Vale dos
Cristais e algumas piscinas naturais.
Já que “para baixo todo santo ajuda”
o quinto dia é reservado para a descida até o Rio
Tek, numa caminhada de 8 horas, onde os aventureiros
passam a noite acampados, para seguir viagem, no dia
seguinte, novamente, até a comunidade indígena
Peraitepuy de Roraima. O caminho de volta é feito,
outra vez, num carro 4x4, até Santa Elena.
Infelizmente, toda esta programação não pode ser feita. Por
causa das chuvas fortes, o rio Kukenan estava muito
cheio e intransponível. Os guias locais,
autorizados, não queriam arriscar a subida pela dificuldade em função do tempo. Fomos em
todos os lugares, nos informamos com todas as
pessoas e a resposta era sempre a
mesma. Começamos a acreditar que realmente a
escalada teria que ficar para uma outra época.
Mesmo se conseguíssemos chegar ao topo seria impossível
ver a tríplice fronteira, as piscinas e os
cristais, já que o monte estava cercado de nuvens e
neblina todo o tempo. Enfim, novamente, este seria
um ótimo motivo para voltarmos numa outra época
para Santa Elena e escalar o Monte Roraima.
Resolvemos que não nos deixaríamos
abater e fomos conhecer a Gran Sabana. Conhecemos
uma pessoa muito interessante, um contador de estórias,
que nos acompanhou. Conhecemos sobre as minas de
ouro e diamantes da região, vimos
montanhas que alguns juram presenciar aparições
de “OVNIS” e também as montanhas
“vaginales” chamadas assim pela forma
triangular, com vegetação rasteira, e com reentrâncias
com vegetações altas, formando “tufos” como se
fossem os pêlos pubianos. Com imaginação vimos as
três mulheres grávidas dando a luz e mais adiante
vimos o perfil de um homem deitado que, segundo os
índios, quando ele despertar “cabeças vão
rolar”, literalmente.
Tepuis, na língua dos Pemóns, índios
da região, são montanhas, sejam elas grandes ou
pequenas, arredondadas ou chapadas. As mais
conhecidas da região são Chirikayen, Roraima e o
Kukenan, que podem ser vistas lado a lado. Paramos
nos vales de Kukenan e no Vale de Aaka, que segundo
a lenda, se você gritar e ouvir o eco, você já
viveu neste vale ou viverá outra vida. Nós,
pelo visto, já vivemos por lá ou vamos viver uma
outra vida. Talvez tenha sido por isto o nosso fascínio
tão grande pelo lugar. O mais engraçado foi ouvir
de volta alguém gritando “louco” e soando o
eco. É um morador local que grita de volta
sempre que alguém, curioso, resolve testar a lenda.
Paramos para um banho na Quebrada de
Jaspe, atrativo único e insólito. O lugar era de
tirar o fôlego. As pedras muito lisas de jaspe
brilham sob a água num tom avermelhado fantástico.
Dizem que o lugar tem uma energia muito grande e que
em muitas fotos apareceram pontos
luminosos. O único incômodo eram os
“puri-puri”, aqueles mesmos mosquitos que
conhecemos como “mutuca’ ou “borrachudo”.
Vimos também o Rio Yuruani, o Salto Arapená,
Soroape, Quebrada de Pacheco, Valle de Los Quatro
Vientos, Mirante Piel Del Abuelo, Salto Kamá ou Kamá-Merú.
A Gran Sabana reserva muitas surpresas.
Paramos para ver os “mini tepuys”, que é uma
formação arenosa com miniatura dos tepuys, do Gran
Cannyon e do Salto Angel. Fantástico também foi
observar uma floresta e perceber que bem na frente,
ao nosso lado, existia uma mini floresta,
verdadeiros “bonsais”, que eram exatamente
iguais à floresta atrás. Ainda em plena Sabana,
cuja característica são montanhas lisas e com
pequenas ondulações nos deparamos com montanhas
que nos fizeram lembrar a paisagem montanhosa da Irlanda.
Além do que vimos em termos de natureza,
almoçamos numa comunidade indígena e
experimentamos o “picante”, pimenta com molho de formigas ou cupim. Bem, o
picante era muito bom, mas as formigas e os cupins não
davam para encarar, embora eles jurassem que era
muito saborosa. Entramos numa casa de um indígena
que tinha três filhos pequenos. Geralmente, a parte
da frente da casa é usada para fazer trabalhos
manuais, artesanatos e a parte íntima, ou seja, o cômodo
onde são colocadas as redes fica na parte de trás.
Existe uma peculiaridade neste povo indígena. Eles
jamais olham os brancos nos olhos. Dizem que os
olhos mentem e a palavra não mente. Numa negociação
eles sabem, através da voz, se a pessoa está
blefando ou não.
Graças ao nosso novo amigo venezuelano,
que nos acompanhou pela Sabana, aprendemos muitas
coisas sobre o povo, sobre os lugares onde estivemos
e ouvimos muitas lendas indígenas, como a do
Beija-Flor**, do Tigre e do Caranguejo e outras (**
Veja o link para
a lenda do Beija-Flor no final deste texto).
Era hora de decidir o que fazer, já que
também tentamos fazer um trekking de 3 dias até um
“tepuy” menor, o Cherikayen, mas também não
deu certo porque o guia que nos levaria teve um
problema de saúde com o filho. Diante disto,
tomamos a decisão de pegar o ônibus de volta até
Boa Vista e seguir novamente para Manaus.
Loucura? Não. Precisávamos fazer alguma coisa diferente e ousar um
pouqco mais. Nos sentimos um pouco frustrados por não
conseguir escalar o Monte Roraima e para que esta
sensação não ficasse nos perseguindo até
voltarmos numa outra época, pensamos num outro
desafio. Resolvemos seguir para a selva e saber como
era sobreviver alguns dias dentro dela.
Em Manaus nossa jornada começou às 5 e
meia da manhã, quando partimos com um índio da
tribo Waipixana, da Guiana Inglesa, rumo a uma
comunidade a três horas de ônibus de Manaus. De lá
pegamos uma canoa motorizada e viajamos mais ou
menos quarenta e cinco minutos pelo rio Urubu, até
chegar na selva. Diferente do que muita gente está
acostumada, lá não existia nenhum hotel, somente
uma maloca e redes para dormir. O banheiro era
improvisado, mas pelo menos tinha uma cerca bem rústica,
também feita de palha, que nos deixava mais à
vontade. O banho é no rio, com piranhas. Pura
verdade. A canoa motorizada voltou e a partir de então
só tínhamos as canoas a remo. Passeamos pelo rio,
remando, é claro, aprendemos a pescar piranhas
somente com a linha e anzol. As piranhas são muito
rápidas e é preciso muita sensibilidade para
sentir quando elas fisgam a isca. Este seria o nosso
jantar por isso caprichamos na quantidade.
O entardecer no rio foi maravilhoso e
rapidamente a noite caiu. Não é preciso dizer que
tudo ficou absolutamente escuro. Tentamos ir ao
banheiro, mas foi impossível pela quantidade de
aranhas. Só podíamos contar com nossa lanterna e
uma ou outra vela que só iluminava um pouquinho. O
índio nos chamou para “focar” o jacaré. Saímos
na escuridão, com uma lanterna, entramos na canoa e
fomos para o igapó. O cheiro e os sons eram bem
diferente do que sentimos durante o dia. Ele ia à
frente, com a lanterna na boca e olhando para todos
os lados. Tínhamos que passar bem próximo às árvores
inundadas (só pra lembrar o igapó é a floresta
inundada) e muitas vezes ajudar a atravessar a canoa
puxando as árvores com as mãos. Muitas folhas,
galhos de árvore e “coisas” que não sabíamos
o que eram caíam sobre nós. Num certo instante a
canoa encalhou e ele teve que descer nos troncos de
árvores caídos e empurrar. Outra vez ele parou
diante de um tronco que teríamos que passar perto e
focou com a lanterna uma aranha gigante venenosa.
Focou em seguida mais outra que picou um grande sapo
que morreu na hora. Tudo isso em silêncio para não
espantar os jacarés.
Procura daqui, procura dali... Os índios-guias
estão acostumados e até pegam os jacarés menores,
mas nós tínhamos receio de passar por cima de um
deles e ele levantar. Bom, pensávamos o impensável.
Foi uma “longa” jornada. Achamos que nunca mais
sairíamos daquele labirinto de árvores. Depois de
olha daqui, olha dali, e de muitos sustos,
finalmente saímos daquele lugar e entramos no rio
principal. Olhando para o rio tivemos uma visão
fantástica. O céu estava completamente estrelado e
refletia nas águas escuras do Rio Urubu. Parecia
ser possível pegar as estrelas com as mãos. O silêncio
era profundo, a escuridão era total. De repente o
nosso guia disse ter ouvido o som de uma onça no
meio da floresta. Quando chegamos na margem,
focamos um jacaré que abaixou e sumiu. O índio olhou todos os lugares por onde
passaríamos e nós chegamos na nossa maloca de onde
não saímos mais. Acendemos mais uma vela, subimos
na rede e tentamos dormir o mais rápido possível.
Estávamos muito cansados e queríamos dormir e não
acordar durante a noite. Impossível.
O amanhecer na floresta compensou todo o
cansaço de andar e remar. Os macacos, que eles chamam de Guaíba
(conhecemos como bugios) faziam um barulho
ensurdecedor antes do amanhecer e logo em seguida os
pássaros começaram a cantar. Fomos para o rio ver os pássaros. Foi a primeira
vez que ouvimos o bater de asas dos pássaros. A água
parecia um espelho, de tão lisa. As árvores, a
mata e os pássaros refletiam. A sensação era
muito boa. Era a perfeita sintonia entre nós
humanos e aquela exuberante natureza...
Ali, já era a floresta, mas fomos
adiante. Entramos mata adentro. Caminhávamos incansáveis
horas. Dentro da selva tudo é intrigante: o som dos
animais, pedaços de árvores que caem
constantemente e o som destas árvores caindo.
Parece uma estufa. A maciez do chão por causa da
cama de folhas é impressionante. Mais uma vez
presenciávamos a perspicácia do nosso amigo índio.
Ele ouvia todos os sons enquanto caminhávamos,
mesmo com o barulho de folhas secas por causa da
nossa passada. Sem dizer que ele também enxergava
bem no escuro e sabia as horas sem olhar no relógio,
é claro. Fizemos alguns testes e deu certo. Nossa câmera
tinha um relógio. Perguntávamos as horas e ele
respondia certo. Inacreditável.
O índio parava sempre que ouvia algum
som de animal ou às vezes parava para matar alguma
mosca chata que ficava rodeando. O tapa era certeiro
e fatal. A mosca caía mortinha. O mesmo não
acontecia conosco, é claro. Pouco falávamos porque
os animais podem nos ouvir a uma grande distância.
A selva abriga muitos animais bonitos como as
araras, os pássaros, mas abriga outros animais como
as onças, porcos do mato, jabutis, tamanduás,
bicho preguiças, veados, sem falar das cobras,
formigas, aranhas, etc. Fomos aprendendo sobre as
plantas medicinais como “vick” que é bom para
gripe, a “preciosa” que cura dor de estômago,
além do “Pará”, que tem um leite que os índios bebem. Vimos frutas, como o açaí,
bacaba, buriti. Além disso, aprendemos que o
“tapuru”, que é uma larva que fica nas
palmeiras é comestível, e por aí vai. Vida de índio.
A floresta, além dos animais, têm
riachos, cachoeiras, é escura, às vezes, também mostra os raios de sol entre as árvores, chove freqüentemente,
tem neblina, muitas árvores caídas, areia algumas
vezes, tem muito cupim, formigueiro e coisas
estranhas, como alguns cogumelos que vimos. Tem também
estórias arrepiantes, como “espírito da
floresta”, lugares em que surgem fogos azuis,
folhas que caem como se árvores estivessem
sacudidas, cobra grande e tudo isto, contado,
obviamente, à noite.
O cair da noite na selva é
impressionante, na mesma proporção que o amanhecer é
fantasticamente lindo. Quando a noite chegava nos
ajeitávamos nas redes amarradas nas árvores e com
uma pequena cobertura com folhas de palmeira para
proteger da chuva. Por sorte nossa conseguimos dois
mosquiteiros que nos deixava mais confortáveis.
Ouvimos um caso de que algumas pessoas saíram para
a selva e que a onça tinha atacado somente uma
delas que não estavam com o mosquiteiro. Isto
porque ela ataca somente no pescoço e o
mosquiteiro dificulta saber em qual dos lados está
a cabeça. Insistimos para nosso guia levar também
um mosquiteiro, mas ele recusou. Ficamos
preocupados, pois nada adiantaria nos proteger e
acontecer alguma coisa com ele. Se isto ocorresse
jamais conseguiríamos sair dali. Enfim, nada
aconteceu. Lógico. Ele é índio.
A experiência na selva nos fez enxergar
como somos tão pequenos e impotentes. Somente quem
nasceu nela pode tirar o proveito de tudo que ela
pode oferecer e pode conviver com todos os animais
que ela abriga. Para nós, que só vemos animais no
zoológico, nos sentimos inseguros de sabermos que
dentro da selva estamos vulneráveis. Aquele é um
mundo real e nós somos presas muito fáceis. Vimos
o quanto somos impotentes diante dos animais
maiores, como uma onça ou uma surucucu, como somos
impotentes diante de uma cobra menor, mas venenosa,
das aranhas, dos escorpiões ou de, simplesmente, uma
formiga.
Além de toda esta experiência,
importante foi o convívio com o nosso índio-guia,
que acredita em sereia e espírito da selva.
Observamos sua esperteza e seu instinto apurado, mas
também observamos o respeito e a prudência dele
diante da selva e do rio.
Ouvimos estórias assustadoras contatadas sob a
escuridão da noite e começamos a colocar em
dúvida toda a nossa racionalidade. Muitas pessoas têm
medos que para nós são infundados, como medo do
boto e da cobra grande, outros não chegam perto dos
rios ao meio dia e as seis da tarde. Se todas estas
coisas existem ou não, sinceramente não sabemos,
mas sabemos que os medos precisam existir para que
sejamos prudentes e para que nossos desafios e
aventuras sejam vencidos de forma saudável e
consciente e que, além de nós humanos, existem
outros seres muito mais poderosos que nós. É
importante que nossa prepotência seja colocada de
lado e que possamos saber que vencer e enfrentar os
medos menores já é uma grande passo para nossa
vida.
Mais uma vez, a viagem valeu a pena.
Conhecemos pessoas, culturas, reencontramos amigos,
revisitamos lugares e conhecemos lugares novos.
Aprendemos muito e agora podemos passar mais esta
experiência a todos. Nos sentimos mais ricos e mais
felizes por termos tido a chance e a coragem de
enfrentar o novo e presenciar toda esta beleza da
vida.
Desta vez não ficamos restritos ao
carro, viajamos de avião, ônibus, barco, carro e
nossos próprios pés. Isto prova que nossa
liberdade não estava restrita ao nosso Land Rover,
que alguém inadvertidamente nos tirou. Ele foi
parte da nossa história, mas a verdadeira
“liberdade” nada mais é que o nosso espírito
de aventura, nossa vontade e a curiosidade de
conhecer lugares e pessoas, seja lá como for.
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